quinta-feira, 10 de setembro de 2026

Pass passeggiare cidade

 


 

Meu pai geralmente evitava falar dos eventos pelos quais passou ou situações que testemunhou durante sua experiência como pracinha no Teatro de Guerra da Itália, na II Guerra Mundial.

Quando a minha curiosidade infantil lhe fazia alguma pergunta direta sobre algum tópico mais delicado, tipo “O Sr. matou algum alemão lá na guerra?”, a esquiva era a regra. As respostas evasivas iam do “não dá pra saber” ao “eles ficavam longe” e, até mesmo, um “é possível” eventualmente poderia ser dito. Nunca algo mais assertivo.

Mas havia duas exceções a essa regra evasiva: 1ª – caso ele estivesse sob efeito de bebida alcoólica; 2ª – caso o tema abordado contivesse primordialmente elementos cômicos (no julgamento dele).

O primeiro caso se dava antes do almoço dominical, quando ele costumava preparar e tomar umas batidas de limão, enquanto preparava a sua famosa farofa das carnes da feijoada, feita diretamente no machucador do molho de pimenta recém-preparado, para distribuir como tira-gosto aos comensais (incluindo nós, crianças) e também para colocar no comedouro da gaiola do sabiá (a justificativa era para que o pássaro aprisionado aprimorasse seu canto – a crença era que a pimenta tinha essa propriedade de canoridade sobre aquela espécie específica de ave; não posso dizer que testemunhei cientificamente esse efeito, mas o sabiá comia com grande satisfação).

A exceção ao primeiro caso acontecia também quando, vez por outra, os poucos ex-combatentes que havia em Nazaré, se reuniam no final da tarde, em torno do balcão da venda de meu pai, para beber, conversar e evocar fatos da época da guerra, geralmente com versões contraditórias, contestáveis pelos pares ou incompletas, que motivavam sempre debates acalorados e ruidosos (todos falavam muito alto, pois portavam algum grau de perda auditiva decorrente dos estampidos aos quais se expuseram desde os treinamentos antes do embarque para a Itália, até os campos de batalha). Parecia um concurso para ver qual versão prevaleceria ou receberia a maioria de concordância dos demais. Infelizmente tive poucas oportunidades de testemunhar esses encontros e deles não consegui extrair material para compilar histórias que merecessem algum registro, até porque meu nível de compreensão do que estava sendo debatido era precário – entre outras coisas, eu desconhecia totalmente aquelas localidades que eram enunciadas com familiaridade por aqueles homens; só fixei na memória o nome de três locais que eram falados recorrentemente: Monte Castelo, Livorno e Pistoia. Hoje, fazendo livre associação, correlaciono esses três locais, respectivamente: ao local em que meu pai foi ferido e quase morto (Monte Castelo), ao lugar em que passou um tempo sofrendo num hospital de campanha (Livorno) e, finalmente, ao sítio do cemitério dos pracinhas que tombaram lá na Itália e de onde ele, por pouco, escapou de ser posto sob sete palmos de terra com uma cruz branca por cima (Pistoia).

Dito isto, vamos ao segundo caso, que se tonou a única fonte de episódios relativos à II Guerra que meu pai disponibilizou para o meu registro mnêmico: os registros “anedóticos”:

Meu pai foi voluntário. Depois de declarada guerra pelo Brasil à Alemanha e Itália, em 1942, muitos outros brasileiros também se propuseram espontaneamente a cerrar fileiras junto às forças armadas para ir combater as forças do Eixo, tendo em vista o clima emocional criado pelo afundamento de diversos navios brasileiros por submarinos alemães, com diversas mortes de compatriotas. No caso do meu pai, a chance de se livrar das garras autoritárias da minha avó desempenhou papel acessório importante na decisão de se voluntariar para ir ao conflito armado. Mas a ideia de se lançar à guerra não era uma perspectiva muito auspiciosa, animadora, para uma parte daqueles que foram, por suas vezes, convocados para tal empreendimento.

Muitos tentaram escapar à seleção alegando problemas de saúde. Meu pai dizia ter presenciado um colega, que não conseguiu ser descartado na seleção médica, desesperado no alojamento, dizendo que não iria para a guerra de jeito nenhum, que iria conseguir dar baixa, culminando com o ato de se autoinfligir uma fratura no membro superior, após arremessar seu antebraço contra o meio-fio. Conseguiu seu intento: foi dispensado. Esse episódio sempre foi relatado por meu pai seguido de uma pilhéria, que ele contava com ares de veracidade. Dizia que um colega recém-recrutado começou a apresentar um comportamento estranho no alojamento, que consistia em ficar alçando os braços, abrindo e fechando os dedos em gesto de pinça, como se estivesse inutilmente tentando capturar borboletas invisíveis no ar; foi levado para atendimento médico, daí para a enfermaria e o comportamento anômalo não deu sinais de melhora. Finalmente foi dispensado. Na saída do quartel, os colegas foram se despedir dele. Quando já se encontrava do lado de fora, as pinças das mãos de repente ficaram na posição fechada, com os dedos unidos. O rapaz olhou para os dedos nessa posição, lançou um olhar para os colegas e exclamou: “Colou, porra!”

Por mais vezes que meu pai tenha contado essa piada, a gente sempre ria, porque o seu desempenho narrativo e a sua interpretação eram irrepreensíveis e sempre trazia elementos novos.

Outra coisa que ele contava recidivantemente desse tempo inicial como recruta, e que não me arrisco a atestar a veracidade, eram as estratégias que os colegas usavam nas folgas para comer em restaurantes caros e sair sem pagar: iam desde portar fragmentos de insetos (ou eles na sua completude) para colocar no prato quando já estavam no fim da refeição, até o que levava um pedaço de sabão no bolso e, após a sobremesa, mascava o sabão, simulava uma crise convulsiva, espumava abundantemente pela boca e, cessada a crise, ficava com amnésia temporária – coisas que, em conjunto, inviabilizavam a cobrança da conta.

