quarta-feira, 19 de setembro de 2012

Os dois locais mais românticos do mundo




Os dois lugares mais românticos do mundo têm rios de sangue.
Os dois lugares mais românticos do mundo têm eletricidade gerada pela luz e por ideias. 
Os dois lugares mais românticos do mundo têm nervos que dão nos nervos.  Os dois lugares mais românticos do mundo são meu cérebro e minha retina – esta quando te vê; aquele quando te imagina.

sábado, 21 de abril de 2012

Miguel Tolentino - uma biografia em minha memória


Miguel Tolentino de Souza nasceu no dia 08 de maio de 1921. Terceiro filho de Públio Tolentino de Souza e de Durvalina Meirelles de Souza (Durvalina Leite Meirelles quando solteira), conhecida como Dona Dudu, veio se juntar aos irmãos Helenita e Renato. A família residia em sua chácara de 5000 m2 em Nazaré, localizada ao sopé do morro na antiga Rua dos Artistas, no bairro da Conceição, cujo terreno houvera sido desmembrado da fazenda de Leôncio Tolentino de Souza, avô de Miguel e pai de Públio, e as terras dessa propriedade, com sede e engenho na Jacatiba, se estendiam do Alto do Barão até o Quiçaçá, nos limites de Nazaré com Aratuípe.
A infância de Miguel Tolentino foi inicialmente marcada pelo falecimento precoce de seu pai Públio Tolentino, conceituado mestre da oficina de Estrada de Ferro. O sustentáculo da casa ficou por conta da forte presença de Dona Dudu e do auxílio do sogro Leôncio Tolentino. Conta-se que, até mesmo, o famigerado e temido Barão Açu da Torre, que tinha sua propriedade na vizinhança, dedicava especial respeito e consideração à viúva e sua família, destinando-lhes relativa proteção.
Criado nesse ambiente meio urbano, meio rural, e com as inegociáveis restrições maternas para se aventurar pela cidade que se estendia abaixo da elevação em que a chácara se situava, Miguel se mostrou desde cedo muito inclinado às incursões pelo mato nos arredores da chácara, tornando-se um explorador, caçador e coletor muito hábil. Além das pacas, tatus e preás que caçava, também consumia avidamente as frutas de ocasião que encontrava em suas andanças pelos quintais alheios – cajus, jacas, cajás, ingás, etc.
Para ilustrar a rigidez com que a sua mãe o educava, contava ele que, certa feita, realizando uma de suas expedições pelas terras do Barão com mais alguns amigos à procura de cajus, deparou-se com um boi, digamos, não muito amistoso, que avançou em sua direção; na desesperada e urgente tentativa de fuga, Miguel embrenhou-se por entre uma touceira de cansanção. Após transpor esses arbustos altamente urticantes, já saiu do outro lado com os olhos totalmente edemaciados, quase fechados, sem contar as bolhas no resto do corpo. Foi conduzido pelos relutantes e temerosos amigos até a cerca que delimitava a sua chácara e, com dificuldade, caminhou até chegar em casa. Lá, a sua mãe, a temível Dona Dudu, o aguardava e, sem delongas ou questionamentos, aplicou-lhe uma impiedosa surra de cipó! Enquanto apanhava, naquele estado já deplorável, ouvia sua mãe dizer: “Boa coisa você não estava fazendo, seu moleque!”. Só depois de findo esse castigo físico adicional é que foi questionado sobre o que tinha acontecido e aí, finalmente, recebeu o tratamento possível para o contato com cansanção, que era colocar urina da própria vítima sobre os locais afetados. Sobreviveu.
Miguel fez o curso primário na escola José Marcelino e no Aprendizado Clemente Caldas. Ainda pré-adolescente começou a trabalhar no estabelecimento comercial do Sr. Octacílio Brito.
Quando eclodiu a II Guerra Mundial e começaram a ocorrer os torpedeamentos de navios no litoral brasileiros, levando à declaração de guerra do Brasil às forças do Eixo (Alemanha, Itália e Japão), em 22 de agosto de 1942 e posterior criação da Força Expedicionária Brasileira (FEB), Miguel se alistou como voluntário para participar das forças do exército brasileiro que estavam destinadas a combater naquela guerra. Há quem diga que ele preferiu a guerra ao enfrentamento cotidiano com Dona Dudu!
Após passar pelos exames seletivos, recebeu as primeiras instruções militares ainda na Bahia, e diante da necessidade de o Exército atuar no fortalecimento do Teatro de Operações do Nordeste, que passou a ser prioritário, foi destacado para o serviço de patrulhamento da costa em Sergipe e Alagoas, incumbido, entre outras coisas, da penosa tarefa de recolher nas praias os inúmeros corpos dos tripulantes e passageiros mortos nos navios brasileiros torpedeados por submarinos alemães, naquele momento em que os alemães decidiram mudar o esforço de sua campanha submarina, das Ilhas Britânicas para o litoral do continente americano, a fim de bloquear o apoio dos Estados Unidos a seus aliados.
