quinta-feira, 28 de agosto de 2014

Política das Ruas

POLÍTICA DAS RUAS

Tenho feito o possível para me abster do horário político na TV e no rádio. Tenho até conseguido ficar imune aos programas televisivos, mas no rádio há umas inserções imprevisíveis, que felizmente são rápidas e passíveis de alheamento (menos quando o partido não se dá ao trabalho de gravar qualquer mensagem para ocupar o horário gratuito e aí fica uma mensagem padrão chata repetindo “horário reservado ao partido tal, inserção tal, bloco tal, duração x segundos...”).

Entretanto meus esforços de me transformar num desinformado político se mostram totalmente inúteis quando se trata de caminhar prosaicamente na rua. A profusão de cartazes, tripés, cavaletes, tem-se mostrado muito eficaz na tarefa de atrair a atenção de quem, como eu, é ingênuo o bastante para achar que pode se alienar desse rico momento cívico que ora atravessamos.

O verbo “atravessar”, aliás, quando usado para se referir à circulação em passeios e canteiros, vem tendo sua conjugação continuamente dificultada pela presença física dos citados artefatos propagandísticos.

Porém devo confessar que o meu cachorro adora os cavaletes. E numa impressionante demonstração de independência, apartidarismo e tratamento equânime às diversas correntes, coligações e propostas, tem dado especial predileção a esses cartazes na hora de demarcar o território com sua urina, esquecendo-se completamente das árvores e postes. Para ser fiel à verdade, percebo que ele faz um esforço adicional para acertar o jato urinário na boca com sorriso plastificado de alguns candidatos. Infelizmente o esforço resulta debalde por conta da sua reduzida estatura. Mas ele não dá mostras de esmorecimento. Repete o ato seguidamente até a quase expulsão da bexiga. Acho que essa é a sua forma de participação política; além de uma provável crítica, não muito velada, ao meu comportamento esquivo frente a essa festa democrática.

Mesmo já estando anestesiado para as alianças políticas esdrúxulas e impensáveis há poucos anos e para os previsíveis slogans de campanha, de vez em quando me deparo com algumas imagens e/ou frases nesses cartazes que ficam pulsando circularmente em meu cérebro, como aquele refrão de música grudenta, deixando-o ainda mais confuso que o habitual.

Pois então acompanhem meu aturdimento e me ajudem a decifrar o enigma que me foi proposto hoje num cavalete: os candidatos Márcio Marinho e Pastor José de Arimatéia compartilham o slogan “O povo em primeiro lugar”!!! 

Fiquei bege, como dizem alguns personagens televisivos. O que eles querem dizer com isso? Que amplitude é essa? De que povo estão falando? Os autóctones, os estrangeiros, os apátridas? Tá todo o mundo incluído? O homem do povo, o povão, o zé povinho? Mesmo os que não votam neles, os que não acreditam no mesmo que eles, os que têm mais ou menos dinheiro que eles, os que roubam ou matam ou abortam mais que eles, os que bebem mais que eles, se drogam mais que eles, trepam mais que eles? O povo de Deus e o povo do Capeta?  O que vem em segundo lugar: a Natureza, os animais, os vegetais, os minerais, os corpos celestes, os bens imateriais, os 4 elementos, o inconsciente coletivo, os telefones celulares, o petróleo do pré-sal?

A política da rua me deixou em crise. Vou me trancar em casa doravante.

terça-feira, 12 de agosto de 2014

Pifou a TV



Pifou a TV


Pifou a televisão! Como assim, pifou? Pifou-se, apagou-se, não acende a tela, fica esse ponto luminoso no meio do tubo de imagem e esse chiado de descarga elétrica em alguma válvula aí atrás. Imagem e som que é bom, necas!  Agora lenhou! Tem que levar pro conserto... Logo hoje que Beto Rockfeller tá tão boa... Vamos perder o capítulo. E Batman? E o Repórter Esso? Ah, liga o rádio aí e vê o que tá passando. Tá quase na Hora do Brasil, quer dizer, a Voz do Brasil. Hoje não dá mais pra consertar. Dá umas porradas aí do lado que às vezes é mau contato. Adiantou não! Aumenta a voltagem no estabilizador. Nadica. Mexe no botão do horizontal, vertical e altura. Isso não tem nada a ver. E a sintonia fina já rodou pra ver? Também não vem ao caso, mas já rodei pra lá e pra cá sem resultado. É... o jeito é levar pra Rubens. Mas ele é careiro, dizem! Então leva pra Edilson Bandeira. E quem vai carregar essa bicha pesadona até a oficina? Leva de bicicleta. De bicicleta, como? Amarra aí no quadro e vai empurrando. Emaluqueceu? Dá não. E ainda tem essa ladeira toda pra descer. Tem é que chamar alguém que conserte aqui em casa. Então vai de bicicleta lá na casa de Seu Renato. Amanhã eu vou. Amanhã ele pode arrumar outro serviço e pode demorar de vir. Mas já tá escuro. O caminho não mudou: é o mesmo de olho aberto ou fechado. Tá bom, vou lá, mas guarde meu pedaço de pão torrado, se não os outro come. Já voltei. Seu Renato vem vindo aí. Chega Seu Renato e seus temíveis aparelhos de testes eletrônicos. Ponteiro movendo pra lá, pra cá, semblante indecifrável de Seu Renato. Até que sai o diagnóstico: foi o fleibéque! Ranger de dentes, rasgar de vestes, bater de cabeças no Muro das Lamentações... NÃÃÃOOO! O fleibéque não! Quanto vai custar, Seu Renato? Hum, esse modelo Standard Electric é antigo... não sei se vai achar fácil... mas é caro! Ai, ai, ai... Agora vamos ter que empenhar até a virgindade e a pureza das meninas que ainda não têm idade para andar de bicicleta. Tá bom, Seu Renato, pode encomendar a peça. Olha aí: o jeito por enquanto é ficar ouvindo a reprise da Cabana do Pai Tomás ou Jerônimo o Heroi do Sertão no rádio. Ajeita logo essa antena pra pegar a Rádio Tupy do Rio sem muito chiado. Bora, avia logo, deixa de moleza!

sexta-feira, 9 de maio de 2014

Brecha para o passado




Brecha para o passado

Brecha impressionava pelo físico. Alto e vigoroso, parrudo mesmo, dava a impressão de que todos os músculos de seu corpo eram hipertrofiados. Tudo bem que ele impressionava, mas não atemorizava. Era só chegar perto e trocar umas duas palavrinhas com o negão que se via logo estar-se diante de um gentleman, afável e amistoso, um cara “super-gente-boa”, como costumamos dizer por aqui.

