Eu levei um tempo da minha vida fazendo
cherry picking (escolha seletiva com supressão de evidências
indesejáveis), usando viés de confirmação, em relação a possíveis indícios da
existência do Deus bíblico.
Depois fui colher as frutas podres lá
nas Escrituras e me permiti ver que todo o conjunto, de cabo a rabo, era obra
humana, apenas humana, gritantemente humana, cheia de desumanidades. E parte
considerável era mítica, fabular, com adaptações de mitos e lendas de outros
povos, repleta de contradições, de pensamento mágico, de absurdos
antinaturais. No Velho Testamento criaram um deus com distúrbio de múltipla
personalidade, uma pior que a outra, convenhamos; e no Novo Testamento há uma
inseminação artificial, um pai ausente, clamores sem respostas de um filho que
fala com o pai, mas que é o pai simultaneamente, e muito diabo. Percebi que
talvez fosse menos danoso para a humanidade se continuássemos acreditando em
Papai Noel depois de adultos e desfrutando do conforto psicológico
proporcionado por essa figura mágica que recompensa nosso bom procedimento e
nos ignora se não nos comportamos bem, do que substituir esse mito infantil
pelo consolo na "maturidade" de um deus elaborado para suprir nossa
necessidade de conforto emocional e propósito existencial, mas que se presta a
todo tipo de exploração e manipulação por parte das religiões organizadas e
suas autoridades outorgadas ou autoproclamadas - entretanto, conhecendo bem a
dinâmica das sociedades humanas, a imagem do Papai Noel fatalmente seria ressignificada
e alvo das mesmas explorações dos atuais deuses dos adultos. Enfim, desfiz
(libertei-me de) minha configuração mental que, prolongando-se da infância,
aceitava como possível a ocorrência de eventos lendários, fabulosos, míticos,
quiméricos, alegóricos… em suma, inventados.
A seguir abdiquei também da ideia de um
deus criador, porque teria que imputar a ele (esse argumento não é
originalmente meu) o osteossarcoma (câncer ósseo infantil), para citar uma
neoplasia, dolorosa, que acomete crianças. Sem contar que esse deus também
seria responsável pelos inúmeros vírus e outros microrganismos que se abatem
sobre crianças e lhes causam imensos sofrimentos e sequelas (paralisia
infantil, por exemplo). Face a tais exemplos ilustrativos, entre muitos outros,
concluí que não podia levar adiante um sistema de crença em um ser superior
criador com tal nível de canalhice. Convenhamos que ser superior canalha é uma
contradição de termos, um oxímoro.
A ideia do deus criador também traz a
questão da necessidade de haver uma anterioridade e causalidade desse criador,
ou seja, um criador do criador e toda essa sequência retrógrada teria que ter
uma complexidade crescente. Explicando: um ser capaz de criar, num estalar de
dedos ou num plano meticulosamente arquitetado, o Universo (com maiúscula),
este que é o único que conhecemos por enquanto, já com todas as leis físicas,
com a constituição da matéria visível e invisível, com manifestações de vida
estruturadas, tem que ser necessariamente mais complexo que a sua criação e tem
que ter sido criado por outra "entidade" criadora ainda mais
complexa. Mas aí, os teístas, os defensores do criacionismo ou religiosos em
geral, lhe jogam na cara o argumento de que esse deus - por que não deuses? Por
que não o politeísmo (uma divisão de tarefas)? - SEMPRE existiu! Uma forma
alternativa de interpretar o "eu sou aquele que É" - jogo de palavras
que não quer dizer absolutamente nada, apenas substitui um ente substantivo
abstrato por um verbo (vago). Ora, isso é uma alegação que escapa à lógica,
tirada da cartola: é um Deus ex machina! Não há como argumentar num
campo onde impera o pensamento mágico - aí qualquer disparate se torna
factível. Sei que é difícil conceber que o tempo (junto com as três dimensões
espaciais - espaçotempo) só tenha começado a existir a partir do início deste
nosso Universo, que o tic-tac do relógio só foi disparado na singularidade em
que o silencioso "Big Bang" deu partida à súbita inflação cósmica,
portanto o "sempre" tem lá suas limitações físicas, e o
"antes", nesse contexto, é uma limitação da linguagem, pois não
existe palavra para expressar o estado das coisas anteriores ao tempo. Quando
não é esse "sempre existiu", vem o argumento solapador de qualquer
contestação, trazido por Tomás de Aquino: que Deus seria um Ser sem causa, a
primeira causa, que não necessitaria de nenhuma força externa para existir.