Uma das funções para qual meu pai foi designado antes ser enviado para fazer treinamento de desativação de minas terrestres, em Caçapava-SP, foi patrulhar a costa nos estados no Nordeste. Ele dizia que, quando navios eram torpedeados nas águas próximas, a quantidade de cadáveres que chegava à praia era enorme e ele tinha que cavar sepulturas para enterrar os mortos. Mas quando seu limite físico e sua tolerância mental para essa atividade eram atingidos, ele simplesmente recolhia possíveis pertences de valor do defunto e o devolvia ao mar, para que a corrente levasse o corpo para mais adiante na costa e que algum camarada seu lá baseado fosse contemplado com esse encargo. A sua justificativa moral para esse comportamento era que todos os colegas de farda também faziam o mesmo e que ele, provavelmente, durante o seu turno já teria enterrado corpos que passaram pela rejeição de seus pares (esses cadáveres geralmente chegavam sem nenhum objeto de valor no corpo ou nas roupas). Era algo que ele contava rindo.

Quando queria se referir ao realismo do treinamento de rastejo, ilustrava sempre com a ocorrência de um evento bastante indesejável. Inicialmente descrevia que uma rede era disposta na posição horizontal, a uma distância do solo suficiente para caber um corpo humano se arrastando por baixo dela, bem rente, o mais colado possível ao chão. O “incentivo” para que os treinandos rastejassem corretamente era que, logo acima da rede, uma metralhadora disparava incessantemente munição real (ou “era bala comendo no centro”, segundo suas palavras textuais) executando uma varredura total, enquanto os soldados se introduziam ali embaixo e iam sendo comandados aos gritos para atravessar o espaço até o outro lado. Depois dessa descrição já suficientemente aterradora, meu pai fazia uma pausa dramática e introduzia o relato de um colega que elevou o calcanhar do coturno, sendo atingido por uma bala da metralhadora; ato contínuo (reflexo, talvez), ele elevou o tronco e foi cortado ao meio pelos projéteis da metralhadora. Nesse ponto, nós, ouvintes boquiabertos, estupefatos e apavorados, olhávamos para o meu pai e o víamos cerrar os lábios, gesticular mostrando a palma das mãos e elevando os ombros num “fazer o quê?”. Sob nossos protestos por não ver justificativa para tal crueldade por parte do Exército, meu pai retrucava: “Se fizesse isso na guerra, ia morrer do mesmo jeito! Só fez antecipar.”. E fim de conversa.

A chegada à Itália de navio já trouxe um bom cartão de visitas do que o esperava. Dizia que o porto de Nápoles era um verdadeiro depósito intransitável de carcaças de navios afundados, impossibilitando a ancoragem e desembarque próximo à terra. Lembro-me dele falando que teriam que ir de destroço em destroço até chegar à cidade, como se tivessem pulando as pedras do rio Jaguaripe, mas não tenho certeza de que isso tenha sido  posto em prática, pois há também a versão de que teriam contornado Nápoles e desembarcado em Salerno. Quando vou a Nápoles e vislumbro aquela paisagem da baía com o Vesúvio ao fundo (sem navios afundados no porto), lembro sempre que aquele deve ter sido o primeiro vislumbre que meu pai teve da Itália.

Já nas ações de patrulha e combate propriamente ditos, os eventos que me recordo de terem sido mencionados por ele foram os seguintes:

patrulha noturna na “terra de ninguém”. Ele e outros pracinhas entram pela porta da frente numa casa abandonada que ficava sobre uma colina – a ideia nesses casos, no mais das vezes, era pouco estratégica. Não se tratava de detectar a posição do inimigo. O intuito maior se constituía em verificar se havia algum vinho deixado para trás, algo que era muito bem-vindo para aquecer as noites gélidas que já se faziam sentir naquela região da Itália, entre a Toscana e a Emilia Romagna. Já havia vários antecedentes em que ele e seus companheiros de patrulhas encontraram casas com adegas bem abastecidas, as quais acessavam e abandonavam após não ser mais aplicável a expressão “bem abastecidas” para elas. Pois, nesse exato momento em que eles adentraram essa casa referida inicialmente, uma patrulha alemã entra ali também, pelos fundos. Encontraram-se frente à frente no meio da casa, esbarrando-se uns nos outros. A escuridão ouviu gritos apavorados de ambos os grupos, que saíram correndo em disparada por onde tinham entrado, sem que um único tiro tivesse sido disparado. A nossa brava gente brasileira só foi parar muito adiante, quando os pracinhas se certificaram de que não estavam sendo perseguidos. Imaginaram que o mesmo devia ter acontecido com a patrulha a alemã. Nas noites seguintes sempre havia um dos nossos que sugeria voltar à casa, mas essa sugestão não chegou a ser acatada pelos que passaram por essa experiência temerária e pouco louvável – não devia haver vinho por lá mesmo;

alemães encarando pracinhas negros. Como a propaganda alemã para depreciar os soldados brasileiros incluía a menção de que os negros eram seres primitivos, até mesmo antropófagos, meu pai dizia ter presenciado o verdadeiro horror que se instalava no semblante de prisioneiros alemães quando se viam diante de um pracinha negro. Eles reagiam realmente como se estivessem prestes a ser devorados e pronunciavam súplicas ininteligíveis aos ouvidos brasileiros. Isso divertia tanto os nossos soldados, que não perdiam a oportunidade de colocar cada prisioneiro feito sob a escolta e tutela de um pracinha negro, que, já sabendo do terror que provocava, tratava de acrescentar expressões faciais que sugeriam estar diante de um petisco a ser degustado em breve. Claro que isso tinha breve duração, pois os alemães logo percebiam que estavam sendo vítimas de gozação, mas era motivo de muita risada enquanto durava a encenação;