 Início dos anos 1970 em Nazaré (das farinhas) e Brecha era o censor do nosso colégio. Cumpria à risca sua tarefa de não nos deixar pelos corredores depois que tocava a sirene e as aulas recomeçavam. Também ficava na porta principal do colégio, na volta do intervalo mais longo, para cobrar que nos apresentássemos com o uniforme completo, principalmente com o escudo da instituição (peça que costumávamos furtar dos colegas para depois vender, pela metade do preço cobrado pela secretaria, a eles mesmos quando eram barrados sorridentemente por Brecha).

Numa das festividades cívicas do calendário oficial da cidade estava programada uma corrida rústica. Não houve a menor dúvida na hora de escolher quem seria o representante do nosso colégio: ele, claro, Brecha. Era barbada. Até uma covardia com os outros competidores.

Quando Brecha se alinhou para a largada em frente da Escola Profissional na Rua dos Coqueiros, deu pra ver aquela massa de muques nos braços e pernas recobertos de linimento, brilhando à luz do sol de três da tarde, enquanto ele se aquecia ainda mais com umas flexões, uns cangurus e uns polichinelos.

O percurso compreendia 10 voltas em torno daquele trecho da cidade, atravessando a Ponte da Conceição, seguindo pela Avenida D. Pedro II até a Praça da Prefeitura, descendo a ladeira dos Arcos, passando pela Ponte do Jacaré e voltando pela rua da feira até os Coqueiros novamente, defronte do beco da Escola Profissional. Não estou muito certo quanto à distância percorrida nesse trajeto (na infância tudo nos parece maior, mais longo e duradouro), mas creio que a extensão devesse ser pouco mais de 1 km.

A galera do colégio estava toda lá, com o uniforme de educação física contendo o emblema da escola, na maior torcida e incentivo: Bre-cha! Bre-cha! Bre-cha!

Quando foi dado o sinal de largada (que era na base do “um, dois, três e já”), faltam-me palavras para descrever suficientemente a velocidade alucinante, desabalada, desembestada, quase WARP, desenvolvida pelo nosso herói do Olimpo. Que Usain Bolt, que nada! O cara foi sumindo em direção à ponte da Conceição e tudo que eu conseguia ver eram as solas da chuteira preta, que ele estava usando com meião de futebol e tudo, sendo projetadas seguidamente para trás e para a frente. Os outros competidores usavam um conga ou um galupim ou um bamba e ele não: botou logo a chuteira de birro que usava no campeonato de futebol amador da cidade. Não sei o que passou em sua cabeça quando fez essa escolha.

Poucos segundos após a largada, enquanto os outros competidores ainda estavam na altura da casa de Dr. Raymundo Crusoé (uns 50 metros ou pouco mais), Brecha já se encontrava na subida da cabeceira da Ponte da Conceição e acelerando. O que víamos era apenas o ponto preto da cabeça dele se deslocando feito uma bala ponte afora.

Nós, na torcida, eufóricos: “Vai, Brecha! Vai, Brecha!”
Os outros 10 ou 15 competidores cá atrás, bem devagar (se tomarmos como padrão a velocidade de Brecha, the Flash), e tome-lhe vaia e depreciações nos caras molóides retardatários: “Vai, Bunda de Ameixa!” “Corre, Paralisia Infantil!” (lembrem-se de que não tinha esse negócio de politicamente correto naqueles tempos. Bullying era a regra).

Quando Brecha passou pelos trilhos da Estrada de Ferro já devia ter vantagem de uns 200 metros. Naquele ritmo, a questão era saber quantas voltas de vantagem ele ia colocar sobre os demais até ganhar a corrida.

Do nosso ponto de observação ficamos esperando Brecha aparecer na outra ponte. Olhos fixos na cabeceira da ponte, no Náutico Bar, esperando, esperando, esperando mais do que Pedro Pedreiro e nada. Cadê Brecha? Cadê Brecha? Nadica de nada nem de ninguém. Até que depois de um bom tempo começaram a surgir os corredores, uns meninos mirrados, um após outro correndo no estilo “piano, piano si va lontano” e Brecha, que é bom, necas de pitibiriba!

Mas que desgrama terá acontecido? Será que ele errou o caminho e foi em direção ao Camamu e ao Apaga-Fogo em vez de fazer a volta pela ponte? Não era possível que o negão não completasse nem uma voltinha sequer da corrida que até eu completava fácil, fácil. Alguns de nós saímos em missão de busca e resgate de Brecha. Pergunta daqui, olha dali, até que alguém disse que ele estava estirado lá na estátua de Dr. Alexandre Bittencourt, em frente da Prefeitura, passando mal, talvez vomitando, babando e espumando – estaria praticamente morto, pelo menos de cansaço. Quando chegamos ao local indicado não mais o encontramos. Demos uma passada pela Funtinha (o brega local) para ver se alguma alma caridosa o tinha levado para se esconder e se recuperar por lá. Nada. Nós também estávamos quase mortos, mas era de vergonha. A gente ali envergando o uniforme do colégio e o nosso representante nos proporcionando essa vergonheira no caminho da feira.

