Meu pai geralmente evitava falar dos eventos pelos quais
passou ou situações que testemunhou durante sua experiência como pracinha no
Teatro de Guerra da Itália, na II Guerra Mundial.
Quando a minha curiosidade infantil lhe fazia alguma pergunta
direta sobre algum tópico mais delicado, tipo “O Sr. matou algum alemão lá na
guerra?”, a esquiva era a regra. As respostas evasivas iam do “não dá pra
saber” ao “eles ficavam longe” e, até mesmo, um “é possível” eventualmente
poderia ser dito. Nunca algo mais assertivo.
Mas havia duas exceções a essa regra evasiva: 1ª – caso ele
estivesse sob efeito de bebida alcoólica; 2ª – caso o tema abordado contivesse
primordialmente elementos cômicos (no julgamento dele).
O primeiro caso se dava antes do almoço dominical, quando ele
costumava preparar e tomar umas batidas de limão, enquanto preparava a sua
famosa farofa das carnes da feijoada, feita diretamente no machucador do molho
de pimenta recém-preparado, para distribuir como tira-gosto aos comensais (incluindo
nós, crianças) e também para colocar no comedouro da gaiola do sabiá (a
justificativa era para que o pássaro aprisionado aprimorasse seu canto – a
crença era que a pimenta tinha essa propriedade de canoridade sobre aquela
espécie específica de ave; não posso dizer que testemunhei cientificamente esse
efeito, mas o sabiá comia com grande satisfação).
A exceção ao primeiro caso acontecia também quando, vez por
outra, os poucos ex-combatentes que havia em Nazaré, se reuniam no final da
tarde, em torno do balcão da venda de meu pai, para beber, conversar e evocar
fatos da época da guerra, geralmente com versões contraditórias, contestáveis pelos
pares ou incompletas, que motivavam sempre debates acalorados e ruidosos (todos
falavam muito alto, pois portavam algum grau de perda auditiva decorrente dos
estampidos aos quais se expuseram desde os treinamentos antes do embarque para
a Itália, até os campos de batalha). Parecia um concurso para ver qual versão
prevaleceria ou receberia a maioria de concordância dos demais. Infelizmente
tive poucas oportunidades de testemunhar esses encontros e deles não consegui
extrair material para compilar histórias que merecessem algum registro, até
porque meu nível de compreensão do que estava sendo debatido era precário –
entre outras coisas, eu desconhecia totalmente aquelas localidades que eram
enunciadas com familiaridade por aqueles homens; só fixei na memória o nome de
três locais que eram falados recorrentemente: Monte Castelo, Livorno e Pistoia.
Hoje, fazendo livre associação, correlaciono esses três locais,
respectivamente: ao local em que meu pai foi ferido e quase morto (Monte
Castelo), ao lugar em que passou um tempo sofrendo num hospital de campanha
(Livorno) e, finalmente, ao sítio do cemitério dos pracinhas que tombaram lá na
Itália e de onde ele, por pouco, escapou de ser posto sob sete palmos de terra
com uma cruz branca por cima (Pistoia).
Dito isto, vamos ao segundo caso, que se tonou a única fonte
de episódios relativos à II Guerra que meu pai disponibilizou para o meu
registro mnêmico: os registros “anedóticos”:
Meu pai foi voluntário. Depois de declarada guerra pelo
Brasil à Alemanha e Itália, em 1942, muitos outros brasileiros também se
propuseram espontaneamente a cerrar fileiras junto às forças armadas para ir
combater as forças do Eixo, tendo em vista o clima emocional criado pelo
afundamento de diversos navios brasileiros por submarinos alemães, com diversas
mortes de compatriotas. No caso do meu pai, a chance de se livrar das garras
autoritárias da minha avó desempenhou papel acessório importante na decisão de
se voluntariar para ir ao conflito armado. Mas a ideia de se lançar à guerra
não era uma perspectiva muito auspiciosa, animadora, para uma parte daqueles
que foram, por suas vezes, convocados para tal empreendimento.
Muitos tentaram escapar à seleção alegando problemas de saúde.
