Fiquei bege, como dizem alguns personagens televisivos. O que eles querem dizer com isso? Que amplitude é essa? De que povo estão falando? Os autóctones, os estrangeiros, os apátridas? Tá todo o mundo incluído? O homem do povo, o povão, o zé povinho? Mesmo os que não votam neles, os que não acreditam no mesmo que eles, os que têm mais ou menos dinheiro que eles, os que roubam ou matam ou abortam mais que eles, os que bebem mais que eles, se drogam mais que eles, trepam mais que eles? O povo de Deus e o povo do Capeta? O que vem em segundo lugar: a Natureza, os animais, os vegetais, os minerais, os corpos celestes, os bens imateriais, os 4 elementos, o inconsciente coletivo, os telefones celulares, o petróleo do pré-sal?
quinta-feira, 28 de agosto de 2014
Política das Ruas
Fiquei bege, como dizem alguns personagens televisivos. O que eles querem dizer com isso? Que amplitude é essa? De que povo estão falando? Os autóctones, os estrangeiros, os apátridas? Tá todo o mundo incluído? O homem do povo, o povão, o zé povinho? Mesmo os que não votam neles, os que não acreditam no mesmo que eles, os que têm mais ou menos dinheiro que eles, os que roubam ou matam ou abortam mais que eles, os que bebem mais que eles, se drogam mais que eles, trepam mais que eles? O povo de Deus e o povo do Capeta? O que vem em segundo lugar: a Natureza, os animais, os vegetais, os minerais, os corpos celestes, os bens imateriais, os 4 elementos, o inconsciente coletivo, os telefones celulares, o petróleo do pré-sal?
terça-feira, 12 de agosto de 2014
Pifou a TV
sexta-feira, 9 de maio de 2014
Brecha para o passado
terça-feira, 17 de dezembro de 2013
Falando em mudança de sexo, no campo das denominações das doenças houve uma verdadeira epidemia de transexualidade: o dengue virou a dengue; a cólera virou o cólera; mas o mais marcante evento de transformação radical de identidade de gênero se deu com o diabetes: a revista Istoé publicou uma matéria de capa em que chama a doença de "a diabete"!! Pronto. Virou a chacrete do diabo! Era o que nos faltava.
Quando estiver de volta o horário eleitoral, é bem provável que tornemos a ouvir expressões como: povo do “recôncuvo”; gente de “Cachaceiras” (Cajazeiras); “candidato com forte penetração no baixo clero”; “o Dr. Fulano foi o único médico que só saiu de cima de minha mulher quando ela ficou boa”; e “as pedra desse carçamento fui eu quem pô-las, colocô-las e aterrô-las!” Não estranhem se a transmissão for interrompida por uma interferência dizendo: “Plantão da Língua Portuguesa informa:...” – minha paciência tem limites.
Para ficar com ela (em 15 lições)
1 - Se você quiser ficar com ela, aprenda a não
gritar quando discutir – ela não gosta muito desse comportamento; ninguém
gosta, eu sei, mas quando ela não gosta, acredite, a reversão das leis da
física se torna totalmente iminente, quase imperativa, e você poderá ouvir as
trombetas do Armagedom soando e presenciar o mundo desmoronar na sua frente em
todas as direções.
2 - Se você já leu o Apocalipse ou as Centúrias de
Nostradamus e não deseja estar vivo para testemunhar nenhuma das cenas
catastróficas e aterrorizadoras lá descritas, verá que é totalmente
aconselhável, a qualquer custo, evitar fazer algo que a leve a dizer “me
aguarde” ou “vamos pra frente”.
3 - Se você tem algum conhecimento gramatical e
acha que o pronome pessoal “ela” se aplica a todas as coisas e pessoas do
gênero feminino, pode ir reformulando o seu conhecimento: em pouco tempo você
vai descobrir que “ela” designa e se refere unicamente a ELA. Não por imposição
consciente dela, mas pela dimensão que ela tem. Ela fica ali do seu lado em
silêncio ou num papo interessantíssimo e tudo conflui para a conclusão de que
só existe ela. Os filhos descobrem isso desde cedo e usam o pronome
apropriadamente.
4 - Se você a ouvir dizer que quer ter seis filhos,
creia-me, é sério. Ela nasceu para ser mãe. Você terá que contar com o
imponderável para que essa explosão demográfica, da qual você será partícipe e
co-provedor, não se concretize. E tem mais: ela falará em gêmeos e outras
coisas assustadoras, mas serão todos do sexo masculino nos sonhos e desejos
dela. Ela é feminista, mas, como é mais inteligente do que feminista, não quer
nenhuma outra mulher por perto competindo com ela. E, ai de você, se olhar para
um outro rabo-de-saia! E, ai do rabo-de-saia, se lhe disser algum “oi” mais
entusiasmado!