Depois desse fracasso, que no linguajar local é traduzido com a expressão “a participação de Brecha na corrida foi uma negação”, chegou a segunda-feira e ele apareceu no colégio com aquele jeito bem-humorado e disse que teve só uma dorzinha de facão e uma fisgada na perna e que se não fosse isso ia ganhar com 5 voltas de diferença. E ainda rindo disse: “paroano vou correr de novo; e vou evitar comida pesada no dia”.

terça-feira, 17 de dezembro de 2013

Plantão da Língua Portuguesa informa:

Vez em quando me deparo com mensagens no correio eletrônico (e-mails, para sucumbir ao barbarismo) contendo expressões com erros diversos que me deixam com uma insuportável coceira nos dedos. Aí não resisto e respondo assim: “Plantão da Língua Portuguesa informa: ...”, aproveitando para defender a língua pátria e sapecando a correção daquilo que eu julgo estar equivocado do ponto de vista ortográfico, gramatical, mesmo sem ter muita autoridade para tal.

Tem umas palavras que são meio espinhosas para a maior parte das pessoas. Na hora que surge a dúvida sobre a grafia correta delas, escolhe-se sempre a forma incorreta. Alguns exemplos são:
- depedrar (incorreta), em vez de depredar (correta) – o pessoal acha que essa ação de espoliar algo tem a ver com jogar pedras e aí não dá outra: tome-lhe “depedrar” (se pensassem em predador, não errariam);
- degladiar (incorreta), em vez de digladiar (correta) – para escrever e falar certo é só ter em mente um duelo de espadas (di = dois; gládio = espada);
- estrupar (incorreta), em vez de estuprar (correta - não do ponto de vista da atitude, mas ortográfico!) – essa eu nem sei o que causa o erro, talvez um desejo inconsciente de estuprar a língua. Se pensarem que é uma atitude estúpida, têm grandes chances de acertar a grafia;
- frustar (incorreta), em vez de frustrar (correta) – provavelmente devem imaginar que seja impossível uma mesma palavra ter dois erres depois de duas consoantes (f e t) ou queiram frustrar os esforços do seu professor de Português (quando se tem a sorte de tê-lo, coitado!).

Isso para não falar em “célebro” (cérebro), “pobrema” (problema),  “padastro” (padrasto), “protistuta” (prostituta), “previlégio” (privilégio), “se esmerilhar” (se esmerar), “débora mental” (débil mental), “aos troncos e barroncos” (aos trancos e barrancos) e por aí vai.

As pessoas também não sabem que existe um substantivo masculino chamado crescendo, que vem do italiano, o qual é muito utilizado em notação musical para designar aumento progressivo de sonoridade e no nosso cotidiano deve ser usado quando se quer referir a progresso, gradação (ex.: o partido vem num crescendo considerável entre os jovens). Aí os nossos Homo pseudosapiens acham que, com a terminação “endo”, essa palavra está destinada a ser exclusivamente o gerúndio do verbo crescer e imediatamente a substituem pelo substantivo/adjetivo “crescente”, que poderia ser como aquele fértil da Mesopotâmia, mas esse seres criativos operam uma mudança de sexo na palavra e a tornam feminina (ex.: o partido vem “numa crescente”...). Minha indignação vai num crescendo que só tem um diminuendo quando o quarto crescente da Lua começa a trazer alguma luz às trevas tão democraticamente distribuídas.

Falando em mudança de sexo, no campo das denominações das doenças houve uma verdadeira epidemia de transexualidade: o dengue virou a dengue; a cólera virou o cólera; mas o mais marcante evento de transformação radical de identidade de gênero se deu com o diabetes: a revista Istoé publicou uma matéria de capa em que chama a doença de "a diabete"!! Pronto. Virou a chacrete do diabo! Era o que nos faltava.

Também não se deve dizer “há alguns anos atrás”, porque, além da possível interpretação de exuberância anatômica dessa expressão quando sonorizada, a palavra “atrás” fica redundante, pois “há alguns anos” quer dizer “faz alguns anos” e não se diz “faz alguns anos atrás”. Então não se deve colocar “atrás” depois dos “anos”, quer dizer, deve-se evitar colocar “atrás” – se é que me faço entender. Mas se alguém quiser insistir em botar “atrás” colado nos “anos”, deve-se tirar o verbo e dizer apenas “alguns anos atrás”... Acho que ficou confuso demais esse negócio: na dúvida, o melhor mesmo é dizer “há algum tempo” ou “faz tempo” ou “tempos atrás” e pronto! Esquece essa coisa de “anos atrás”, que só dá complicação.

Outro dia eu ouvi um apresentador de TV local dar uma cacetada na mesa e dizer que a situação era “lastimoniosa”! Imagino que esse neologismo seja a síntese perfeita da mistura de lastimável com horrorosa. Acho até que deveríamos incorporar essa palavra ao nosso vocabulário cotidiano, pois às vezes as palavras disponíveis falham em traduzir a nossa perplexidade. Esse mesmo “criativo” apresentador disse que a população estava em “pavorosa”! Certamente quis dizer polvorosa (agitação) – a palavra vem de pó, que em castelhano é polvo – mas ele acabou “enriquecendo” o nosso idioma com mais uma pérola que, essa sim, poderia ser denominada de pavorosa.
Quando estiver de volta o horário eleitoral, é bem provável que tornemos a ouvir expressões como: povo do “recôncuvo”; gente de “Cachaceiras” (Cajazeiras); “candidato com forte penetração no baixo clero”; “o Dr. Fulano foi o único médico que só saiu de cima de minha mulher quando ela ficou boa”; e “as pedra desse carçamento fui eu quem pô-las, colocô-las e aterrô-las!” Não estranhem se a transmissão for interrompida por uma interferência dizendo: “Plantão da Língua Portuguesa informa:...” – minha paciência tem limites.

Para ficar com ela (em 15 lições)



Para ficar com ela (em 15 lições)


1 - Se você quiser ficar com ela, aprenda a não gritar quando discutir – ela não gosta muito desse comportamento; ninguém gosta, eu sei, mas quando ela não gosta, acredite, a reversão das leis da física se torna totalmente iminente, quase imperativa, e você poderá ouvir as trombetas do Armagedom soando e presenciar o mundo desmoronar na sua frente em todas as direções.