No início de 1944, Miguel foi incorporado à 1ª Divisão de Infantaria Expedicionária (1ª DIE), com sede no Rio de Janeiro. Constatada a inexistência de especialistas para um gama enorme de funções militares previstas na organização americana para o exército, faziam-se convocações especiais e cursos de emergência no Centro de Instrução Especializada, então criado para atender as necessidades da FEB. Miguel realizou o curso para tornar-se especialista em localizar e desarmar minas terrestres, no 6o Regimento de Infantaria (6o RI), sediado Caçapava-SP. De abril a julho, intensificou-se a preparação militar, realizada com uma série de restrições materiais, inclusive por carência do material bélico com que se iria combater. Miguel costumava evocar a memória do realismo desses treinamentos, relatando um episódio em que um companheiro teve sua vida tragicamente ceifada, ao falhar na técnica correta de manter-se próximo ao solo, durante treinamento de rastejamento sob uma rede acima da qual uma metralhadora despejava balas de verdade. Era uma preparação bem realista para o que estava por vir.
Miguel Tolentino embarcou com destino à Itália, juntamente com o seu Regimento, no dia 02 de julho de 1944. Após zarpar do Rio de Janeiro, em tensa viagem marítima a bordo do navio “General Mann”, escoltado, até Gibraltar, por navios de guerra nacionais e norte-americanos, Miguel e seus companheiros integrantes do 1o Escalão da FEB chegaram ao porto de Nápoles em 16/07/1944. Contava ele que tal era a quantidade de destroços de navios na águas da baía de Nápoles, que o desembarque teve que se dar distante do cais, usando os cascos de navios afundados como plataforma. Depois de uma estadia de 10 dias em Bagnoli, perto de Nápoles, o 1º Escalão de Embarque da FEB seguiu para a região de Tarquinia para receber material e submeter-se a intenso treinamento final. Somente na Itália é que os grupamentos táticos da 1ª DIE puderam receber o equipamento bélico com que iriam lutar e realizar seu adestramento final, sendo incorporados ao V Exército norte-americano, que se encontrava com extrema escassez de efetivos, haja vista que perdera o VI Corpo Americano e o Corpo Expedicionário Francês, levados para a invasão do sul da França. Entre 18 e 20 de agosto, o 1º Escalão de Embarque da FEB seguiu para Vada, que ficava então a 25 km da frente de combate do Arno, terminando ali as manobras de treinamento e começando o deslocamento para a zona de combate. A missão da FEB era a de auxiliar o V Exército a manter as forças ofensivas para fixar as forças alemãs que ainda combatiam na Itália e impedi-las de reforçar as frentes principais no restante da Europa.
Miguel, dado ao seu porte físico, era chamado de “Baiano Grande” pelos companheiros. O 6 º RI foi a primeira unidade brasileira a entrar em posição e cumprir missão de combate, em 15 de setembro de 1944, na região de Vicchiano. Participou das operações da jornada de 16 de setembro de 1944 na linha Monte Comunale - Il Monte, em que a FEB se apossou das localidades de Massarosa, Bozzano e Chiesa. A tropa brasileira foi avançando para o norte, obtendo seu primeiro êxito expressivo ao conquistar, a 18 de setembro, da cidadezinha de Camaiore, sob forte oposição de fogos de artilharia e morteiros, mas suplantando as pequenas resistências. Na jornada do dia 20, nas ações de estreitamento do contato, foram feitos os primeiros prisioneiros e presenciadas as baixas iniciais de companheiros pracinhas. Miguel participava nas patrulhas de reconhecimento, detecção e desarmamento de minas. Costumava relatar o pavor dos soldados alemães capturados, mormente frente aos soldados brasileiros negros - que eles supunham ser antropófagos, por conta de uma cartilha nazista que houvera sido distribuída previamente à chegada dos brasileiros à Itália. A intenção da tal cartilha era a de evitar que a população italiana viesse a simpatizar com os brasileiros, mas acabou resultando mesmo foi num temor da própria tropa alemã aos “selvagens”.  
Vieram depois a tomada da elevação de Monte Prano e da captura das localidades de Fornachi, Barga e Gallicano. Em 30 de outubro foi feito o ataque a San Quirico e Lama di Sotto, cuja posse por nossas forças constituía uma ameaça a Castelnuovo di Garfagnana, por onde passava uma transversal rodoviária de importância vital para a movimentação das reservas do inimigo.
Até esse momento a FEB havia sofrido 290 baixas, capturado 208 prisioneiros e conseguido o saldo positivo de 40 km de vitoriosos avanços.