­– o capitão faminto na neve. Numa patrulha em meio à neve, os brasileiros foram atacados pelos alemães e se dispersaram. Meu pai se viu apenas na companhia de um capitão e em pouco tempo descobriram que não sabiam como retornar a suas linhas: estavam perdidos na neve. Persistiram vagando por mais um dia ou dois, não lembro ao certo, esgotaram o estoque de barras de chocolate que traziam nos bolsos, restando apenas a alternativa de comer neve. A fome e o frio combinados estavam superando o limite do suportável. Foi quando avistaram o corpo de um alemão que estava com o tronco dilacerado e as nádegas bem alvas expostas. O capitão lançou-se sobre as nádegas do alemão e cerrou os dentes numa mordida para arrancar um naco daquilo que lhe parecia uma possível refeição. Meu pai se projetou sobre o capitão, puxando-o, ele insistindo e querendo se desvencilhar de meu pai para prosseguir no seu intento de comer a bunda do alemão no sentido literal, até que meu pai lhe desferiu um soco na face e disse: ”Está maluco, capitão? Quer comer carne de gente?”. Nesse momento meu pai pensou que seu futuro nas fileiras do Exército estava encerrado, por ter agredido um oficial. O capitão parou, colocou as mãos no rosto e pareceu retomar o senso. Ficou um tempo em silêncio e depois disse: “Obrigado, Miguel!”. Pouco tempo depois foram alcançados por uma patrulha da FEB e retornaram às linhas amigas. Não houve mais comentários sobre o ocorrido nem consequências punitivas para meu pai. Ufa!;

correndo risco para pegar souvenirs. Quando meu pai nos anos 1960 me dava a satisfação de assistir ao seriado Combate, que ia ao ar nas noites de quinta-feira, eu ficava mais atento às reações dele do que propriamente à tela da TV. Ele costumava se divertir quando via os soldados americanos passando ao lado de alemães abatidos, sem ao menos encostar neles. Ele dizia: “Isso é um absurdo! Deixar aquelas armas ali? Nunca!”. Aí ele lembrava que a regra era depenar os mortos. Tirar deles o que pudesse ser usado ou colecionado. Claro que descobriram que alguns casos de cadáveres exibindo algum atrativo muito flagrante poderiam ser uma armadilha, com explosivos colocados no caminho até o defunto ou conectados ao próprio. Meu pai contava que colecionava armas dos alemães. Tinha verdadeira fixação por elas. Seu saco de dormir era o depósito delas e já estava pleno. Isso não impediu que, numa patrulha, ao avistar um alemão tombado no fundo de um vale, o visse como potencial alvo. Observou que no seu coldre havia uma pistola Luger. O desejo de se apossar daquele souvenir se sobrepôs a qualquer medida acautelatória recomendada naquelas situações. Ele então foi sofregamente ao encontro do seu prêmio. Mas, quando ia se aproximando, o que ouviu foi a já familiar sequência seca de estampidos de uma metralhadora, em rajadas destinadas à sua incauta pessoa. Ele jura que não sabe bem como conseguiu alcançar um tronco de árvore que jazia caído a uma boa distância de onde estava. A impressão que ele conservou é a de ter chegado lá detrás do tronco num único salto, o que lhe colocaria fácil numa final olímpica do voo à distância. A imprecisão dos alemães lhes custou caro. Logo outros soldados brasileiros acorreram ao local e após algum tempo e tiros e granadas, os alemães foram liquidados ou, eufemisticamente, silenciados, neutralizados. Meu pai nunca fez referência quanto à sua participação no desfecho desse combate, lá detrás do tronco em que se viu pousar, mas diz que ao final conseguiu recolher a Luger - chamariz para aquela situação que quase lhe custou a vida. A propósito, depois desse incidente, a sua busca por souvenirs arrefeceu. Quando retornou ao Brasil, distribuiu quase tudo que havia colecionado aos colegas que não haviam trazido nada e, sabendo do seu estoque, lhe pediam para ceder algo que pudessem levar consigo de lembrança para mostrar heroicamente aos familiares e amigos. No final, ficou só com duas pistolas alemãs, que acabaram sendo presenteadas a amigos de Nazaré. Ou seja, não guardou absolutamente nada daquilo pelo qual, tantas vezes inconsequentemente, pôs em risco sua vida. Nem sua farda de soldado ficou consigo (nem quepe, nem blusão, nem calça, nem botas...) – só algumas fotos. Dos objetos que conservou e que tive oportunidade ainda de ter contato, posso contabilizar um cinto com fivela dourada, uma baioneta, duas cartucheiras de lona para balas de fuzil, uma camisa regata verde-oliva, 2 minúsculos rolos de papel higiênico, que se assemelhavam a embalagem de alguns guardanapos atuais, patches com o emblema escrito BRASIL em branco sobre fundo verde, outro com o distintivo da FEB (o da cobra fumando) e outro vermelho, azul e branco com a inscrição A5 (emblema do 5° Exército Aliado). Além disso, tinha a Medalha de Campanha e a Medalha Sangue do Brasil,  entregues já após o seu retorno.