 

2 - Se você já leu o Apocalipse ou as Centúrias de Nostradamus e não deseja estar vivo para testemunhar nenhuma das cenas catastróficas e aterrorizadoras lá descritas, verá que é totalmente aconselhável, a qualquer custo, evitar fazer algo que a leve a dizer “me aguarde” ou “vamos pra frente”.

 

3 - Se você tem algum conhecimento gramatical e acha que o pronome pessoal “ela” se aplica a todas as coisas e pessoas do gênero feminino, pode ir reformulando o seu conhecimento: em pouco tempo você vai descobrir que “ela” designa e se refere unicamente a ELA. Não por imposição consciente dela, mas pela dimensão que ela tem. Ela fica ali do seu lado em silêncio ou num papo interessantíssimo e tudo conflui para a conclusão de que só existe ela. Os filhos descobrem isso desde cedo e usam o pronome apropriadamente.

 

4 - Se você a ouvir dizer que quer ter seis filhos, creia-me, é sério. Ela nasceu para ser mãe. Você terá que contar com o imponderável para que essa explosão demográfica, da qual você será partícipe e co-provedor, não se concretize. E tem mais: ela falará em gêmeos e outras coisas assustadoras, mas serão todos do sexo masculino nos sonhos e desejos dela. Ela é feminista, mas, como é mais inteligente do que feminista, não quer nenhuma outra mulher por perto competindo com ela. E, ai de você, se olhar para um outro rabo-de-saia! E, ai do rabo-de-saia, se lhe disser algum “oi” mais entusiasmado!

 

5 - Se você deseja manter algum controle sobre seu destino, sentimentos e sanidade mental é imprescindível, absolutamente imprescindível, que jamais aproxime sua mão da pele das coxas dela. Mas, caso esse contato venha a acontecer, aproveite – nenhuma outra sensação táctil que você venha a experimentar será mais prazeirosa.

 

6 - Se você quiser escapar da atração gravitacional equivalente a de um buraco negro poderoso, nunca se permita dar ouvidos aos suspiros e sussurros dela, jamais olhe o lindo rosto que ela ostenta nem toque os lábios dela com os seus. Essa experiência será a sua ruína. Você vai ser tragado inapelavelmente. Não vai ter retorno. Você será reduzido a uma massa cativa disforme e terá o seu coração comprimido a níveis inimagináveis. Mas, incompreensivelmente, você verá que isso é muito bom.

 

7 - Se você quiser lhe dar um presente romântico e significativo da sua afeição, jamais lhe dê rosas ou flores ou vegetais de qualquer espécie, sejam naturais, artificiais ou pictoricamente representados (evitar especialmente o bonsai, porque para ela esse vegetal miniaturizado é algo maligno e demoníaco - não peça explicações lógicas. Conforme-se).  Pra ver os olhos dela cintilarem, lance mão de adornos feitos daquele metal dourado precioso, preferencialmente cravejados de átomos de carbono dispostos num arranjo atômico e molecular especial que os fazem muito duros, transparentes e brilhantes.  Nenhuma flor do Jardim do Éden, nem todos os Jardins de Édens que possam ser concebidos suplantarão o efeito de deslumbramento e satisfação que qualquer jóia fará brotar nos olhos alegremente infantis em se transformam os olhos dela ao abrir a caixinha da joalheria.

8 - Se você quiser se abster de magoá-la ou de arranjar problemas desnecessários para si, evite comprar roupas para ela com o passar dos anos. Suas chances de acertar o tamanho serão sempre infinitesimais – em se tratando de roupas femininas, é impressionante a variedade de grandezas que existem entre o P, o M e o G; e quando a numeração é do tipo 38, 40, 42, 44, etc, as suas chances não melhoram em absolutamente nada. Se comprar roupa de um número menor que o dela, ela se achará gorda e lhe dirá que você não sabe mais o tamanho atual dela e que ficou fixado num manequim de quando ela era pós-adolescente. Se comprar de um tamanho maior (horror dos horrores) ela não só se achará gorda, mas ainda concluirá (com razão) que você a vê mais gorda ainda. Se você, por um acaso remotíssimo, acertar em cheio o tamanho, ela ainda se achará gorda e lhe dirá que você sabe exatamente o quão gorda ela está. You never win! Esqueça roupas, portanto. Pode até arriscar um sapato ou uma bolsa, mas apenas se usar algum estratagema para saber antecipadamente se ela aprova ou deseja aquele modelo. Aliás, melhor esquecer o sapato também, porque o pé dela é lindamente arqueado e não é qualquer sapato que lhe fica confortável. Melhor deixar que ela mesma se encarregue desse item de suprimento quase mensal. Ah, e se não der para fingir uma súbita falta de ar ou um desmaio na eventualidade de ela lhe fazer a inescapável pergunta sobre se você acha que ela está gorda, responda que você tem a impressão que ela emagreceu. E pronto. Se disser que não a acha gorda, ela dirá que você está mentindo para agradá-la; se disser (ai, meu Deus) que ela está cheinha, pode se preparar para reações citadas nos itens 1 e 2 acima.

 

9 - Se você ficar com ela, vai ver que ela vai lhe preparar as mais deliciosas comidinhas que você já provou ou provará. E rápido. Ela cozinha bem e come bem. Aliás, comer para ela não é verbo de sobrevivência - está mais para sentido da vida. Elogie sempre os pratos que ela fizer tão ágil quanto dedicadamente. Dificilmente você aliará tanta satisfação e honestidade simultâneos em outros eventos da sua existência. Beije-a no dorso enquanto ela cozinha, porque não atrapalha em nada, eu acho.

 

10 - Se você quiser ter um mínimo de afinidade artística com ela é recomendável que goste de música.  Da boa música, não desses batuques requebrativos ou funks e raps. Ela saberá todas as letras e músicas do tempo dos afonsinhos. Ela saberá solfejar as mais famosas sinfonias e sonatas e valsas e concertos e tocará algo delas no piano, para seu deleite. É indicado também que você ache a Bossa Nova pretensiosa, ingênua e alienada nas letras e muitas vezes irritante. O mesmo vale para o Jazz. Ela concordará. Aliás, as críticas musicais dela são arrasadoras. Ela lhe acompanhará ouvindo, cantando ou tocando rock e será tomada pela batida, sacudindo mais a cabeça e a parte superior do corpo ao acompanhar o ritmo desse tipo de música. E ela também fará coro com você se você começar a cantar qualquer música dos Beatles; e esse coro se dará, no mais das vezes, com ela fazendo a segunda voz e é bom que você saiba se manter cantando a melodia na primeira voz, para que a harmonia saia perfeita. Ela canta muito. Muito bem. Nunca desafina. Ela tem ouvido quase absoluto. Ela é música em estado quântico.