Por decisão do General Mark Clark, comandante do V Exército, a divisão brasileira foi retirada da frente de combate de Castelnuovo di Garfagnana e deslocada para o setor situado entre os pequenos rios Reno e Panaro, na rota 64, posição que era vital para conquistar Bolonha, importante junção rodoferroviária em três direções, que vinha sendo atacada inutilmente nos últimos três meses pelos americanos e ingleses, os quais sofreram pesadas perdas. A tomada de Bolonha significaria vencer a batalha da Itália.
Esse era o quadro da frente italiana quando a FEB começou a atuar totalmente reunida: ataques dizimados, divisões inteiras necessitando de descanso; frio, lama e sangue, desalento e dor.
As posições brasileiras no rio Reno, por onde corria a rota 64, ficavam nas encostas de um arco de elevações, em cujas partes dominantes os alemães possuíam posições fortificadas: Belvedere, Gorgolesco, Monte Castelo, Della Torracia, Torre di Nerone, Soprassasso. Oblíquas em relação à estrada, as elevações descortinavam e dominavam todos os movimentos das tropas aliadas, sendo necessário manter geradoras de fumaça em permanente funcionamento para dificultar a visão do adversário. Nessa privilegiada situação topográfica e tática, em que o Monte Castelo era a parte mais sensível, combatia a aguerrida 232ª Divisão de Infantaria Alemã.
Impunha-se, pois, atacar as posições fortificadas do inimigo naquele setor. Atacar do sopé para o cume fortificado, ainda sem a necessária experiência de combate; realizar ações frontais, sem meios suficientes; sem o apoio de blindados, pouco próprios para o combate na montanha e que se atolariam no lodo daqueles dias; arrastar-se na lama e no frio sob o castigo de pesados capotões e enormes galochas; combater sem a ajuda e o conforto da aviação, ausente daqueles terríveis céus de novembro e dezembro de 1944.




Nesse quadro, Miguel, como integrante do batalhão mais experimentado no combate até então, participou das ofensivas contra Monte Castelo que se deram por 03 vezes no final de novembro de 1944 e no dia 12 de dezembro. Tendo em vista as peculiaridades da situação, a Divisão, ao invés de empregar centralizadamente os seus regimentos, acionava diretamente os seus batalhões.  Mesmo atacando juntamente com a Task Force 45 norte-americana, não se obteve sucesso por conta de insuficiência de meios e por terem sido ataques frontais a posições fortificadas.
Durante o ataque a Monte Castelo na noite de 12 de dezembro, em meio ao frio e neve, avançando em meio a uma chuva de projéteis e granadas, Miguel, ironicamente, pisou numa mina alemã e a explosão o arremessou para longe. Permaneceu estendido e atordoado no meio da neve e lá ficou com o pé direito aos pedaços, sem saber ao certo se estava vivo ou morto. Sobreviveu por toda a noite praticamente congelado. Quando chegou a luz do dia, os companheiros que estavam recolhendo os mortos já o estavam dando como uma das baixas, mas logo perceberam que ele ainda estava com vida. Foi então removido para um hospital de campanha do Serviço de Saúde e daí para hospitais militares em Pistoia, Pisa e Livorno, sendo submetido a cirurgia de síntese, enxerto e reconstituição das partes ósseas atingidas. A sua permanência nos hospitais foi prolongada e a recuperação lenta e dolorida, tendo que permanecer com aparelho de tração e perna direita elevada por um bom período. No hospital conviveu com os mais variados dramas dos soldados aliados que lá se encontravam com os mais variados ferimentos, mutilações e traumas psíquicos. Quando começou a andar novamente foi enviado para reabilitação num hospital em New Orleans, nos Estados Unidos, pois a guerra na Europa já estava perto do fim e os americanos queriam dispor de mais efetivos para enviar à guerra do Pacífico.

Foi ainda nos Estados Unidos, no dia de seu aniversário de 24 anos, 08 de maio de 1945, que Miguel presenciou e participou da festa do fim da guerra na Europa. A Alemanha finalmente se rendera e o nazi-fascismo foi derrotado. Miguel relatava que a imagem que mais o marcou nesse dia foi ver, pela primeira vez, brancos e negros juntos, naquela região dos Estados Unidos marcada pela segregação racial, compartilhando os mesmos abraços e beijos, bebendo e comendo juntos. A festa se repetiria em agosto, quando o Japão, após sofrer os ataques das bombas atômicas de Hiroshima e Nagasaki, também se rendeu e a II Guerra teve fim.