Meu pai dizia ter presenciado um colega, que não conseguiu ser descartado na
seleção médica, desesperado no alojamento, dizendo que não iria para a guerra
de jeito nenhum, que iria conseguir dar baixa, culminando com o ato de se
autoinfligir uma fratura no membro superior, após arremessar seu antebraço
contra o meio-fio. Conseguiu seu intento: foi dispensado. Esse episódio sempre foi
relatado por meu pai seguido de uma pilhéria, que ele contava com ares de
veracidade. Dizia que um colega recém-recrutado começou a apresentar um
comportamento estranho no alojamento, que consistia em ficar alçando os braços,
abrindo e fechando os dedos em gesto de pinça, como se estivesse inutilmente
tentando capturar borboletas invisíveis no ar; foi levado para atendimento
médico, daí para a enfermaria e o comportamento anômalo não deu sinais de
melhora. Finalmente foi dispensado. Na saída do quartel, os colegas foram se
despedir dele. Quando já se encontrava do lado de fora, as pinças das mãos de
repente ficaram na posição fechada, com os dedos unidos. O rapaz olhou para os
dedos nessa posição, lançou um olhar para os colegas e exclamou: “Colou, porra!”
Por mais vezes que meu pai tenha contado essa piada, a gente
sempre ria, porque o seu desempenho narrativo e a sua interpretação eram
irrepreensíveis e sempre trazia elementos novos.
Outra coisa que ele contava recidivantemente desse tempo
inicial como recruta, e que não me arrisco a atestar a veracidade, eram as
estratégias que os colegas usavam nas folgas para comer em restaurantes caros e
sair sem pagar: iam desde portar fragmentos de insetos (ou eles na sua
completude) para colocar no prato quando já estavam no fim da refeição, até o
que levava um pedaço de sabão no bolso e, após a sobremesa, mascava o sabão,
simulava uma crise convulsiva, espumava abundantemente pela boca e, cessada a
crise, ficava com amnésia temporária – coisas que, em conjunto, inviabilizavam
a cobrança da conta.
Uma das funções para qual meu pai foi designado antes ser
enviado para fazer treinamento de desativação de minas terrestres, em
Caçapava-SP, foi patrulhar a costa nos estados no Nordeste. Ele dizia que,
quando navios eram torpedeados nas águas próximas, a quantidade de cadáveres
que chegava à praia era enorme e ele tinha que cavar sepulturas para enterrar
os mortos. Mas quando seu limite físico e sua tolerância mental para essa
atividade eram atingidos, ele simplesmente recolhia possíveis pertences de
valor do defunto e o devolvia ao mar, para que a corrente levasse o corpo para
mais adiante na costa e que algum camarada seu lá baseado fosse contemplado com
esse encargo. A sua justificativa moral para esse comportamento era que todos
os colegas de farda também faziam o mesmo e que ele, provavelmente, durante o
seu turno já teria enterrado corpos que passaram pela rejeição de seus pares
(esses cadáveres geralmente chegavam sem nenhum objeto de valor no corpo ou nas roupas).
Era algo que ele contava rindo.
Quando queria se referir ao realismo do treinamento de
rastejo, ilustrava sempre com a ocorrência de um evento bastante indesejável.
Inicialmente descrevia que uma rede era disposta na posição horizontal, a uma
distância do solo suficiente para caber um corpo humano se arrastando por baixo
dela, bem rente, o mais colado possível ao chão. O “incentivo” para que os
treinandos rastejassem corretamente era que, logo acima da rede, uma
metralhadora disparava incessantemente munição real (ou “era bala comendo no
centro”, segundo suas palavras textuais) executando uma varredura total, enquanto
os soldados se introduziam ali embaixo e iam sendo comandados aos gritos para
atravessar o espaço até o outro lado. Depois dessa descrição já suficientemente
aterradora, meu pai fazia uma pausa dramática e introduzia o relato de um
colega que elevou o calcanhar do coturno, sendo atingido por uma bala da
metralhadora; ato contínuo (reflexo, talvez), ele elevou o tronco e foi cortado
ao meio pelos projéteis da metralhadora. Nesse ponto, nós, ouvintes
boquiabertos, estupefatos e apavorados, olhávamos para o meu pai e o víamos
cerrar os lábios, gesticular mostrando a palma das mãos e elevando os ombros num
“fazer o quê?”. Sob nossos protestos por não ver justificativa para tal
crueldade por parte do Exército, meu pai retrucava: “Se fizesse isso na guerra,
ia morrer do mesmo jeito! Só fez antecipar.”. E fim de conversa.