5 - Se você deseja manter algum controle sobre seu
destino, sentimentos e sanidade mental é imprescindível, absolutamente
imprescindível, que jamais aproxime sua mão da pele das coxas dela. Mas, caso
esse contato venha a acontecer, aproveite – nenhuma outra sensação táctil que
você venha a experimentar será mais prazeirosa.
6 - Se você quiser escapar da atração gravitacional
equivalente a de um buraco negro poderoso, nunca se permita dar ouvidos aos
suspiros e sussurros dela, jamais olhe o lindo rosto que ela ostenta nem toque
os lábios dela com os seus. Essa experiência será a sua ruína. Você vai ser
tragado inapelavelmente. Não vai ter retorno. Você será reduzido a uma massa
cativa disforme e terá o seu coração comprimido a níveis inimagináveis. Mas,
incompreensivelmente, você verá que isso é muito bom.
7 - Se você quiser lhe dar um presente romântico e
significativo da sua afeição, jamais lhe dê rosas ou flores ou vegetais de
qualquer espécie, sejam naturais, artificiais ou pictoricamente representados
(evitar especialmente o bonsai, porque para ela esse vegetal miniaturizado é
algo maligno e demoníaco - não peça explicações lógicas. Conforme-se).
Pra ver os olhos dela cintilarem, lance mão de adornos feitos daquele metal
dourado precioso, preferencialmente cravejados de átomos de carbono dispostos
num arranjo atômico e molecular especial que os fazem muito duros, transparentes
e brilhantes. Nenhuma flor do Jardim do Éden, nem todos os Jardins de
Édens que possam ser concebidos suplantarão o efeito de deslumbramento e
satisfação que qualquer jóia fará brotar nos olhos alegremente infantis em se
transformam os olhos dela ao abrir a caixinha da joalheria.
8 - Se você quiser se abster de magoá-la ou de
arranjar problemas desnecessários para si, evite comprar roupas para ela com o
passar dos anos. Suas chances de acertar o tamanho serão sempre infinitesimais
– em se tratando de roupas femininas, é impressionante a variedade de grandezas
que existem entre o P, o M e o G; e quando a numeração é do tipo 38, 40, 42,
44, etc, as suas chances não melhoram em absolutamente nada. Se comprar roupa
de um número menor que o dela, ela se achará gorda e lhe dirá que você não sabe
mais o tamanho atual dela e que ficou fixado num manequim de quando ela era
pós-adolescente. Se comprar de um tamanho maior (horror dos horrores) ela não
só se achará gorda, mas ainda concluirá (com razão) que você a vê mais gorda
ainda. Se você, por um acaso remotíssimo, acertar em cheio o tamanho, ela ainda
se achará gorda e lhe dirá que você sabe exatamente o quão gorda ela está. You
never win! Esqueça roupas, portanto. Pode até arriscar um sapato ou uma bolsa,
mas apenas se usar algum estratagema para saber antecipadamente se ela aprova
ou deseja aquele modelo. Aliás, melhor esquecer o sapato também, porque o pé
dela é lindamente arqueado e não é qualquer sapato que lhe fica confortável.
Melhor deixar que ela mesma se encarregue desse item de suprimento quase
mensal. Ah, e se não der para fingir uma súbita falta de ar ou um desmaio na
eventualidade de ela lhe fazer a inescapável pergunta sobre se você acha que
ela está gorda, responda que você tem a impressão que ela emagreceu. E pronto.
Se disser que não a acha gorda, ela dirá que você está mentindo para agradá-la;
se disser (ai, meu Deus) que ela está cheinha, pode se preparar para reações
citadas nos itens 1 e 2 acima.
9 - Se você ficar com ela, vai ver que ela vai lhe
preparar as mais deliciosas comidinhas que você já provou ou provará. E rápido.
Ela cozinha bem e come bem. Aliás, comer para ela não é verbo de sobrevivência
- está mais para sentido da vida. Elogie sempre os pratos que ela fizer tão ágil
quanto dedicadamente. Dificilmente você aliará tanta satisfação e honestidade
simultâneos em outros eventos da sua existência. Beije-a no dorso enquanto
ela cozinha, porque não atrapalha em nada, eu acho.
10 - Se você quiser ter um mínimo de afinidade
artística com ela é recomendável que goste de música. Da boa música, não
desses batuques requebrativos ou funks e raps. Ela saberá todas as letras e
músicas do tempo dos afonsinhos. Ela saberá solfejar as mais famosas sinfonias
e sonatas e valsas e concertos e tocará algo delas no piano, para seu deleite.
É indicado também que você ache a Bossa Nova pretensiosa, ingênua e alienada
nas letras e muitas vezes irritante. O mesmo vale para o Jazz. Ela concordará.