o evento da quase morte. Eu nunca soube ao certo como nem quando ocorreu o ferimento de meu pai na guerra. Ele nunca tratou desse assunto na minha presença. Pelas conversas que ouvi ele tendo com outros ex-combatentes, em que se referiam a batalhas famosas, tinha a impressão que ele houvera participado delas todas, principalmente Montese. Mas, recentemente, conversando com minha mãe, obtive o relato de que, quando eram noivos, ele contou a ela como se deu o fato. E foi em Monte Castelo. Não foi possível identificar em qual das cinco ofensivas a essa posição alemã ele foi abatido, mas ela diz que ele referiu ter passado o Natal no hospital, o que já exclui a ofensiva final de fevereiro de 1945. A circunstância que motivou seu ferimento foi ter pisado, na encosta do monte, ironicamente, numa mina terrestre. Ficou desacordado durante toda a noite, em meio à lama gelada. Pela manhã, quando vieram recolher os corpos, ele foi contabilizado como mais uma baixa fatal. Já estava prestes a ser colocado entre a pilha de mortos, quando alguém falou: “Esse aqui está se mexendo!”. Uma tênue diferença entre a morte e a vida. Foi então resgatado e transferido para receber o devido tratamento médico.

A partir dali, a sua guerra passou a ser travada nos leitos de hospitais de campanha e em outros fixos, inclusive em New Orleans, nos Estados Unidos.

A explosão da mina atingiu prioritariamente um dos seus membros inferiores (acho que o direito – não ficaram sequelas visíveis), que, por sorte, não foi totalmente estraçalhado. Houve várias fraturas, mas foi possível evitar a amputação. Mas, para tanto, teve que ficar acoplado num dispositivo de tração no membro atingido. A dor que sofria era excruciante. Isso não impedia que os colegas ali internados, todos já movidos por um espírito de humor sádico, aproveitassem o momento em que ele adormecia e fossem elevando o peso que servia para fazer a tração, via roldanas,  e baixando vagarosamente sua perna; então o despertavam e perguntavam se a dor estava melhor. Geralmente essa manobra reduzia bastante o desconforto. Mas, em seguida, eles soltavam abruptamente o peso, o que provocava em meu pai um grito pela dor lancinante, e que era motivo de gargalhada geral em quase todos os pacientes da enfermaria.

No leito vizinho ao que estava meu pai se encontrava um pracinha que tinha sido alvejado no pescoço ainda estava com o projétil alojado próximo à base do crânio. Por conta disso, também se encontrava com um dispositivo que tracionava sua cabeça para trás, consistindo numa faixa em sua testa, ligada a umas tiras que terminavam num saco de areia que ficava pendendo por baixo da cabeceira da cama. Vez por outra, ele dizia pro meu pai: “Miguel, me dê um alívio aí!”. Então meu pai se esgueirava até alcançar o saco de areia e o elevava, causando o tal alívio solicitado pelo então agradecido colega enfermo, feliz com esse lenitivo, até que meu pai decidisse dar o troco enviesado da maldade que lhe faziam e soltava bruscamente o saco de areia, causando a mesma reação e urro de dor, que também provocava reação de hilaridade generalizada no ambiente.

A maioria das enfermeiras no hospital de campanha em Livorno era de americanas. Havia uma especialmente altiva e bonita, que virou alvo da cobiça e galanteios de quase todos ali. Por mais que os brasileiros se dispusessem a cortejá-la, a barreira do idioma e a situação de repouso forçado no leito eram fatores bem limitantes para a obtenção de sucesso nesse tipo de iniciativa. Isso sem contar que apareceu, entre os pacientes, um oficial americano com pinta de artista de cinema que, além dos dotes físicos, também estava com alguma mobilidade, não tendo que ficar restrito ao leito. Eis que, numa noite, o oficial e a enfermeira viram suas afinidades se tornarem indicadores urgentes de maior intimidade. Dirigiram-se, então, para concretizar o idílio romântico na areia da praia próxima ao hospital. Não contavam com o pormenor de que a praia era um campo minado. Resultado: deitaram sobre uma mina, subiram pelos ares literalmente e terminaram aos pedaços. Os enfermos riram muito desse desfecho.

Para aqueles pacientes que tinham condição de mobilidade, eventualmente, nos fins de semana eram distribuídos passes para sair do hospital e visitar a cidade de Livorno. Os brasileiros já estavam se tornando poliglotas. Além do convívio cotidiano com americanos e italianos, também tinham dicionários de inglês e livros de italiano para brasileiros à disposição facilitando o aprendizado dos idiomas. Para ilustrar o espírito dos brasileiros em meio a esse estado de coisas, meu pai dizia ter presenciado um pracinha, numa sexta-feira, se dirigindo à enfermeira chefe e dizendo a seguinte frase: “Miss, domani have pass passeggiare cidade?”. Ela compreendeu. Ele conseguiu o passe, enquanto todos riam.

 

sexta-feira, 12 de setembro de 2025

Volver a los diecisiete





O que seria do meu interesse

era que o tempo se detivesse

e que o querubim convertesse

meus anos em dezessete.

 

Minhas redes sociais ficam constantemente me apresentando mensagens nostálgicas e propostas de adesão a grupos que tratam de temas relacionados a décadas passadas.

No meu caso, a referência são os anos 1960 e 1970. Foram anos de chumbo na política, mas, talvez por isso mesmo, foram, reativamente, anos libertários no âmbito sociocomportamental (esse período está sendo chamado de Revolução Expressiva) . Para as gerações atuais deve ser impensável atribuir algum valor contestatório a uma letra de música que dizia “só quero que você me aqueça nesse inverno e que tudo mais vá pro inferno!”. Mas foi. Que deixar o cabelo crescer para além do corte militar (com máquina zero nas laterais e nuca), que usar roupas apertadas de cores fortes, diferentes do predominante tom pastel, eram atos de enfrentamento e de afirmação. E foram. Que as mulheres usando minissaia e pílulas anticoncepcionais deixaram o conservadorismo reinante aturdido. E como deixaram...