Ainda sem estar completamente recuperado, Miguel retornou ao Brasil, ficando inicialmente num hospital do Exército em Recife e depois seguiu para o Rio de Janeiro, onde permaneceu até a dissolução da FEB no final de 1945. Foi condecorado com a Medalha de Campanha e a Medalha Sangue do Brasil. Não conservou muita coisa que o lembrasse da guerra. Possuía uma razoável coleção de armas alemãs que recolheu dos inimigos abatidos, mas no seu retorno ao Brasil as distribuiu com os colegas pracinhas que queriam levar algum souvenir consigo.
O seu retorno a Nazaré só se deu no ano seguinte. Viajou do Rio de Janeiro até Jequié. De lá passou um telegrama avisando que estava chegando e pegou o trem para Nazaré. A comunidade nazarena rapidamente se mobilizou e preparou uma calorosa recepção para o seu filho que lutara em defesa da pátria no Teatro de Operações da Itália. Foi recebido com foguetes, banda de música e solenidade no salão nobre da Prefeitura. Consta que sua mãe não foi até a Estação Ferroviária recepcioná-lo, mantendo-se na execução da rotina doméstica, e que quando ele entrou em casa foi recebido apenas com a exclamação: "Ô, já chegou?" 
A Câmara Municipal de Nazaré o homenageou conferindo o nome de Rua Expedicionário Miguel Tolentino de Souza à rua onde morava na Conceição. Findas as homenagens, voltou à vida civil.
Em 1956, casou-se com Dona Iraildes de Almeida Souza, com quem teve 05 filhos, além de ter completado a criação de 3 sobrinhos, órfãos de seu irmão Renato, que faleceu em 1967. Foi comerciante a maior parte de sua vida, tendo inicialmente um armazém de secos e molhados chamado "O Continental", o qual foi completamente arrasado durante a enchente de 1960. Após esse incidente, foi administrador de fazenda, fiscal de rendas e secretário de obras do município entre 1962 e 1966. 



Eleito vereador em 1966, pela ARENA, foi Presidente da Câmara e exerceu seu mandato até 1970. Em seguida assumiu o cargo de Avaliador Judicial ao tempo em que mantinha a sua atividade de comerciante num pequeno mercado, onde houvera sido o armazém de seu falecido irmão Renato. Foi também Venerável da Loja Maçônica HIRAM.


Em 23 de janeiro de 1983, no Hospital Geral do Exército, em Salvador, veio a falecer, sucumbindo ao insidioso diabetes e suas complicações que já vinham deteriorando sua saúde há 08 anos. A sua trajetória está resumida na lápide do seu jazigo perpétuo no Cemitério da Santa Casa de Misericórdia de Nazaré: “Dos embates que a vida oferece/ conservá-la é sempre o mais duro/ o teu sopro de herói permanece/ insuflando-nos para o futuro”.


NOTA: no último dia do seu internamento no Hospital do Exército, às 8:00h da manhã, meu pai foi informado que teria que amputar a perna por conta de uma úlcera diabética. Horas depois seu quadro se agravou, entrou em coma leve e foi levado para a UTI. Eu estava de plantão em outro hospital e só pude chegar lá no final da tarde. Entrei na UTI para vê-lo às 18:00h; quando segurei sua mão, ele abriu levemente os olhos e eu lhe disse que iríamos lutar para fazê-lo recuperar-se. Ele, num aparente grande esforço, acenou um não com a cabeça e os olhos se encheram de lágrimas. Entendi que ele tinha desistido, que não queria mais viver com aquelas limitações que já vinham se arrastando há anos. Fiquei segurando sua mão e ele voltou a fechar os olhos. Vi que o monitor começou a registrar extrassístoles. Falei para o pessoal de plantão que caso ocorresse algum evento de parada cardiorrespiratória deveria ser encarado como óbito e não deveriam ser tentadas manobras de ressuscitação. Saí da UTI e voltei para o quarto onde minha família aguardava notícias. Falei da impressão pessimista que tive. Enquanto eu falava o colega plantonista da UTI chegou e relatou que meu pai tinha ido a óbito logo que eu saí. Um misto de tristeza e alívio se instalou em minha mente. Fui até o necrotério e fiz a barba do agora cadáver de meu pai, enquanto lhe acariciava o rosto e lembrava da sua trajetória de lutas desde a II Guerra.


sábado, 13 de agosto de 2011

O Ato Falho


José Roberto Tolentino - ecbahia.com

O Ato Falho
22/03/2005

Por instantes, breves instantes, cheguei a me confundir ao ver na grade de programação do pay-per-view da TV por assinatura o anúncio do jogo entre Bahia e Fluminense de Feira: pensei tratar-se do Fluminense do Rio, mas logo caí na real. Responsabilizei a similaridade dos escudos, para justificar esse meu lapso que foi corrigido logo que percebi efes demais no escudo do time homônimo do sertão.