A chegada à Itália de navio já trouxe um bom cartão de
visitas do que o esperava. Dizia que o porto de Nápoles era um verdadeiro
depósito intransitável de carcaças de navios afundados, impossibilitando a
ancoragem e desembarque próximo à terra. Lembro-me dele falando que teriam que
ir de destroço em destroço até chegar à cidade, como se tivessem pulando as
pedras do rio Jaguaripe, mas não tenho certeza de que isso tenha sido posto em prática, pois há também a versão de
que teriam contornado Nápoles e desembarcado em Salerno. Quando vou a Nápoles e
vislumbro aquela paisagem da baía com o Vesúvio ao fundo (sem navios afundados
no porto), lembro sempre que aquele deve ter sido o primeiro vislumbre que meu
pai teve da Itália.
Já nas ações de patrulha e combate propriamente ditos, os
eventos que me recordo de terem sido mencionados por ele foram os seguintes:
– patrulha noturna na
“terra de ninguém”. Ele e outros pracinhas entram pela porta da frente numa
casa abandonada que ficava sobre uma colina – a ideia nesses casos, no mais das
vezes, era pouco estratégica. Não se tratava de detectar a posição do inimigo. O
intuito maior se constituía em verificar se havia algum vinho deixado para
trás, algo que era muito bem-vindo para aquecer as noites gélidas que já se
faziam sentir naquela região da Itália, entre a Toscana e a Emilia Romagna. Já
havia vários antecedentes em que ele e seus companheiros de patrulhas
encontraram casas com adegas bem abastecidas, as quais acessavam e abandonavam após não ser mais aplicável a expressão “bem abastecidas” para elas. Pois, nesse exato momento em que eles adentraram essa casa referida inicialmente, uma
patrulha alemã entra ali também, pelos fundos. Encontraram-se frente à frente
no meio da casa, esbarrando-se uns nos outros. A escuridão ouviu gritos
apavorados de ambos os grupos, que saíram correndo em disparada por onde tinham
entrado, sem que um único tiro tivesse sido disparado. A nossa brava gente
brasileira só foi parar muito adiante, quando os pracinhas se certificaram de
que não estavam sendo perseguidos. Imaginaram que o mesmo devia ter acontecido
com a patrulha a alemã. Nas noites seguintes sempre havia um dos nossos que
sugeria voltar à casa, mas essa sugestão não chegou a ser acatada pelos que
passaram por essa experiência temerária e pouco louvável – não devia haver
vinho por lá mesmo;
– alemães encarando
pracinhas negros. Como a propaganda alemã para depreciar os soldados
brasileiros incluía a menção de que os negros eram seres primitivos, até mesmo
antropófagos, meu pai dizia ter presenciado o verdadeiro horror que se instalava
no semblante de prisioneiros alemães quando se viam diante de um pracinha
negro. Eles reagiam realmente como se estivessem prestes a ser devorados e
pronunciavam súplicas ininteligíveis aos ouvidos brasileiros. Isso divertia
tanto os nossos soldados, que não perdiam a oportunidade de colocar cada
prisioneiro feito sob a escolta e tutela de um pracinha negro, que, já sabendo
do terror que provocava, tratava de acrescentar expressões faciais que sugeriam
estar diante de um petisco a ser degustado em breve. Claro que isso tinha breve
duração, pois os alemães logo percebiam que estavam sendo vítimas de gozação,
mas era motivo de muita risada enquanto durava a encenação;
– o capitão faminto na neve. Numa patrulha em meio à neve, os brasileiros foram atacados pelos alemães e se dispersaram. Meu pai se viu apenas na companhia de um capitão e em pouco tempo descobriram que não sabiam como retornar a suas linhas: estavam perdidos na neve. Persistiram vagando por mais um dia ou dois, não lembro ao certo, esgotaram o estoque de barras de chocolate que traziam nos bolsos, restando apenas a alternativa de comer neve. A fome e o frio combinados estavam superando o limite do suportável. Foi quando avistaram o corpo de um alemão que estava com o tronco dilacerado e as nádegas bem alvas expostas. O capitão lançou-se sobre as nádegas do alemão e cerrou os dentes numa mordida para arrancar um naco daquilo que lhe parecia uma possível refeição. Meu pai se projetou sobre o capitão, puxando-o, ele insistindo e querendo se desvencilhar de meu pai para prosseguir no seu intento de comer a bunda do alemão no sentido literal, até que meu pai lhe desferiu um soco na face e disse: ”Está maluco, capitão? Quer comer carne de gente?”. Nesse momento meu pai pensou que seu futuro nas fileiras do Exército estava encerrado, por ter agredido um oficial. O capitão parou, colocou as mãos no rosto e pareceu retomar o senso. Ficou um tempo em silêncio e depois disse: “Obrigado, Miguel!”. Pouco tempo depois foram alcançados por uma patrulha da FEB e retornaram às linhas amigas. Não houve mais comentários sobre o ocorrido nem consequências punitivas para meu pai. Ufa!;
– correndo risco para
pegar souvenirs. Quando meu pai
nos anos 1960 me dava a satisfação de assistir ao seriado Combate, que ia ao ar
nas noites de quinta-feira, eu ficava mais atento às reações dele do que
propriamente à tela da TV. Ele costumava se divertir quando via os soldados
americanos passando ao lado de alemães abatidos, sem ao menos encostar neles.