 

11 - Se quiser conviver apropriadamente com ela, acostume-se com os medos que ela preserva. Não zombe deles. Ela tem medo de água, qualquer água, portanto até cruzar pontes é fonte de angústia para ela. Evite travessias pelo Ferry Boat. Cruzeiro marítimo, nem pensar. Uma gôndola pode ser uma exceção. Proteja-a com um abraço envolvente na eventualidade de soar um ameaçador e mortal trovão, ou seja, qualquer trovoadazinha. Poste-se, interponha-se heroicamente e de imediato no caminho que qualquer coisa viva ou inanimada que entre voando em sua casa. A calamidade das calamidades para ela é a barata voadora (e também a rastejante). Sua atitude máscula, destemida e exterminadora de insetos desorientados e inoportunos a acalmará um pouco nesses momentos, mas nunca abolirá o medo dela. Não se ofenda nem se sinta diminuído com isso. Use a crise como oportunidade de demonstrar uma das suas poucas reais utilidades na vida dela.

 

12 - Se você não quiser ter confrontos religiosos com ela, é bom saber que ela é católica. É um tipo diferente de católica, para quem a Santíssima Trindade é composta, mais ou menos em ordem variável de importância, por São Francisco de Assis, pelo Papa e por Jesus. Um segundo escalão de devoção é formado por Santo Antonio e pelas Nossas Senhoras de todas as denominações. Deus, para ela, é algo meio distante e inacessível - mais uma ideia assustadora e remota do que necessariamente um ser supremo acolhedor. Ela está bastante confortável com essa concepção teológica tão particular - os deuses dela são ou foram pessoas de carne e osso. Por isso, nunca tente questionar, desmerecer, desafiar ou menosprezar a Santíssima Trindade dela, as divindades e santidades de todos os escalões ou a instituição que as abriga. Evite, na medida do impossível, tentar entender o que difere isso do politeísmo – nem mencione essa possibilidade interpretativa. Se isso, inadvertidamente, acontecer, você terá seu intelecto e reputação como Homo sapiens arrasados. Sem falar nas consequências imediatas e remotas no seu cotidiano. Lembre-se sempre do “me aguarde”.

 

13 - Se você é muito exigente com controle orçamentário, planejamento e racionalização de despesas, gastos no cartão de crédito, uso do limite de crédito no banco, você está no caminho certo – vai ter que fazer isso por sua própria conta e com a sua própria parte dos recursos comuns ao casal. Ela não é Maria da Conceição Tavares nem conselheira econômica do Fantástico. Ela deverá ter a liberdade de fazer tudo aquilo que você julga economicamente temerário. Para ela o céu é o limite e você terá que lhe oferecer o céu. Sem estresse, então.

 

14 - Se você quiser viajar para conhecer o mundo com ela, pode ir arrumando a bagagem. Ela topa ir para qualquer lugar com você, desde que seja para a Itália. Nesse “qualquer lugar” também não estão incluídos ou estão liminarmente excluídos os paraísos tropicais, redutos naturais e trilhas ecológicas, claro (ela odeia mato, bicho, mar, sol - “a bola de fogo”, Natureza, essas coisas hostis; ela gosta é de concreto e de ruínas romanas, gregas e etruscas). Paris, Londres, Madri, Berlim serão perfeitamente suportados por ela, desde que o itinerário inclua a Itália em algum momento. Não se assuste se a avaliação dos países e cidades não italianos for mais negativa do que mereceriam ou se o humor dela não se mostrar tão bom durante a estadia nesses locais. Quando a imagem da paisagem italiana surgir e a primeira palavra nesse idioma for pronunciada por um cameriere num restaurante qualquer, você verá brilhar o sol da Toscana na sorridente face dela, seja dia, seja noite. Qualquer comida italiana elevará o humor dela, seja no cardápio, no prato, no garfo ou na memória. Beba com ela o vinho da casa ou um Chianti e desfrute dos melhores momentos que os seus cigarros podem proporcionar. E não se esqueça nunca dos minutos de êxtase que transparecem do rosto dela ao degustar o tiramisu do Il Bargello, em Florença. Repetir essa experiência é uma necessidade à qual você desejará se submeter repetidas vezes ao longo dos anos em que estiver ao lado dela. Mas lembre-se que o Il Bargello costuma ficar fechado no mês de Fevereiro, logo... Visitas a Roma e Veneza a qualquer tempo podem suprir razoavelmente a falta desse tiramisu. Mas prepare-se para percorrer detalhadamente todas as igrejas e templos construídos nesses locais desde que os etruscos começaram a empilhar pedregulhos. Dê-se por satisfeito de ser liberado da penitência de subir a Scalinata Santa de joelhos e, ao vê-la genuflexa e contrita vencendo os degraus um a um, resista ao desejo herético de tomá-la nos braços e conduzi-la escada acima. Mas fique de joelhos pelo menos no Vaticano e agradeça por ela estar ali ao seu lado.

 

15 - Se você quiser ter uma companheira fiel, maternal, amorosa, culta, politizada, entendedora de futebol entre muitos outros esportes, inteligentíssima, sensual, lindíssima e ficar casado com ela por trinta anos e mais trinta e mais trinta, não seja burro: ame-a sempre, deixe ela e não a deixe jamais!



Eu tenho feito isso, mas ainda não sei se é o bastante.