Dizem que o desejo do inconsciente se realiza através do “ato falho” e que nenhuma palavra, gesto ou pensamento aparentemente equivocado ocorre por acaso - pelo menos é o que suponho de cá de baixo da minha leiga ignorância em Psicologia. Aliás, essa coisa de pecar por pensamentos, palavras e obras é a base da nossa formação (repressão) moral cristã (para os que a seguem) e sempre me atemorizou essa idéia de pecar por “pensamentos”, mas nem por isso me tornei um modelo de virtude interior e, recidivantemente, as coisas mais escabrosas continuam perpassando “minha pobre mente conturbada” - devo aqui creditar à minha mulher essa última expressão.

Pois não é que, com essa mania de ficar analisando esses atos falhos, eu cheguei a uma explicação razoavelmente plausível para o que eu referi acima? A resposta é uma só, meus amigos: nostalgia. Pura e doce nostalgia. Não foi por acaso que confundi um Flu com o outro. E a culpa é de Nestor. Não é aquele da letra de “Tu és o MDC da minha vida” , de Raul Seixas (...na Faculdade de Agronomia/ numa aula de energia, bem em frente ao professor/ eu tive um chilique desgraçado/ vi você surgindo ao meu lado/ no caderno do colega Nestor...); o Nestor em questão é o bravo e competente jornalista Nestor Mendes Jr., companheiro de coluna aqui no ecbahia e autor de Bahia Esporte Clube da Felicidade, livro que só não pode ser chamado de obra definitiva porque o Bahia não acabou (ainda).

Foi me deleitando e fazendo mais uma releitura do livro, essa semana, que me detive na narrativa do jogo entre Bahia e Flu do Rio, na semifinal do Campeonato Nacional de 1988 (já em 89). Aí, tudo o que aconteceu naquele histórico dia me reapareceu na memória, nos sentidos e nas secreções lacrimais.

Eu estava lá. Parece que todo o mundo estava lá. Cheguei bem cedo para evitar engarrafamentos e confusões, estacionei meu Passat 76 Missão Impossível (esse carro se autodestruirá em 5 segundos) na Rua da Independência, já pensando em ter, na volta, a minha saída facilitada pela Mouraria, Rua do Paraíso e alcançando a Avenida Sete. Deixei o carro com a certeza que a sua aparência era o melhor seguro contra roubos existente no mercado. A experiência de chegar até o estádio já foi comparável ao espreme-gato que se experimenta quando se tenta passar pela pipoca do Chiclete. Ao entrar na Fonte percebi um incrível número de pessoas tão precavidas quanto eu me supunha. A zorra já estava lotada - para os parâmetros dos clássicos regionais, por exemplo.

A duras penas consegui assento no meu sítio costumeiro de então – arquibancada superior, à direita da tribuna, num local que fizesse uma linha reta, uma diagonal perfeita, entre a bandeirinha de escanteio e o vértice da linha divisória com a lateral lá do lado das antigas gerais. Esse posicionamento era absolutamente essencial para que as coisas caminhassem bem dentro de campo. Com o passar do tempo, o aperto começou a se intensificar e meus dois irmãos Lu e Júnior, que estavam ao meu lado, já se encontravam quase sobre meu colo e as minhas pernas foram sendo obrigadas a se fechar, comprimindo as minhas partes baixas e colocando em risco a minha produção de espermatozóides confiáveis.

Como se fosse possível, no momento em que o Bahia entrou em campo e todo o mundo levantou para saudar o time (exceto eu, pra garantir meu lugar e para tentar me precaver dos fogos que a Torcida Povão soltava), apareceu mais uma enxurrada de gente querendo ocupar espaço ali e alhures. Fui então designado pelo destino para acolher dois bêbados à milanesa (cobertos de areia) no espaço da arquibancada destinado a colocarmos os pés. Um deles, o de maior massa adiposa, desabou literalmente sobre minhas Havaianas e sucumbiu ao sono ou ao coma. O outro, aparentemente menos embriagado ou mais resistente, ficou abaixado, mas dando cotovelada e apoiando-se nos meus joelhos, insistindo em levantar-se continuamente. – Peraí, meu irmão! Abaixa aê, caraio! Eu já não estava conseguindo ver porríssima nenhuma. Aí o Fluminense faz seu primeiro ataque e... gol de Washington! Foi o maior silêncio já havido até hoje na Fonte Nova. O bêbado que estava comatoso reagiu ao gol vomitando todas as batidas de Diolino e todos os pedaços de comeu-morreu que havia ingerido até então.

Retei-me! Qualquer cientista do Projeto Genoma e qualquer estafeta cartesiano sabe sobejamente que dá o maior azar assistir a um jogo ao lado de um torcedor adversário, ao lado de uma mulher que não entenda de futebol ou do lado de um bêbado. Eu estava do lado de dois! O Bahia estava perdendo e os meus pés estavam sendo digeridos pelo suco gástrico daquele peru de Natal escornado à minha frente. Avisei a meus irmãos: - Vou me picar daqui! Na saída a gente se encontra lá onde deixei o Missão Impossível.