Houve o fim da devoção à virgindade feminina e abandono da estigmatização da mulher que exercia o direito de usufruir do sexo recreativo (como só os homens eram autorizados até então). Houve o movimento hippie que contestava o establishment rejeitando o consumismo, o individualismo, a propriedade, as posses em geral, e promovendo uma maior simplicidade e integração com a Natureza (as drogas eram parte integrante do contexto, sim, mas não se via violência disseminada relacionada a elas).

Os jovens de então eram de esquerda. Éramos contestadores das velhas tradições escravizantes e autoritárias. Era impensável ver um jovem conservador. Conservador do quê?  Queríamos romper com a hipocrisia, com o falso moralismo, com as injustiças sociais, com a tutela do belicismo reinante até então.

E havia a música (se é que posso falar no singular). Foi um momento histórico de explosões de boas músicas. Que ficaram e que persistirão no tempo por suas qualidades. A música nos integrava e nos enlevava, sem a pretensão de lascividade vulgar que hoje se pretende com estilos que se consideram música, e sem a oportunista e medíocre exploração da carência que a religiosidade proporciona a boa parte da população.

Às vezes eu fico pensando que a gente só acha que os dias de antigamente constituíam tempos melhores porque tínhamos corpos mais jovens e responsivos, tínhamos a leveza da irresponsabilidade e ojeriza a moralismos, tínhamos o vigor e o destemor que os hormônios nos proporcionam, tínhamos uma invulnerabilidade mítica e um futuro promissor à nossa espera. Fico achando que toda devoção a esses tempos se deve apenas à concomitante vivência da nossa juventude.

Mas, olhando em perspectiva, devo concluir que realmente fomos felizardos em sermos jovens nesse período histórico singular. Eu gostaria de ter de volta o meu corpo de 17 anos nos dias atuais, mas não estou certo se ficaria tão satisfeito em levar esse corpo para um festival gospel funk sertanejo onde se exalta o lema fascista Deus, pátria e família.



segunda-feira, 4 de agosto de 2025

Um Ombudsman expiatório para o Bahia



Eu confesso que me sinto meio perdido e desorientado, com relação ao direcionamento de críticas aos aspectos futebolísticos do Bahia, desde que o clube virou SAF e passou a ser gerido pelo City Group.

Eu me acostumei a dirigir lamúrias críticas e impropérios a Maracajá, Pernet, Petrônio, Marcelos Guimarães (cruzcredocrendeuspai), Vadão, Arthurzinho, Joel Santana, Guto, Enderson e por aí vai… Eram tempos bem mais simples e simplórios. O alvo estava ali, explícito, exposto, insofismável.

Mas agora está meio confuso, labiríntico, o caminho para se direcionar a pedra à vidraça.

Do lado técnico, há um Rogério Ceni que se coloca como único interlocutor e alvo do desempenho do time em campo. Mas, diferentemente dos tempos em que meus cabelos ainda não me haviam abandonado em desabalada carreira, hoje há uma comissão técnica multiprofissional multifacetada multiétnica pluridiversificada que decide desde a quantos centímetros da lateral o jogador deve se posicionar, para dar amplitude ao campo, até que fibra muscular pode ser distendida pelo jogador (e, infelizmente, ainda não o quando). Fico olhando Ceni e o seu auxiliar francês trocando palavras, cobertas estrategicamente pela mão sobre a boca para se prevenirem da leitura labial dos enxeridos, e imagino (sim, tenho imaginação fértil) em que língua eles se comunicam, qual o nível de dúvidas, certezas, espanto e perplexidade são expressos naquele colóquio dos dois pombinhos (não achei outra palavra agora, mas prometo buscar no porvir). Fico pensando (cabe aqui um “lá ele” preventivo pelo que irá mais à frente) que eles dois podem estar com o mesmo problema gramatical, vocabular, sei lá, que eu enfrento vendo os jogos desse Bahia: a solução às vezes pode ser tirar, tirar, esse ou aquele, mas na hora de botar, botar, só tem isso ou aquilo à disposição. Vejo (em vídeo), no vestiário, as palavras de estímulo do novo (mais recente) preparador físico; tapinhas incentivadores, de várias origens, nas costas nos nossos jogadores/gladiadores; contusões insuspeitadas de jogadores no aquecimento, no treinamento ou sabe-se lá onde e em que circunstâncias; jogadores com barriguinhas resistentes depois das férias (Caio Alexandre?); vejo (em campo) jogadas ensaiadas que precisariam ser ensaiadas; enfim, vejo coisas que preferia não ver e fico sem saber a que santo recorrer, pois só nos é dado acesso a Ceni para assumir os pecados do mundo e se submeter ao escrutínio e ao calvário. OK, ele deve ganhar bem, muito bem, para bancar o cordeiro a ser imolado nesse sacrifício simbólico. Infelizmente, assim como no preceito religioso, a misericórdia é muito generosa e acaba alcançando quem não a merece.

Do lado gerencial do futebol nem vou me estender muito. A presença do diretor/gerente/sei lá-o-cargo de futebol Cadu Santoro é um enigma. Primeiro porque não fala e, quando esporadicamente o faz, só faz aumentar o questionamento do porquê de ter sido escolhido para fazer uma gestão de elenco tão inepta, num grupo que se jacta de ser a pica das galáxias futebolísticas. Qual o seu real preparo, seu tirocínio, suas comprovadas credenciais? Qual o seu grau de autonomia? Por vive se esgueirando? Cadu,  "onde estás que não respondes? Em que mundo, em qu'estrela tu t'escondes?".