Convenhamos que, se você quer blindar uma doutrina, encerrar uma contestação
lógica, filosófica, trazer um argumento desse para a mesa é um ato de desespero,
mas extremamente eficiente para por fim a qualquer possibilidade de objeção -
segundo esse postulado de Aquino, se tudo tem uma causa precedente, essas
causas não podem ser infinitas, tem que haver uma causa primordial e essa causa
é justamente quem? O quê? Se pensou em Deus e não numa flutuação quântica no
vácuo, ponto para Sonserina! É o famoso deus das lacunas - onde ainda não há
explicação ou constatação científica, encaixa-se uma divindade e pronto: não se
fala mais nisso. Chega de questionamentos incômodos. Uma resposta simples e
impeditiva de escrutínio foi posta na mesa. Só que já existem evidências
experimentais mostrando que o vácuo não é vazio; que nesse pretenso nada, sem
interferência mágica, pululam flutuações quânticas - energia que, como se sabe,
é equivalente a massa (são interconversíveis); essas flutuações surgem e
desaparecem em tempo infinitesimal nesse vácuo. Portanto é possível no mundo
físico que "algo" surja do "nada", até porque o nada já é
algo.
Há também as contradições do deus
perfeito (que já num estado de perfeição, mas carente, sente a necessidade de
criar um mundo para se divertir? Hum...); tem o deus onipotente (mas que,
paradoxalmente, não pode criar nada mais potente que ele, tipo uma Excalibur
que nem ele pode desencravar da bigorna), o deus onisciente, onipresente,
onibenevolente, e todos os "omni" imagináveis, que ora tudo controla,
ora dá o livre arbítrio, ora perdoa, ora pune, ora cuida, ora corrige, ora não
está nem aí - haja contradições. Conclusão: sob o ponto de vista lógico, não
pode existir um deus perfeito, tal como as grandes religiões monoteístas o
concebem.
Ateísmo é sobre
crença. Agnosticismo é sobre conhecimento. São domínios distintos, embora ambos
estejam se referindo à não existência de divindades. Ateísmo é dizer “eu não
aceito a afirmação de que existe divindades”. Agnosticismo é não poder afirmar
categoricamente que não existe divindades, por falta de provas da sua
existência, mas, diante da absoluta falta de evidências, apostar que a
probabilidade de inexistência de divindades é de 99,999...%.
Então ficamos assim:
eu não acredito (não tenho fé) na existência de um ou mais de deuses, -
ateísmo; eu não tenho (ninguém tem) como provar cientificamente que não existe
ou que existe um deus ou deuses - agnosticismo. Na verdade, eu levo minha vida
sem incluir questionamento sobre a existência de divindades, assim como não
questiono se existe alguma formiga que saiba cantar La donna è mobile em
mandarim - tonou-se algo totalmente absurdo e irrelevante para a minha vida
interior, embora eu tenha que sobreviver imerso num meio que me sufoca de
teísmo (é como se eu tivesse que respirar nitrogênio, por ser o gás mais
abundante da atmosfera). Um argumento interessante do comediante ateu Ricky
Gervais nesse tema de divindades e não crença nelas é que a humanidade já criou
3000 deuses diferentes ao longo da História; boa parte das pessoas não acredita
em 2999 desses deuses e ele apenas não acredita em mais um. Ele também diz que
a palavra ateísmo nem devia existir, se não tivessem sido inventado tantos
deuses. Eu me sinto confortável e bem melhor sem deuses, sem alma, sem céu ou
inferno, sem vida eterna, sem divino, sem destino. O sentido da minha vida é o
caminho que eu decidir tomar. Saber objetivamente que o que tenho à disposição,
na trajetória do universo até o seu colapso, se apresenta sob a forma da minha
existência e atos nesse período de tempo entre meu nascimento e morte (e nada
mais), faz a vida se tornar algo raro e de valor inestimável. Quando não se
crê que haja a persistência da sua pessoa após a morte (como não existia a sua
pessoa antes do sua gestação/nascimento) a vida se torna algo extremamente
precioso. Você passa a não ter nada pelo que morrer (a menos que esteja sendo
vítima de algum mal que lhe cause um sofrimento intolerável e irreversível),
mas tem muito pelo que viver. Tudo se passará aqui nesse palco e na duração do
espetáculo. Não tenho que remeter nada a planos imaginários post mortem.
Ficarão aí, quando eu morrer, meus genes diluídos na minha descendência, meus
escritos, árvores que plantei, outros tênues registros e referências... Depois
de algum tempo já não serão mais vistos ou evocados. E terá sido isso. Nenhum
propósito especial. Nenhuma missão. Nada além de um elo nas elegantes correntes
da vida. Correntes que se estendem e se ramificam aleatoriamente sem rumo e sem
nenhuma pretensão além de apenas existir e tornarem a ser e continuarem a ser
até quando for e fim.