Enquanto ia me deslocando, ouvi uns insultos previsíveis, esquivei-me de umas caras feias, mas depois de 10 minutos consegui alcançar a escada para sair dali. O peso no peito que eu estava sentindo e que reconhecia como prenúncio de tragédia foi aos poucos me abandonando. Mas o jogo já transcorria há uns 15 minutos e eu não estava conseguindo ver nada. Tentei encontrar um lugar em cima do placar: nem uma fresta do gramado era possível ser vista. Fui tentar acesso na arquibancada superior do outro lado: não passava nem um átomo de hidrogênio. Desci e fui em direção às antigas gerais e, talvez, por ainda estar batendo sol, achei uma gretinha suficiente pra ver Tarantini se preparando para cobrar um falta pela direita. A bola saiu teleguiada para a cabeça de Bobô e daí para o nosso gol de empate. Como eu estava bem atrás da aglomeração de torcedores que assistiam ao jogo naquele local, saí correndo mais para trás, gritando e pulando sozinho até que fui alcançado e abraçado efusivamente por outros torcedores com os quais dividia naquele momento muito mais que um recíproco desconhecimento – um simultâneo frenesi.

Findo o primeiro tempo, achei que finalmente sobraria um espaço deixado por aqueles que iriam para os bares e para os temíveis sanitários da Fonte. Fui tentar um lugar na arquibancada imediatamente inferior àquela em que me instalei inicialmente, no intuito de encontrar um posicionamento que fizesse a imprescindível diagonal com a bandeirinha de escanteio e o vértice da linha de meio de campo. Pouquíssima gente arredou pé de onde estava. Percebi que minha capacidade preditiva estava em seus piores dias e que a minha via crucis iria continuar. O único posicionamento que se mostrou possível e disponível foi o da parte posterior daqueles longos bancos de cimento que ficam na parte superior da arquibancada (se é que me faço entender). O jogo recomeça e o Bahia vai pra cima do Flu. A torcida sente o ânimo do time e vai se inflando ainda mais. Em pé na pontinha do banco de concreto, fila dupla na minha frente, segurando por vezes no ombro de alguém para não cair, meu equilíbrio era precário. E de repente uma jogada de Charles pela direita, um bate-rebate, um petardo para o gol. Valeu? Quem foi que fez? Foi Gil? Foi Bobô? Nada disso interessa: é gol! É gol do Bahia! É o gol da virada! Bora Baêa, minha porra! O grito de gol veio tão das entranhas que, se fosse mulher, eu diria que foi um grito uterino. Dessa vez a comemoração com os confrades circunstantes foi tão efusiva que, por pouco, eu teria sido vítima ali de uma precoce palpação da próstata.

Era a materialização da força desse time predestinado e dessa torcida tão compreensivelmente fiel e arrebatadora. Os nossos meninos continuavam dando sangue em campo e ataques se sucediam. Eu continuava praticando equilibrismo no banco de cimento e, num momento em que Gil quase marca o terceiro, o pessoal que estava na minha frente se agitou e eu me descuidei, pisando o espaço vazio como se fora uma extensão do banco e acabei caindo, não sem antes pisar em falso no chão e ouvir um estalo no tornozelo. A dor era insuportável e eu comecei a sentir tonturas e a suar frio, deitei-me no chão para oxigenar melhor o cérebro e não perder totalmente os sentidos. Enquanto me contorcia e suava profusamente, a baiana do acarajé que estava logo atrás, achando que aquilo era emoção por causa do jogo, procurava me consolar dizendo: - Fique assim não, meu filho! O Bahia vai ganhar! Se preocupe não! Santa baiana do acarajé: ela me trouxe de volta da dor para o júbilo. O Bahia estava ganhando. O Bahia ia para a final. Já estaria na Libertadores após aquele triunfo. Aos diabos com a dor. Aquele pé-de-pilão que eu exibia e que latejava não era nada. O que importava era o Bahia e o Bahia ainda precisava da minha ajuda: Bora Baêa, minha porra!

Não sei mais o que aconteceu no campo até o fim do jogo. Só lembro de ver o placar estampando 113 mil pagantes, número que tempos depois foi reduzido para 110 mil e poucos. Mas foi muito mais. Creio que todas as boas almas da Bahia estavam lá na Fonte nesse dia, de alguma forma. O jogo acabou e parecia que ninguém queira sair do estádio. Todos pretendiam eternizar aquele momento.