Em tempos remotos a gente podia se queixar ao bispo. Agora a bispo não cuida mais desses assuntos mundanos. E o sheik não se permite ouvir lamúrias de infiéis insignificantes como eu. “Queixo-me às rosas. Mas que bobagem: as rosas não falam…”.

quarta-feira, 5 de fevereiro de 2025

Frases soltas que cultivo por aqui

Tenho vivido como se minha vida dependesse disso.

Era uma vez em que não havia tempo.

Eu sempre tive pouco tempo para ter muito tempo.

Eu sempre tive muito tempo para ter pouco tempo, para não ter tempo pra nada.

Eu sempre tive muito tempo para nunca ter tempo pra sempre.

Estou muito longe de chegar perto.

Faço abstrações que se concretizam artificialmente.

Eu sempre soube que não saberia nunca.

Cultivei muitas árvores infrutíferas.

E quando o fado foi lançado 

transpus de lado a lado

o Rubicão a nado.

A Lua está com os olhos tristes...

A gente se comunica assim

Com a língua na contramão

Quando se diz “pois não” é sim

Quando se fala “pois sim” é não.

O entorno virou uma casa de intolerância.

Corpos ocupando o mesmo espaço no lugar.

Agi em ilegítima defesa.

Saí cantando “Adíos, muchachos” e retornei no dia seguinte assobiando “A volta do boêmio”.

Agora, já no fim de ninha existência, admito que tudo o que aprendi foi extremamente insuficiente e precário.

Não conheço nada amplamente ou profundamente. Escapa-me a noção de coisas até triviais.

Seria bom morrer num dia chuvoso, 

mas só depois que a chuva passasse:

para não perder essa última contemplação 

da coisa natural que mais amei durante minha existência.

Dirijo-me a um paradeiro desconhecido, lugar incerto e, portanto, não sabido.

Viver e morrer com dignidade, definitivamente, não é virar um aglomerado de células, em progressiva degeneração, que se torna um estorvo para os circunstantes.

Deixarei com vocês o meu prudente silêncio ignorante.

Minhas últimas palavras não ficarão registradas na caixa preta.

No epitáfio apenas isso - “Viveu.  Quando morreu foi para onde estava antes de nascer: a inexistência.”

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Conselhos realistas

Se seu sonho for muito distante da realidade ou além das suas possibilidades, desista dele e pare de perder tempo com maluquices;

Se você não se acha bom/boa o bastante em algo, provavelmente tem razão. Neste caso, siga seus instintos e saia dessa;

Se você só pensar positivo há uma boa chance de atrair algo negativo (sabe aquele lance da atração dos opostos?). Algum negativismo pode ser saudável: pratique;

Sabe aquela pessoa que parece inacessível e que não lhe dá a menor bola? Pois é: acostume-se com isso. As chances de você se dar bem nessa são ínfimas;

Sabe a loteria? Jogue não!

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Eu vou pra Maracangalha

Lá sou amigo do rei

Eu vou convidar Anália

Pra cama que escolherei

Se Anália não quiser ir

Não sei para onde irei.

Alternativa: Se Anália não quiser ir/ vou ver quem convidarei...

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Parte da minha rotina a essa altura da aposentadoria consiste em apagar e-mails de newsletters e anúncios, cujas inscrições resisto em não cancelar, para não ter a sensação de esquecimento, desimportância e lento apagamento da existência ao contemplar uma caixa de entrada vazia.

terça-feira, 9 de julho de 2024

No popular + Passando pela cabeça

A força da popularização dos termos na linguagem geral:

- o dengue na acepção de doença (termo que é visto no masculino nos livros de medicina) virou a dengue, provavelmente para diferençar do dengo (manha);

- a cólera (a doença) já é quase o cólera (o agente);

- o diabetes (doença), já está sendo chamado de a diabetes ou a diabete (provavelmente a chacrete do diabo);

- e a Olimpíada, que se refere originalmente às competições que eram realizadas na antiguidade em Olímpia, Grécia, a cada 4 anos, passou a se chamar Jogos Olímpicos da Era Moderna e daí para cada Olimpíada ser chamada de as Olimpíadas foi um salto (sem vara).

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Nesta Olimpíada (2024), os “criativos” repórteres têm, insistente e repetitivamente, feito a mesma pergunta aos atletas: “O que passou pela sua cabeça…?”

Viraram psicanalistas? Ou padres no confessionário querendo extrair picantes “pecados por pensamento”? 

Meu cérebro literal, entretanto, quando diante dessa pergunta, me remete sempre a coisas materiais que podem ser passadas no couro cabeludo. Assim, tomando por base meu histórico bem remoto, eu poderia responder dessa forma a uma pergunta dessas: “Muitas coisas passaram pela minha cabeça nessa vida - minha mão; xampu Johnson’s; sabonetes Eucalol, Lifebuoy, Gessy, Lux; brilhantina Glostora; Brylcreem, Trim; Neocid; Pant Sec (minoxidil) - recentemente…”

Não seria material para embasar um atestado de sanidade mental, mas seria fiel à verdade.

Mas o que de mais marcante já passou pela minha cabeça foram as mãos de minha mulher, quando ela ainda nem era minha namorada, era uma amiga com a qual um possível envolvimento amoroso nem passava pela minha cabeça.


sábado, 1 de junho de 2024

Apuros de turista brasileiro

 


Lembrei de uma experiência de viagem que ocorreu comigo na Espanha. Foi uma vivência relativamente tensa e exasperante, mas, aos olhos de hoje, pode até ser considerada divertida para quem dela toma conhecimento com esta narrativa - e mesmo para mim, que a protagonizei com o coestrelato de minha mulher.