Salvador, 27 de setembro de 2010.

quarta-feira, 19 de setembro de 2012

Os dois locais mais românticos do mundo




Os dois lugares mais românticos do mundo têm rios de sangue.
Os dois lugares mais românticos do mundo têm eletricidade gerada pela luz e por ideias. 
Os dois lugares mais românticos do mundo têm nervos que dão nos nervos.  Os dois lugares mais românticos do mundo são meu cérebro e minha retina – esta quando te vê; aquele quando te imagina.

sábado, 21 de abril de 2012

Miguel Tolentino - uma biografia em minha memória


Miguel Tolentino de Souza nasceu no dia 08 de maio de 1921. Terceiro filho de Públio Tolentino de Souza e de Durvalina Meirelles de Souza (Durvalina Leite Meirelles quando solteira), conhecida como Dona Dudu, veio se juntar aos irmãos Helenita e Renato. A família residia em sua chácara de 5000 m2 em Nazaré, localizada ao sopé do morro na antiga Rua dos Artistas, no bairro da Conceição, cujo terreno houvera sido desmembrado da fazenda de Leôncio Tolentino de Souza, avô de Miguel e pai de Públio, e as terras dessa propriedade, com sede e engenho na Jacatiba, se estendiam do Alto do Barão até o Quiçaçá, nos limites de Nazaré com Aratuípe.
A infância de Miguel Tolentino foi inicialmente marcada pelo falecimento precoce de seu pai Públio Tolentino, conceituado mestre da oficina de Estrada de Ferro. O sustentáculo da casa ficou por conta da forte presença de Dona Dudu e do auxílio do sogro Leôncio Tolentino. Conta-se que, até mesmo, o famigerado e temido Barão Açu da Torre, que tinha sua propriedade na vizinhança, dedicava especial respeito e consideração à viúva e sua família, destinando-lhes relativa proteção.
Criado nesse ambiente meio urbano, meio rural, e com as inegociáveis restrições maternas para se aventurar pela cidade que se estendia abaixo da elevação em que a chácara se situava, Miguel se mostrou desde cedo muito inclinado às incursões pelo mato nos arredores da chácara, tornando-se um explorador, caçador e coletor muito hábil. Além das pacas, tatus e preás que caçava, também consumia avidamente as frutas de ocasião que encontrava em suas andanças pelos quintais alheios – cajus, jacas, cajás, ingás, etc.
Para ilustrar a rigidez com que a sua mãe o educava, contava ele que, certa feita, realizando uma de suas expedições pelas terras do Barão com mais alguns amigos à procura de cajus, deparou-se com um boi, digamos, não muito amistoso, que avançou em sua direção; na desesperada e urgente tentativa de fuga, Miguel embrenhou-se por entre uma touceira de cansanção. Após transpor esses arbustos altamente urticantes, já saiu do outro lado com os olhos totalmente edemaciados, quase fechados, sem contar as bolhas no resto do corpo. Foi conduzido pelos relutantes e temerosos amigos até a cerca que delimitava a sua chácara e, com dificuldade, caminhou até chegar em casa. Lá, a sua mãe, a temível Dona Dudu, o aguardava e, sem delongas ou questionamentos, aplicou-lhe uma impiedosa surra de cipó! Enquanto apanhava, naquele estado já deplorável, ouvia sua mãe dizer: “Boa coisa você não estava fazendo, seu moleque!”. Só depois de findo esse castigo físico adicional é que foi questionado sobre o que tinha acontecido e aí, finalmente, recebeu o tratamento possível para o contato com cansanção, que era colocar urina da própria vítima sobre os locais afetados. Sobreviveu.
Miguel fez o curso primário na escola José Marcelino e no Aprendizado Clemente Caldas. Ainda pré-adolescente começou a trabalhar no estabelecimento comercial do Sr. Octacílio Brito.
Quando eclodiu a II Guerra Mundial e começaram a ocorrer os torpedeamentos de navios no litoral brasileiros, levando à declaração de guerra do Brasil às forças do Eixo (Alemanha, Itália e Japão), em 22 de agosto de 1942 e posterior criação da Força Expedicionária Brasileira (FEB), Miguel se alistou como voluntário para participar das forças do exército brasileiro que estavam destinadas a combater naquela guerra. Há quem diga que ele preferiu a guerra ao enfrentamento cotidiano com Dona Dudu!
Após passar pelos exames seletivos, recebeu as primeiras instruções militares ainda na Bahia, e diante da necessidade de o Exército atuar no fortalecimento do Teatro de Operações do Nordeste, que passou a ser prioritário, foi destacado para o serviço de patrulhamento da costa em Sergipe e Alagoas, incumbido, entre outras coisas, da penosa tarefa de recolher nas praias os inúmeros corpos dos tripulantes e passageiros mortos nos navios brasileiros torpedeados por submarinos alemães, naquele momento em que os alemães decidiram mudar o esforço de sua campanha submarina, das Ilhas Britânicas para o litoral do continente americano, a fim de bloquear o apoio dos Estados Unidos a seus aliados.
No início de 1944, Miguel foi incorporado à 1ª Divisão de Infantaria Expedicionária (1ª DIE), com sede no Rio de Janeiro. Constatada a inexistência de especialistas para um gama enorme de funções militares previstas na organização americana para o exército, faziam-se convocações especiais e cursos de emergência no Centro de Instrução Especializada, então criado para atender as necessidades da FEB. Miguel realizou o curso para tornar-se especialista em localizar e desarmar minas terrestres, no 6o Regimento de Infantaria (6o RI), sediado Caçapava-SP. De abril a julho, intensificou-se a preparação militar, realizada com uma série de restrições materiais, inclusive por carência do material bélico com que se iria combater. Miguel costumava evocar a memória do realismo desses treinamentos, relatando um episódio em que um companheiro teve sua vida tragicamente ceifada, ao falhar na técnica correta de manter-se próximo ao solo, durante treinamento de rastejamento sob uma rede acima da qual uma metralhadora despejava balas de verdade. Era uma preparação bem realista para o que estava por vir.
Miguel Tolentino embarcou com destino à Itália, juntamente com o seu Regimento, no dia 02 de julho de 1944. Após zarpar do Rio de Janeiro, em tensa viagem marítima a bordo do navio “General Mann”, escoltado, até Gibraltar, por navios de guerra nacionais e norte-americanos, Miguel e seus companheiros integrantes do 1o Escalão da FEB chegaram ao porto de Nápoles em 16/07/1944. Contava ele que tal era a quantidade de destroços de navios na águas da baía de Nápoles, que o desembarque teve que se dar distante do cais, usando os cascos de navios afundados como plataforma. Depois de uma estadia de 10 dias em Bagnoli, perto de Nápoles, o 1º Escalão de Embarque da FEB seguiu para a região de Tarquinia para receber material e submeter-se a intenso treinamento final. Somente na Itália é que os grupamentos táticos da 1ª DIE puderam receber o equipamento bélico com que iriam lutar e realizar seu adestramento final, sendo incorporados ao V Exército norte-americano, que se encontrava com extrema escassez de efetivos, haja vista que perdera o VI Corpo Americano e o Corpo Expedicionário Francês, levados para a invasão do sul da França. Entre 18 e 20 de agosto, o 1º Escalão de Embarque da FEB seguiu para Vada, que ficava então a 25 km da frente de combate do Arno, terminando ali as manobras de treinamento e começando o deslocamento para a zona de combate. A missão da FEB era a de auxiliar o V Exército a manter as forças ofensivas para fixar as forças alemãs que ainda combatiam na Itália e impedi-las de reforçar as frentes principais no restante da Europa.
Miguel, dado ao seu porte físico, era chamado de “Baiano Grande” pelos companheiros. O 6 º RI foi a primeira unidade brasileira a entrar em posição e cumprir missão de combate, em 15 de setembro de 1944, na região de Vicchiano. Participou das operações da jornada de 16 de setembro de 1944 na linha Monte Comunale - Il Monte, em que a FEB se apossou das localidades de Massarosa, Bozzano e Chiesa. A tropa brasileira foi avançando para o norte, obtendo seu primeiro êxito expressivo ao conquistar, a 18 de setembro, da cidadezinha de Camaiore, sob forte oposição de fogos de artilharia e morteiros, mas suplantando as pequenas resistências. Na jornada do dia 20, nas ações de estreitamento do contato, foram feitos os primeiros prisioneiros e presenciadas as baixas iniciais de companheiros pracinhas. Miguel participava nas patrulhas de reconhecimento, detecção e desarmamento de minas. Costumava relatar o pavor dos soldados alemães capturados, mormente frente aos soldados brasileiros negros - que eles supunham ser antropófagos, por conta de uma cartilha nazista que houvera sido distribuída previamente à chegada dos brasileiros à Itália. A intenção da tal cartilha era a de evitar que a população italiana viesse a simpatizar com os brasileiros, mas acabou resultando mesmo foi num temor da própria tropa alemã aos “selvagens”.  
Vieram depois a tomada da elevação de Monte Prano e da captura das localidades de Fornachi, Barga e Gallicano. Em 30 de outubro foi feito o ataque a San Quirico e Lama di Sotto, cuja posse por nossas forças constituía uma ameaça a Castelnuovo di Garfagnana, por onde passava uma transversal rodoviária de importância vital para a movimentação das reservas do inimigo.
Até esse momento a FEB havia sofrido 290 baixas, capturado 208 prisioneiros e conseguido o saldo positivo de 40 km de vitoriosos avanços.