O meu pé continuava inchando e doendo. Comecei a chorar, mas não por causa dor, com a qual já estava de alguma forma me acostumando: é que lembrei do meu pai. Ele, que morrera havia alguns anos. Ele que me influenciou a torcer inicialmente para esse mesmo Fluminense do Rio que acabáramos de derrotar e que depois me ensinou a torcer ainda mais pelo Bahia, justo em 1966, quando o Leônico foi campeão. Ele, o Expedicionário Miguel Tolentino, ex-combatente da FEB no teatro de operações na Itália, durante a II Guerra, que participou de inúmeras batalhas e foi ferido por uma mina terrestre alemã na mesma parte do corpo que agora latejava em mim. Ele que, estando internado na Santa Casa em Nazaré das Farinhas, hemiplégico e convalescendo do terceiro derrame cerebral, pediu para ser levado de ambulância numa maca até a sua sessão eleitoral só para poder votar em Paulo Maracajá para deputado estadual e ajudar, segundo ele acreditava, o nosso Bahia. Ele não viveu para ver o que eu via. Eu não podia abraçá-lo apertada e demoradamente naquela hora e permanecer esses longos segundos sem dizer uma palavra sequer um para o outro, mas falando tudo o que palavras falham em expressar. Ele não estava ali. Ou será que aquela pontada no meu pé era mais do que um simples sintoma da lesão que eu sofrera? Coincidências, amigos... apenas coincidências.

Não me perguntem como foi que eu cheguei sem ajuda de volta ao meu carro. Não lembro. Só não pensem que saí dali para uma clínica traumatológica. Eu e meus irmãos fomos foi pra Barra. E parece que, novamente, toda a nossa Soterópolis teve a mesma idéia. Sem acerto prévio, armou-se o maior carnaval nos bares da proximidade do Farol. A trilha sonora consistia basicamente do Hino do Bahia e da música Campeão dos Campeões. E a cada repetição dessas músicas, os primeiros acordes pareciam algo totalmente inédito e a euforia tomava conta de todo o mundo. Eu estava feliz. Todos estavam. É fato conhecido que Salvador fica mais luminosa quando o Bahia ganha, ainda mais naquelas circunstâncias. No dia seguinte eu já tinha um álibi para faltar ao trabalho: meu pé, imensamente edemaciado, que num ato falho saltou no vazio para me trazer a dor e a alegria de novamente juntar meu pai e o Bahia.




segunda-feira, 4 de abril de 2011

A Ciência da Superstição (final) ou Meu Pequeno Ego (José Roberto Tolentino) // ecbahia.com

http://www.ecbahia.com/coluna/a_ciencia_da_supersticao_final_ou_meu_pequeno_ego
Uma das colunas que publicava irregularmente no site ecbahia.com

15/11/2020

Olá a todos! Estou de volta, para desagrado de alguns poucos (assim espero). A minha última aparição aqui neste espaço se deu em maio de 2010. À época eu era um sorumbático cronista de Série B. Convenhamos que isso não estava à altura da minha estatura.

Eu comecei a escrever aqui para o ecbahia.com em março de 2005 e, desde então, só tinha enfrentado a árdua missão de comentar a trajetória do glorioso tricolor, esquadrão de aço, meu Bahêa nessa porra, em competições nacionais da Série B e “Cerei” C e Série B de novo.  Enchi o saco desse negócio.

E, não menos importante, achei que eu era o culpado pelo fato de o Bahia não estar ainda na Série A. Afinal, cinco anos escrevendo, dando pitacos, criticando, apontando equívocos, dando sugestões e nada! Só havia uma explicação: era eu quem estava pesando. Era preciso aliviar essa carga para o Bahia subir.  Eu sou bastante modesto, como se pode ver, mas tinha que aceitar esse fato irrecorrível – parei de escrever. Se eu já me constituía num conselheiro consultivo que não era consultado, então deveria ser também um escritor que não era escriturado.

E qual foi o resultado? Hein? Hein? O primeiro resultado prático foi a saída do técnico morubixaba, mantido no cargo mesmo depois de perder um Campeonato Baiano praticamente ganho! Renato Gaúcho foi tomar o seu mate nos pampas e por lá se tem dado muito bem, mas por aqui iria azedar nosso caruru com certeza. Ponto pra mim. Comemorei silenciosamente. Fãs de ambos os gêneros (mais de um do que outro) lamentaram. Em vão.

A notícia da contratação do desconhecido técnico Márcio Araújo me causou uma certa rejeição inicial, pois eu achei que era aquele Márcio Bittencourt, um meio gazo, que treinou o Ipatinga este ano nos 02 minutos protocolares para um técnico naquele time. Desfeita essa minha confusão, o descontentamento continuou quando ele manteve no primeiro jogo o mesmo time e postura que eram adotados por Renato Gaúcho. Tomamos um cacete feio do Coritiba, jogando em Joinville, e nem vimos a cor da bola. Aquilo me deixou abalado no que tange à eficácia da minha estratégia de silêncio.