Era início de 2004. Estávamos num tour entre Espanha e Portugal. Na chegada ao hotel de Lisboa, o guia espanhol pediu um passaporte de cada membro de casal para o check-in e os entregou posteriormente à recepção. Eu esperava que depois ele me devolvesse o documento, mas parece que fui o único a pensar assim. Todos os outros viajantes passaram depois na recepção e pegaram seus respectivos passaportes e eu fiquei na espera de que o guia o fizesse para mim e mo devolvesse, uma vez que ele era quem havia tomado o passaporte de minhas mãos. O fato é que quando o ônibus da excursão já estava em movimento para deixar Lisboa, fui até o guia para cobrar o meu documento e ele me olhou incrédulo e só faltou dizer “Tolinho, você mesmo não foi pegar o seu na recepção como todos os outros viajantes a bordo?”. Coincidentemente, todos os outros passageiros falavam espanhol e se comunicavam alegremente com o guia e dele recebiam orientações e instruções, enquanto nós, os únicos brasileiros, nos mantínhamos discretos e por vezes alheados por escolha própria, deixávamos de receber algumas informações privilegiadas, embora não tivéssemos qualquer dificuldade em entender o que quer que fosse dito por eles (a recíproca talvez não fosse verdadeira).

Estávamos ainda perto do hotel, mas o guia não se deu ao trabalho de retornar. Seguimos viagem, pegamos a estrada, ele telefonou para a recepção e me disse que eles iriam enviar meu passaporte para a unidade da mesma rede hoteleira em que nos hospedaríamos no nosso destino seguinte, que era o Porto. Acertou quem deduziu que os prestativos portugueses não fizeram o envio. Disseram não ter achado portador, por ser domingo, e mandaram um fax com cópias das páginas do passaporte contendo a numeração e dados de identificação, coisas que o guia me assegurou ser suficientes caso eu fosse requisitado pelas autoridades locais a apresentar meu passaporte. O hotel ficou então de remeter o meu passaporte para a sede da operadora de turismo, em Madri, cuja chegada do envio deveria se dar no dia seguinte ou dois dias depois, na pior das hipóteses, e eu iria recebê-lo em mãos dali a cinco dias, quando o tour retornasse a essa cidade.

Confesso que não eram notícias tranquilizadoras, mas eu não tinha muito a fazer, a não ser torcer para não ser detido por uma autoridade qualquer por não portar meu passaporte, além de cobrar do guia, periodicamente, notícias sobre a chegada da remessa lusa de um passaporte tupiniquim para a capital da monarquia espanhola.

Depois de percorrer a Galícia, Castela e Leão, as Astúrias e a Cantábria, ao incessante som do Coldplay cantando Yellow – que era o único CD que o guia possuía a bordo -, finalmente retornamos a Madri. Fui avidamente resgatar meu passaporte que devia estar de posse do pessoal da operadora, mas disseram-me displicentemente que não havia chegado de Portugal.  Meu voo de regresso ao Brasil era no dia seguinte. Um furor uterino, se eu tivesse sido dotado com esse órgão, se apossou de mim. Minha mulher já vinha até reclamando da minha calma e passividade diante da situação, desde a saída de Lisboa. Desfilei uma série de impropérios multilíngues, acusações à competência histórica de todos os povos da Península Ibérica e adjacências, ataques enviesados e diretos ao guia, enfim: promovi um espetáculo de baixaria digno da indignidade que me estava vitimando.

Naquele fim de tarde não era mais possível tomar nenhuma providência, além de procurar o endereço do consulado brasileiro. Logo cedo pela manhã fomos até o local– ficava até perto da rua Fuencarral, onde estávamos hospedados eu e minha mulher. Lá nos deparamos com a informação, numa placa de acrílico afixada na porta de madeira escura, de que o horário de funcionamento era das 11:00h às 13:30h. Havia uma pequena fila formada na escada que dava para a referida porta da sala do consulado. Quando fui atendido e explanei o meu problema, a gentil senhora atendente me fez saber que eu teria que dar queixa na polícia de furto do meu passaporte, trazer o registro da mesma e 2 retratos 5x7 (lembram?). Fui na delegacia mais próxima e fiz essa declaração falsa de que o passaporte houvera sido furtado e não extraviado ou perdido. Depois fui procurar onde tirar as fotos nesse tamanho não usual que era usada nos nossos passaportes. Informaram-me que havia um estúdio fotográfico num local lá no centro de Madri que fazia tais fotos. Por curiosidade, olhei a minha carteira e descobri 2 fotos 5x7 de épocas diferentes, sobressalentes da obtenção do atual e de passaporte anterior. Decidi que iria arriscar entregar essas duas fotos distintas, mas que eram da minha própria e singular pessoa (com as datas estampadas no peito). Voltei ao consulado esbaforido, amparado por minha mulher menos ofegante. Já eram quase 13:00h. Quando fui atendido, a gentil senhora pegou o registro da queixa, olhou contrafeita para as minhas fotos e pediu meu documento de RG! Eu lhe perguntei o que me aconteceria se esse documento também tivesse sido furtado? Ela não me deu resposta. Entreguei-lhe minha carteira de médico. Ela aceitou e aí veio a cereja do bolo: pediu comprovantes de voto das últimas eleições!!! Sabem o que aconteceu? Eu tinha! Sabe aqueles papeizinhos que lhe entregavam na sessão eleitoral após o ato de votar? Estavam armazenados num compartimento da minha carteira, desde a eleição de Prudente de Morais; tinha até comprovante do plebiscito de 1993!! Haha! Não me recordo a cara que a gentil espanhola fez ao me ver brandindo esses improváveis comprovantes.

Aí ela levou a papelada pro Cônsul e voltou com uma autorização de regresso ao Brasil, com uma das minhas fotos coladas no documento.

Aliviados, retornamos ao apart hotel em que estávamos hospedados. Na recepção se encontrava um envelope contendo o meu passaporte... É mole?