Por decisão do General Mark Clark, comandante do V Exército, a divisão brasileira foi retirada da frente de combate de Castelnuovo di Garfagnana e deslocada para o setor situado entre os pequenos rios Reno e Panaro, na rota 64, posição que era vital para conquistar Bolonha, importante junção rodoferroviária em três direções, que vinha sendo atacada inutilmente nos últimos três meses pelos americanos e ingleses, os quais sofreram pesadas perdas. A tomada de Bolonha significaria vencer a batalha da Itália.
Esse era o quadro da frente italiana quando a FEB começou a atuar totalmente reunida: ataques dizimados, divisões inteiras necessitando de descanso; frio, lama e sangue, desalento e dor.
As posições brasileiras no rio Reno, por onde corria a rota 64, ficavam nas encostas de um arco de elevações, em cujas partes dominantes os alemães possuíam posições fortificadas: Belvedere, Gorgolesco, Monte Castelo, Della Torracia, Torre di Nerone, Soprassasso. Oblíquas em relação à estrada, as elevações descortinavam e dominavam todos os movimentos das tropas aliadas, sendo necessário manter geradoras de fumaça em permanente funcionamento para dificultar a visão do adversário. Nessa privilegiada situação topográfica e tática, em que o Monte Castelo era a parte mais sensível, combatia a aguerrida 232ª Divisão de Infantaria Alemã.
Impunha-se, pois, atacar as posições fortificadas do inimigo naquele setor. Atacar do sopé para o cume fortificado, ainda sem a necessária experiência de combate; realizar ações frontais, sem meios suficientes; sem o apoio de blindados, pouco próprios para o combate na montanha e que se atolariam no lodo daqueles dias; arrastar-se na lama e no frio sob o castigo de pesados capotões e enormes galochas; combater sem a ajuda e o conforto da aviação, ausente daqueles terríveis céus de novembro e dezembro de 1944.