Ele dizia: “Isso é um absurdo! Deixar aquelas armas ali? Nunca!”. Aí ele
lembrava que a regra era depenar os mortos. Tirar deles o que pudesse ser usado
ou colecionado. Claro que descobriram que alguns casos de cadáveres exibindo
algum atrativo muito flagrante poderiam ser uma armadilha, com explosivos
colocados no caminho até o defunto ou conectados ao próprio. Meu pai contava
que colecionava armas dos alemães. Tinha verdadeira fixação por elas. Seu saco
de dormir era o depósito delas e já estava pleno. Isso não impediu que, numa
patrulha, ao avistar um alemão tombado no fundo de um vale, o visse como potencial alvo. Observou que no seu
coldre havia uma pistola Luger. O desejo de se apossar daquele souvenir se sobrepôs a qualquer medida
acautelatória recomendada naquelas situações. Ele então foi sofregamente ao encontro do seu
prêmio. Mas, quando ia se aproximando, o que ouviu foi a já familiar sequência seca
de estampidos de uma metralhadora, em rajadas destinadas à sua incauta pessoa.
Ele jura que não sabe bem como conseguiu alcançar um tronco de árvore que jazia
caído a uma boa distância de onde estava. A impressão que ele conservou é a de
ter chegado lá detrás do tronco num único salto, o que lhe colocaria fácil numa
final olímpica do voo à distância. A imprecisão dos alemães lhes custou caro.
Logo outros soldados brasileiros acorreram ao local e após algum tempo e tiros
e granadas, os alemães foram liquidados ou, eufemisticamente, silenciados,
neutralizados. Meu pai nunca fez referência quanto à sua participação no
desfecho desse combate, lá detrás do tronco em que se viu pousar, mas diz que
ao final conseguiu recolher a Luger - chamariz para aquela situação que quase
lhe custou a vida. A propósito, depois desse incidente, a sua busca por souvenirs arrefeceu. Quando retornou ao Brasil, distribuiu quase tudo que havia
colecionado aos colegas que não haviam trazido nada e, sabendo do seu estoque,
lhe pediam para ceder algo que pudessem levar consigo de lembrança para mostrar
heroicamente aos familiares e amigos. No final, ficou só com duas pistolas
alemãs, que acabaram sendo presenteadas a amigos de Nazaré. Ou seja, não
guardou absolutamente nada daquilo pelo qual, tantas vezes inconsequentemente, pôs em risco sua vida. Nem sua farda de soldado ficou consigo (nem quepe, nem
blusão, nem calça, nem botas...) – só algumas fotos. Dos objetos que conservou
e que tive oportunidade ainda de ter contato, posso contabilizar um cinto com
fivela dourada, uma baioneta, duas cartucheiras de lona para balas de fuzil,
uma camisa regata verde-oliva, 2 minúsculos rolos de papel higiênico, que se
assemelhavam a embalagem de alguns guardanapos atuais, patches com o emblema escrito BRASIL em branco sobre fundo verde,
outro com o distintivo da FEB (o da cobra fumando) e outro vermelho, azul e
branco com a inscrição A5 (emblema do 5° Exército Aliado). Além disso, tinha a
Medalha de Campanha e a Medalha Sangue do Brasil, entregues já após o seu retorno.