Ah, e não usei o tal documento do consulado. Passei no controle de passaportes com meu documento original (mesmo já tendo sido informado à polícia que ele havia sido furtado e que, no mínimo, deveria estar numa lista suspeita). Que eficiência questionável desse sistema...

Para finalizar essa aventura, a Varig estava com overbooking. Ofereciam mundos e fundos para quem desistisse da viagem naquele voo e adiasse para o dia seguinte. Eu e minha mulher fomos chamados ao balcão pelo sistema de som. Pediram os nossos cartões de embarque (que eram da Classe Econômica) e uma mulher os rasgou, picotou, na nossa cara! Minha mulher levou as mãos à boca e me olhou atônita. Em seguida nos entregaram 2 outros cartões de embarque com assentos na Classe Executiva. Acho que, depois de tudo, fizemos jus!

sexta-feira, 29 de março de 2024

Salvador 475 anos. Eu, 50 anos em Salvador (com várias estadias temporárias anteriores).

 





Navios El Rey, João das Botas, Maragogipe, Itaparica e Espera “jogando” na meia-travessa; a visão progressivamente imponente da cidade, em camadas, vista do mar; chegada no cais da Companhia de Navegação Bahiana (ou só “Bahiana”); maçãs argentinas com muito cheiro e pouco gosto expostas sobre caixotes no Terminal da França; ônibus elétricos (trólebus) da SMTC na cidade baixa; cheiro da fábrica dos chocolates Chadler nos Mares e do Café Cravo no Caminho de Areia; leite Alimba na garrafa marrom entregue nas portas; subir pelo Elevador Lacerda e descer pelo Plano Inclinado; ver os outros tomando sorvete na Cubana (e não ter dinheiro pra tomar também); dar uma volta na escada rolante das Duas Américas; a “Mulher de Roxo”; ficar observando o desempenho coreográfico do Guarda Pelé orientando o trânsito: ver os cartazes dos cinemas Excelsior, Liceu, Astor, Popular, Tamoio, Guarany, Bahia, Capri, Bristol; assistir a um filme fumando na cabine de fumantes do Cine Bahia; comer um hambúrguer do Rose’s; uma banana split das Lojas Brasileiras; uma fatia de torta de tapioca do Savoy; um pastel do chinês da Carlos Gomes; um caldo de cana do meio de uma rua qualquer; passear na Avenida Sete olhando o interior das Lojas Sadel, M Kraychete, Radiolar, Florensilva, Romelsa, Saffilhos, Clark Calçados, A Norma…; ficar ouvindo um som na loja de discos da Fundação Politécnica e olhando o desfile das cocotas; um cachorro-quente no trailer do Tony’s ou no Baitakão; a esfiha de rosbife da Unimar da Fonte Nova; a ficha pros orelhões da Tebasa; entrar bem antes do xaréu da Fonte Nova abrir, pelo portão das numeradas superiores e cadeiras cativas, na ladeira, que ficava encostado e a dois passos do meu pensionato na Joana Angélica; ficar na janela do pensionato cerrando cigarros dos passantes até completar uma carteira; entrar de penetra no Baile de Iemanjá, no Clube Português;  também penetrar no Grito de Carnaval do Fantoches da Euterpe e ainda dar espeto no bar; dar espeto também no Braseiro da Carlos Gomes, no Tatu Paka da Pituba, no Jereré de Amaralina; subir a Ladeira da Barra de “morcego” num ônibus da Vibemsa; ir num “xinxim de bofe dançante” no Bairro Macaúbas; fazer serenata na Lagoa do Abaeté bebendo cambuí; bater um baba no SESC de Piatã e depois comer uma dobradinha barata no restaurante do SENAC dentro do próprio clube; ir pra missa das 18:00h, dos domingos, na Igreja de Santana ou no Mosteiro de São Bento, só pra ver uma renca de menina bonita; dar uns amassos na praia atrás do Língua de Prata, em Itapuã; dançar no Pá da Baleia e não conseguir pegar ninguém; passar várias vezes na porta da Boite Anjo Azul e nunca entrar por não ter dinheiro; tomar uma batida de pitanga em Diolino, no Rio Vermelho, e um caldo de sururu no Popular Batidas, na Pituba; ir pra faculdade andando pra economizar dinheiro pro lanche na cantina e pro ingresso do cinema; ir para um sambão na Barraca de Juvená; tomar uma cerveja no Peji, do Orixás Center ou farrear no Avalanches, do Canela; tomar incontáveis chopes no Oceania, no Farol, quando os colegas pagavam minha parte, acumulando uma pilha de "bolachas"; comer uma pizza depois de vários chopes na Dom Giovanni do terraço do Shopping Iguatemi recém-inaugurado; pegar um galeto assado do abatedouro na esquina do Areal de Baixo, no Largo 2 de Julho, levar pro pensionato e comer tomando uma Brahma gelada; comer uma vara de pão de sal de semolina quentinha com manteiga derretendo e arrematar com uma garrafa de Guaraná Antárctica, em qualquer padaria das imediações do pensionato em que eu estivesse morando na Joana Angélica, no Lanat ou no Largo 2 de Julho; dar plantão como interno no atendimento de emergência no Pronto Socorro do HGV, no Canela, sonhando em ter um rápido tempo livre para atravessar a rua e fazer um lanche no Paes Mendonça defronte; namorar bastante no Largo 2 de Julho, noivar, casar na Igreja dos Aflitos, ter filhos paridos no IPERBA, preparados no ensino pelo Social e formados pela UFBA, netos paridos no Hospital Santo Amaro e Mater Dei, viajar muito e voltar sempre pra esta cidade, que não é mais a mesma, mas é quase igual.