Nesse quadro, Miguel, como integrante do batalhão mais experimentado no combate até então, participou das ofensivas contra Monte Castelo que se deram por 03 vezes no final de novembro de 1944 e no dia 12 de dezembro. Tendo em vista as peculiaridades da situação, a Divisão, ao invés de empregar centralizadamente os seus regimentos, acionava diretamente os seus batalhões.  Mesmo atacando juntamente com a Task Force 45 norte-americana, não se obteve sucesso por conta de insuficiência de meios e por terem sido ataques frontais a posições fortificadas.
Durante o ataque a Monte Castelo na noite de 12 de dezembro, em meio ao frio e neve, avançando em meio a uma chuva de projéteis e granadas, Miguel, ironicamente, pisou numa mina alemã e a explosão o arremessou para longe. Permaneceu estendido e atordoado no meio da neve e lá ficou com o pé direito aos pedaços, sem saber ao certo se estava vivo ou morto. Sobreviveu por toda a noite praticamente congelado. Quando chegou a luz do dia, os companheiros que estavam recolhendo os mortos já o estavam dando como uma das baixas, mas logo perceberam que ele ainda estava com vida. Foi então removido para um hospital de campanha do Serviço de Saúde e daí para hospitais militares em Pistoia, Pisa e Livorno, sendo submetido a cirurgia de síntese, enxerto e reconstituição das partes ósseas atingidas. A sua permanência nos hospitais foi prolongada e a recuperação lenta e dolorida, tendo que permanecer com aparelho de tração e perna direita elevada por um bom período. No hospital conviveu com os mais variados dramas dos soldados aliados que lá se encontravam com os mais variados ferimentos, mutilações e traumas psíquicos. Quando começou a andar novamente foi enviado para reabilitação num hospital em New Orleans, nos Estados Unidos, pois a guerra na Europa já estava perto do fim e os americanos queriam dispor de mais efetivos para enviar à guerra do Pacífico.

Foi ainda nos Estados Unidos, no dia de seu aniversário de 24 anos, 08 de maio de 1945, que Miguel presenciou e participou da festa do fim da guerra na Europa. A Alemanha finalmente se rendera e o nazi-fascismo foi derrotado. Miguel relatava que a imagem que mais o marcou nesse dia foi ver, pela primeira vez, brancos e negros juntos, naquela região dos Estados Unidos marcada pela segregação racial, compartilhando os mesmos abraços e beijos, bebendo e comendo juntos. A festa se repetiria em agosto, quando o Japão, após sofrer os ataques das bombas atômicas de Hiroshima e Nagasaki, também se rendeu e a II Guerra teve fim.

Ainda sem estar completamente recuperado, Miguel retornou ao Brasil, ficando inicialmente num hospital do Exército em Recife e depois seguiu para o Rio de Janeiro, onde permaneceu até a dissolução da FEB no final de 1945. Foi condecorado com a Medalha de Campanha e a Medalha Sangue do Brasil. Não conservou muita coisa que o lembrasse da guerra. Possuía uma razoável coleção de armas alemãs que recolheu dos inimigos abatidos, mas no seu retorno ao Brasil as distribuiu com os colegas pracinhas que queriam levar algum souvenir consigo.
O seu retorno a Nazaré só se deu no ano seguinte. Viajou do Rio de Janeiro até Jequié. De lá passou um telegrama avisando que estava chegando e pegou o trem para Nazaré. A comunidade nazarena rapidamente se mobilizou e preparou uma calorosa recepção para o seu filho que lutara em defesa da pátria no Teatro de Operações da Itália. Foi recebido com foguetes, banda de música e solenidade no salão nobre da Prefeitura. Consta que sua mãe não foi até a Estação Ferroviária recepcioná-lo, mantendo-se na execução da rotina doméstica, e que quando ele entrou em casa foi recebido apenas com a exclamação: "Ô, já chegou?" 
A Câmara Municipal de Nazaré o homenageou conferindo o nome de Rua Expedicionário Miguel Tolentino de Souza à rua onde morava na Conceição. Findas as homenagens, voltou à vida civil.
Em 1956, casou-se com Dona Iraildes de Almeida Souza, com quem teve 05 filhos, além de ter completado a criação de 3 sobrinhos, órfãos de seu irmão Renato, que faleceu em 1967. Foi comerciante a maior parte de sua vida, tendo inicialmente um armazém de secos e molhados chamado "O Continental", o qual foi completamente arrasado durante a enchente de 1960. Após esse incidente, foi administrador de fazenda, fiscal de rendas e secretário de obras do município entre 1962 e 1966. 



Eleito vereador em 1966, pela ARENA, foi Presidente da Câmara e exerceu seu mandato até 1970. Em seguida assumiu o cargo de Avaliador Judicial ao tempo em que mantinha a sua atividade de comerciante num pequeno mercado, onde houvera sido o armazém de seu falecido irmão Renato. Foi também Venerável da Loja Maçônica HIRAM.


Em 23 de janeiro de 1983, no Hospital Geral do Exército, em Salvador, veio a falecer, sucumbindo ao insidioso diabetes e suas complicações que já vinham deteriorando sua saúde há 08 anos. A sua trajetória está resumida na lápide do seu jazigo perpétuo no Cemitério da Santa Casa de Misericórdia de Nazaré: “Dos embates que a vida oferece/ conservá-la é sempre o mais duro/ o teu sopro de herói permanece/ insuflando-nos para o futuro”.


NOTA: no último dia do seu internamento no Hospital do Exército, às 8:00h da manhã, meu pai foi informado que teria que amputar a perna por conta de uma úlcera diabética. Horas depois seu quadro se agravou, entrou em coma leve e foi levado para a UTI. Eu estava de plantão em outro hospital e só pude chegar lá no final da tarde. Entrei na UTI para vê-lo às 18:00h; quando segurei sua mão, ele abriu levemente os olhos e eu lhe disse que iríamos lutar para fazê-lo recuperar-se. Ele, num aparente grande esforço, acenou um não com a cabeça e os olhos se encheram de lágrimas. Entendi que ele tinha desistido, que não queria mais viver com aquelas limitações que já vinham se arrastando há anos. Fiquei segurando sua mão e ele voltou a fechar os olhos. Vi que o monitor começou a registrar extrassístoles. Falei para o pessoal de plantão que caso ocorresse algum evento de parada cardiorrespiratória deveria ser encarado como óbito e não deveriam ser tentadas manobras de ressuscitação. Saí da UTI e voltei para o quarto onde minha família aguardava notícias. Falei da impressão pessimista que tive. Enquanto eu falava o colega plantonista da UTI chegou e relatou que meu pai tinha ido a óbito logo que eu saí. Um misto de tristeza e alívio se instalou em minha mente. Fui até o necrotério e fiz a barba do agora cadáver de meu pai, enquanto lhe acariciava o rosto e lembrava da sua trajetória de lutas desde a II Guerra.