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O pior, o mais patológico das religiões
organizadas é endeusar a fé, instigar e elogiar o crer sem prova, aceitar como
verdadeiro algo para o qual não há evidências, sob o argumento da autoridade de
religiosos. Significa abolir o raciocínio, o pensamento crítico, não fazer uso
das ferramentas que nossa espécie desenvolveu evolutivamente, porque isso
coloca em risco o poder do pajé e a credibilidade da pajelança. A fé é a
aceitação acrítica do pensamento mágico (definido aqui como a crença que orações
alteram a realidade, que é possível a existência de milagres causando a ruptura
impune de leis da Natureza, etc) e a inclinação cognitiva para o pensamento
ilusório (wishful thinking) - querer, desejar ou precisar que algo seja
verdade para ter conforto existencial.
As religiões tratam espertamente de se
blindar quando censuram e praticamente criminalizam a situação de ter seus
dogmas ameaçados por uma fé cambaleante ou pela falta de fé. Além disso, criam
outros “crimes” capitais como a blasfêmia, heresia, etc, que se tornam alvo de
punições sociais imediatas (anátemas, excomunhões, opróbios) ou maldições que
deverão se cumprir num pós-vida, nesse caso lançando mão da necessária invenção
de demônios e inferno.
A fé é uma disposição mental
escandalosa. O seu estímulo deveria ser denunciado como assédio intelectual,
como insulto, e sua adoção deveria ser desencorajada e abolida nas futuras
gerações desde a mais tenra infância.
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Ter fé é crer em algo sem provas, acreditar sem ter evidências, tomar
como certa qualquer coisa só por intuição ou porque a autoridade atribuída a
alguma pessoa ou a um livro lhe diz ser essa a verdade. A fé afronta a razão e
é justamente no abandono da razão, no desprezo da capacidade crítica inerente
aos seres racionais, na louvação ao não questionamento, que as religiões lançam
suas bases, se estabelecem, vicejam e nos escravizam. Ter fé não deve ser visto
como virtude. Muito pelo contrário. Como se pode elogiar um comportamento que
prescinde da racionalidade?
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Nenhuma intensidade de convicção ou fé torna algo um fato.
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O nome daquilo capaz de mover montanhas não é fé, é avalanche ou
terremoto.
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Fé é aquilo em que você acredita (ouvindo as vozes da sua cabeça).
Religião é aquilo que os outros dizem pra você acreditar (difundindo o que soa
na cabeça deles).
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O grande mistério do âmbito metafísico que ainda me causa espanto e
certa perplexidade é a música; mais especificamente a composição musical, o ato
da geração das músicas que lhe arrebatam à primeira audição e que você acha que
já existiam, que já estavam prontas em algum depósito no éter de obras a serem
desvendadas. Há o relato de diversos compositores que dizem que a música lhes
veio completa, assim, do nada (às vezes já com a letra); e que nem parecem
terem sido criações suas.
Ângela (minha mulher) costuma classificar as músicas em duas categorias:
"com participação divina direta" (as que considera boas, harmônicas,
inspiradas e memoráveis) e "música inventada" (aquelas que
considera com muita participação humana, pouco inspiradas, muito
trabalhadas pela teoria musical, com dissonâncias desconfortáveis sem as
devidas consonâncias compensatórias resolutivas, com sucessão de notas que não
deixam rastro de poeira de estrelas, que não ficam ecoando e se fixando
agradavelmente na memória - estou tentando colocar em termos minimamente
racionais o que sei ser gerado por mecanismos mentais meramente intuitivos). Eu
geralmente compartilho as opiniões dela na qualificação das composições. Mas
ainda não coloco a solução do mistério na categoria da participação de
divindade(s), nesse deus das lacunas - (há uma música de Paulo César Pinheiro e
João Nogueira, intitulada "O poder da criação", que trata desse
tema). Os gregos tiveram essa intuição lá bem remotamente e atribuíram cada
arte a uma musa. Enquanto o mistério persiste, vou usufruindo das músicas que
considero "divinas".
Do ponto de vista científico, há uma sugestão do físico Roger
Penrose de que os microtúbulos celulares teriam funções quânticas (não apenas as
funções estruturais) e essas funções implicariam uma conexão com um fluxo
quântico do Universo que estaria aí sempre presente, resultando no que se chama
de consciência (ou alma ou outra denominação de algo ainda não devidamente
compreendido). Analogamente, a consciência originada nesse modelo seria como se
o ser fosse um aparelho de rádio que, uma vez ligado, capta os sinais que se
encontram aí sempre presentes (podendo incluir, além da ideia de
individualidade, a captação de ideias, de invenções, de poemas, de músicas...).
Mas o mistério persiste.
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“Afirmações extraordinárias requerem evidências extraordinárias.”
(Carl Sagan)