Mas seria o Benedito? Sim, seria. Seria o benedito etimológico – bendito!  O “Pastor” Márcio Araújo entre uma renitente piscada de olho e outra, com sua fala mansa de lullaby budista, com a sua prática revolucionária de treinar tática e tecnicamente o elenco, em vez de fazer só baba, foi dando uma face reconhecível ao time. Os resultados começaram a aparecer. Mais pontos pra mim. Comecei a coçar os dedos para escrever umas observações, mas me contive muito relutantemente.

Resumindo a história: minha estratégia se revelou cientificamente verdadeira por comprovação inequívoca de sua eficácia.  Descobri que, se no Jogo do Bicho vale o que está escrito, para erguer o Bahia vale não escrever.

Há alguns anos eu escrevi aqui uma crônica intitulada “A Ciência da Superstição – Parte 1” e nunca escrevi a parte 2, nem epílogo, nem zorra nenhuma. Pois aí está: depois de ter comprovado que minha bermuda da Mesbla, meu rádio sempre com as mesmas pilhas recarregadas no congelador e minha imobilidade na posição em que me encontrava no momento de um gol eram fatores decisivos para os triunfos do Bahia, cheguei à ultimate top infalível atitude para garantir o sucessivo sucesso do tricolor rumo à primeirona – a mudez escrita ou, atualizando, estratégia Tiririca, o deputado. Foi só não escrever nada e pronto.

Em que outra circunstância vocês acham que o Bahia iria ganhar fora de casa da Ponte, da Lusa, do Sport (sem 15 dos nossos titulares)? Não acharam estranho? Pois é: fui eu. Quer dizer, não fui eu, foi o não-eu, foi minha omissão, minha abstinência, meu celibato literário.

Em minha franciscana humildade, não estou esperando nenhum reconhecimento público do meu gesto de renúncia, de auto-anulação. Já estou me sentindo bem demais com o acesso e não acho necessário que me chamem para entrevistas, bocas-livres, placas comemorativas ou quaisquer outras homenagens. Só espero da diretoria é que me avise se vai fazer um time meia-boca em 2011, pois aí, em vez de ficar sem escrever, eu vou ter que aprender umas palavras e palavrões novos.

***

Interessante como o choro esteve presente nesse momento do acesso do Bahia à Série A. Na verdade, a trajetória do Bahia nesse longo calvário tem como marco inicial o choro convulsivo e sincero do goleiro William Andem, em 97, depois do jogo contra o Juventude, e espero que o tocante choro de Ávine no último sábado seja o marco final nessa história lacrimogênea.

Precisamos voltar a rir, a gritar, a uivar, sei lá. Negócio de chorar, rapaz... Seja homem! No primeiro gol de Adriano nesse jogo contra a Lusa eu, em vez de gritar gol, fui olhar pra cima, pro céu, pensei em meu pai... e chorei. Ele foi um pai Série A.


segunda-feira, 8 de dezembro de 2008

Paródias Diversas

Textos de algumas paródias que fiz e que ainda restaram razoavelmente intactas na memória. Sabe quando você ouve o trecho de uma música como "...ficar como eu fiquei / cada vez mais sentimental..." e a sua cabeça fica repetindo "... fumar como eu fumei / cada vez mais Continental.."? Sabe não? Pois é: comigo acontecia frequentemente. E aí, para acabar com esse abuso, eu tratava logo de fazer uma paródia completa da música para me livrar das alucinações auditivas. Coisa de maluco, mesmo!
Para acessar, clicar no arquivo em pdf.
Attachment: Paródias.pdf

sábado, 2 de agosto de 2008

Amores e Humores (poesias)

Arquivo em pdf com coletânea de poesias que fiz desde década de 1970. Contém comentários explicativos ao fim de uma boa parte dos poemas.
Já está em formato de livro, mas ainda é uma obra aberta - embora eu não venha mais escrevendo poesia ultimamente. Foi inicialmente impresso e publicado em 1993. Posteriormente foram adicionados poemas escritos após o lançamento do livro.

O poema "Olhar de Ontem" foi premiado com o primeiro lugar no 10o Concurso de Poesias do SESI, realizado em 01/08/2008. O poema "Papel de Pedra" também foi classificado entre os 15 finalistas, mas só ganhou uma menção honrosa que Mabel Veloso (da comissão julgadora) me fez em particular, dizendo que em sua opinião os meus dois poemas deveriam ter sido premiados entre os 3 primeiros. Ambos foram publicados em 2009 pelo SESI no livro Antologia Poética do Trabalhador da Indústria, que reuniu os poemas vencedores dos últimos anos e os finalistas de 2008. Não gostei muito das ilustrações feitas para os meus poemas nesse livro. - achei pouco criativas; feias mesmo. Mas, enfim, agora é tarde! Tenho que me conformar.
Attachment: Amores e Humores.pdf