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sábado, 2 de agosto de 2008

Amores e Humores (poesias)

Arquivo em pdf com coletânea de poesias que fiz desde década de 1970. Contém comentários explicativos ao fim de uma boa parte dos poemas.
Já está em formato de livro, mas ainda é uma obra aberta - embora eu não venha mais escrevendo poesia ultimamente. Foi inicialmente impresso e publicado em 1993. Posteriormente foram adicionados poemas escritos após o lançamento do livro.

O poema "Olhar de Ontem" foi premiado com o primeiro lugar no 10o Concurso de Poesias do SESI, realizado em 01/08/2008. O poema "Papel de Pedra" também foi classificado entre os 15 finalistas, mas só ganhou uma menção honrosa que Mabel Veloso (da comissão julgadora) me fez em particular, dizendo que em sua opinião os meus dois poemas deveriam ter sido premiados entre os 3 primeiros. Ambos foram publicados em 2009 pelo SESI no livro Antologia Poética do Trabalhador da Indústria, que reuniu os poemas vencedores dos últimos anos e os finalistas de 2008. Não gostei muito das ilustrações feitas para os meus poemas nesse livro. - achei pouco criativas; feias mesmo. Mas, enfim, agora é tarde! Tenho que me conformar.
Attachment: Amores e Humores.pdf

domingo, 7 de outubro de 2007

Aging

AGING

 

When the shadow of age comes

only helplessness remains.

We sing our songs for no one.

We give our cries in vain.

 

For the best of our days are gone

and the rest of our hopes are dead.

Now the space is still to come

and the time stands not ahead.

 

Friends no more than names in stones.

Tears of widows upon their graves.

Wives living their lives alone

Left in freedom as life slaves.

 

While I'm passing my days at home,

writing letters I never send,

I say to myself, “now it's done!”

It's too late to be the end!

 

 

                                                          20/10/95

 

 

COMENTÁRIOS: foi por mero acaso que escrevi poema em inglês. Tinha acabado de receber uns folhetos de um representante de laboratório farmacêutico, no qual havia uma  sentença de Sêneca: “Oh, helplessness of age!”. Senti o desamparo da idade provecta imediatamente. A seqüência continuou vindo em inglês, aí deixei assim, mesmo com possíveis incorreções. (José Roberto Tolentino)

Novamente

NOVAMENTE

 

 

 

Tudo já foi dito

mas eu vou dizer de novo.

 

Que mortes passem obliquamente

dilacerando o texto

expondo o nervo

deixando o verso inacabado.

 

Mortes de renascer mil vezes

até que se conclua o tempo;

até que se satisfaça o fado.

 

O texto nada mais é

do que o início repetido;

do que o fim antecipado.

 

O nervo dilacera o texto

que expõe o verso

que satisfaz o tempo

e que conclui o fado.

 

A morte, como já foi dito,

        passa obliquamente...

                                                         23/02/95

 

 

 

 

COMENTÁRIOS: é mais um poema em que há uma duplicidade ou multiplicidade de sentidos em cada palavra, verso ou expressão. Quando isso acontece, não consigo explicar de forma linear. Alguns tópicos são: construção e desconstrução do poema; a presença constante do tema “morte”; o destino do poeta; e por aí vai. (José Roberto Tolentino)

Psicanálise

PSICANÁLISE

 

 

Quando o firmamento se posiciona

e instala a noite que, imóvel, assiste

os dramas do mundo de sua poltrona

fazendo de conta, fazendo ar de triste;

 

Quando a dita noite instalada e fingida

repete seu canto de torpe sadismo

eu viro de costas, eu cubro a ferida

eu faço de conta que não é comigo.

 

Há tempos livrei-me das minhas agruras

mandando pro espaço meu ar paranóide;

pra dar nome aos astros com minhas torturas

lancei mão dos gregos (que sabem de Freud).

 

Lá no alto céu coloquei minhas dores.

Transportei, às estrelas, minhas feridas:

elas que pulsem, que sofram horrores;

elas que fiquem com as dores da vida.                                          

 

 

                                                                   02/04/96        

 

COMENTÁRIOS: dizem que a poesia só trata dos mesmos assuntos: amor, morte, vida e noite. Pois é. (José Roberto Tolentino)

Posição de Sentido

POSIÇÃO DE SENTIDO    

 

 

 

Já li e escrevi muito... e nada.

Queria fazer um poema

                 que desse sentido à vida.

Queria fazer um poema

                para dar sentido à vida.

 

Eu, que já toquei o topo da montanha

contemplo, como um Cristo, a planície vazia

onde serpenteia a música mais estranha

que, de tanto harmonizar, não melodia.

 

Onde está a razão de Deus nessa harmonia?

Onde está Deus em eu-acima-da-planície?

 

Eu hei sentido que não tenho sentido

e tudo é menos que um jogo de palavras.

Atire o primeiro xis quem há sabido

onde se acende o som e a luz se apaga.

 

Deus vive a montar estratagemas de morte;

a vida deixa-a como ardil para inocentes.

Quis me equilibrar, fazendo de Deus suporte:

tomei-lhe as mãos e vi-me solto de repente!

 

Sigo sem Deus, sem deuses e comigo

como uma esfinge, vivendo por viver

sem  ter poema e sem ver nenhum sentido

em viver, em morrer, em não morrer.

 

                                                                         09/08/96

 

 

COMENTÁRIOS: poeminha depressivo, esse! A falta de humor bem reflete o meu humor daquele momento. Ainda bem que foi só uma fase transitória, embora algo sempre persista. José Roberto Tolentino

Um após o outro

UM APÓS O OUTRO

 

 

 

Os dias são tristes, mas não é por culpa deles

coitados, que só cumprem o que trama o destino.

 

Os dias acompanham, atenta e impotentemente

a trajetória do piloto em direção ao muro

sem conseguir parar o tempo.

 

Os dias sopram brisas para secar lágrimas

e fazer cantar as folhagens que ouvem lamentos e suspiros

dos que perderam entes ou  se perderam de amores;

 

Os dias se rebelam muitas vezes

e enchem de muito sol e poucas nuvens

horas  em que aviões despencam sobre casas;

 

Os dias chovem quando eu vou à praia

porque não foram avisados

com a devida antecedência.

 

Os dias tendem a ser menores nas férias

por motivos que ainda não entendi direito.

Mas os dias são sempre clones de si mesmos.

 

Os dias não estão nada satisfeitos

com o que se faz deles.

Os dias querem ser melhores.

Os dias querem melhores dias.

 

 

                                                           José Roberto Tolentino 05/03/97