– o evento da quase
morte. Eu nunca soube ao certo como nem quando ocorreu o ferimento de meu
pai na guerra. Ele nunca tratou desse assunto na minha presença. Pelas
conversas que ouvi ele tendo com outros ex-combatentes, em que se referiam a
batalhas famosas, tinha a impressão que ele houvera participado delas todas,
principalmente Montese. Mas, recentemente, conversando com minha mãe, obtive o
relato de que, quando eram noivos, ele contou a ela como se deu o fato. E foi
em Monte Castelo. Não foi possível identificar em qual das cinco ofensivas a
essa posição alemã ele foi abatido, mas ela diz que ele referiu ter passado o
Natal no hospital, o que já exclui a ofensiva final de fevereiro de 1945. A
circunstância que motivou seu ferimento foi ter pisado, na encosta do monte,
ironicamente, numa mina terrestre. Ficou desacordado durante toda a noite, em
meio à lama gelada. Pela manhã, quando vieram recolher os corpos, ele foi
contabilizado como mais uma baixa fatal. Já estava prestes a ser colocado entre
a pilha de mortos, quando alguém falou: “Esse aqui está se mexendo!”. Uma tênue
diferença entre a morte e a vida. Foi então resgatado e transferido para
receber o devido tratamento médico.
A partir dali, a sua guerra passou a ser travada nos leitos
de hospitais de campanha e em outros fixos, inclusive em New Orleans, nos Estados Unidos.
A explosão da mina atingiu prioritariamente um dos seus
membros inferiores (acho que o direito – não ficaram sequelas visíveis), que,
por sorte, não foi totalmente estraçalhado. Houve várias fraturas, mas foi
possível evitar a amputação. Mas, para tanto, teve que ficar acoplado num
dispositivo de tração no membro atingido. A dor que sofria era excruciante.
Isso não impedia que os colegas ali internados, todos já movidos por um
espírito de humor sádico, aproveitassem o momento em que ele adormecia e fossem
elevando o peso que servia para fazer a tração, via roldanas, e baixando vagarosamente sua
perna; então o despertavam e perguntavam se a dor estava melhor. Geralmente essa
manobra reduzia bastante o desconforto. Mas, em seguida, eles soltavam abruptamente o
peso, o que provocava em meu pai um grito pela dor lancinante, e que era motivo de gargalhada geral em quase todos os pacientes da enfermaria.
No leito vizinho ao que estava meu pai se encontrava um pracinha que
tinha sido alvejado no pescoço ainda estava com o projétil alojado próximo à
base do crânio. Por conta disso, também se encontrava com um dispositivo que
tracionava sua cabeça para trás, consistindo numa faixa em sua testa, ligada a
umas tiras que terminavam num saco de areia que ficava pendendo por baixo da
cabeceira da cama. Vez por outra, ele dizia pro meu pai: “Miguel, me dê um
alívio aí!”. Então meu pai se esgueirava até alcançar o saco de areia e o
elevava, causando o tal alívio solicitado pelo então agradecido colega enfermo, feliz
com esse lenitivo, até que meu pai decidisse dar o troco enviesado da maldade
que lhe faziam e soltava bruscamente o saco de areia, causando a mesma reação e
urro de dor, que também provocava reação de hilaridade generalizada no ambiente.
A maioria das enfermeiras no hospital de campanha em Livorno
era de americanas. Havia uma especialmente altiva e bonita, que virou alvo da cobiça
e galanteios de quase todos ali. Por mais que os brasileiros se dispusessem a
cortejá-la, a barreira do idioma e a situação de repouso forçado no leito eram
fatores bem limitantes para a obtenção de sucesso nesse tipo de iniciativa.
Isso sem contar que apareceu, entre os pacientes, um oficial americano com pinta
de artista de cinema que, além dos dotes físicos, também estava com alguma mobilidade,
não tendo que ficar restrito ao leito. Eis que, numa noite, o oficial e a
enfermeira viram suas afinidades se tornarem indicadores urgentes de maior
intimidade. Dirigiram-se, então, para concretizar o idílio romântico na areia
da praia próxima ao hospital. Não contavam com o pormenor de que a praia era um
campo minado. Resultado: deitaram sobre uma mina, subiram pelos ares
literalmente e terminaram aos pedaços. Os enfermos riram muito desse desfecho.
Para aqueles pacientes que tinham condição de mobilidade,
eventualmente, nos fins de semana eram distribuídos passes para sair do hospital
e visitar a cidade de Livorno. Os brasileiros já estavam se tornando poliglotas.
Além do convívio cotidiano com americanos e italianos, também tinham
dicionários de inglês e livros de italiano para brasileiros à disposição facilitando
o aprendizado dos idiomas. Para ilustrar o espírito dos brasileiros em meio a esse
estado de coisas, meu pai dizia ter presenciado um pracinha, numa sexta-feira,
se dirigindo à enfermeira chefe e dizendo a seguinte frase: “Miss, domani have pass passeggiare cidade?”.
Ela compreendeu. Ele conseguiu o passe, enquanto todos riam.

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