Aliás, as críticas musicais dela são arrasadoras. Ela lhe acompanhará ouvindo,
cantando ou tocando rock e será tomada pela batida, sacudindo mais a cabeça e a
parte superior do corpo ao acompanhar o ritmo desse tipo de música. E ela
também fará coro com você se você começar a cantar qualquer música dos Beatles;
e esse coro se dará, no mais das vezes, com ela fazendo a segunda voz e é bom
que você saiba se manter cantando a melodia na primeira voz, para que a
harmonia saia perfeita. Ela canta muito. Muito bem. Nunca desafina. Ela tem
ouvido quase absoluto. Ela é música em estado quântico.
11 - Se quiser conviver apropriadamente com ela,
acostume-se com os medos que ela preserva. Não zombe deles. Ela tem medo de
água, qualquer água, portanto até cruzar pontes é fonte de angústia para ela.
Evite travessias pelo Ferry Boat. Cruzeiro marítimo, nem pensar. Uma gôndola
pode ser uma exceção. Proteja-a com um abraço envolvente na eventualidade de
soar um ameaçador e mortal trovão, ou seja, qualquer trovoadazinha. Poste-se,
interponha-se heroicamente e de imediato no caminho que qualquer coisa viva ou
inanimada que entre voando em sua casa. A calamidade das calamidades para ela é
a barata voadora (e também a rastejante). Sua atitude máscula, destemida e
exterminadora de insetos desorientados e inoportunos a acalmará um pouco nesses
momentos, mas nunca abolirá o medo dela. Não se ofenda nem se sinta diminuído
com isso. Use a crise como oportunidade de demonstrar uma das suas poucas reais
utilidades na vida dela.
12 - Se você não quiser ter confrontos religiosos
com ela, é bom saber que ela é católica. É um tipo diferente de católica, para
quem a Santíssima Trindade é composta, mais ou menos em ordem variável de
importância, por São Francisco de Assis, pelo Papa e por Jesus. Um segundo
escalão de devoção é formado por Santo Antonio e pelas Nossas Senhoras de todas
as denominações. Deus, para ela, é algo meio distante e inacessível - mais uma
ideia assustadora e remota do que necessariamente um ser supremo acolhedor. Ela
está bastante confortável com essa concepção teológica tão particular - os
deuses dela são ou foram pessoas de carne e osso. Por isso, nunca tente
questionar, desmerecer, desafiar ou menosprezar a Santíssima Trindade dela, as
divindades e santidades de todos os escalões ou a instituição que as abriga.
Evite, na medida do impossível, tentar entender o que difere isso do politeísmo
– nem mencione essa possibilidade interpretativa. Se isso, inadvertidamente, acontecer,
você terá seu intelecto e reputação como Homo sapiens arrasados. Sem falar nas
consequências imediatas e remotas no seu cotidiano. Lembre-se sempre do “me
aguarde”.
13 - Se você é muito exigente com controle
orçamentário, planejamento e racionalização de despesas, gastos no cartão de
crédito, uso do limite de crédito no banco, você está no caminho certo – vai
ter que fazer isso por sua própria conta e com a sua própria parte dos recursos
comuns ao casal. Ela não é Maria da Conceição Tavares nem conselheira econômica
do Fantástico. Ela deverá ter a liberdade de fazer tudo aquilo que você julga
economicamente temerário. Para ela o céu é o limite e você terá que lhe
oferecer o céu. Sem estresse, então.
14 - Se você quiser viajar para conhecer o mundo
com ela, pode ir arrumando a bagagem. Ela topa ir para qualquer lugar com você,
desde que seja para a Itália. Nesse “qualquer lugar” também não estão incluídos
ou estão liminarmente excluídos os paraísos tropicais, redutos naturais e
trilhas ecológicas, claro (ela odeia mato, bicho, mar, sol - “a bola de fogo”,
Natureza, essas coisas hostis; ela gosta é de concreto e de ruínas romanas,
gregas e etruscas). Paris, Londres, Madri, Berlim serão perfeitamente
suportados por ela, desde que o itinerário inclua a Itália em algum momento.
Não se assuste se a avaliação dos países e cidades não italianos for mais
negativa do que mereceriam ou se o humor dela não se mostrar tão bom durante a
estadia nesses locais. Quando a imagem da paisagem italiana surgir e a primeira
palavra nesse idioma for pronunciada por um cameriere num
restaurante qualquer, você verá brilhar o sol da Toscana na sorridente face
dela, seja dia, seja noite. Qualquer comida italiana elevará o humor dela, seja
no cardápio, no prato, no garfo ou na memória. Beba com ela o vinho da casa ou
um Chianti e desfrute dos melhores momentos que os seus cigarros podem
proporcionar. E não se esqueça nunca dos minutos de êxtase que transparecem do
rosto dela ao degustar o tiramisu do Il Bargello, em Florença. Repetir essa
experiência é uma necessidade à qual você desejará se submeter repetidas vezes
ao longo dos anos em que estiver ao lado dela. Mas lembre-se que o Il Bargello
costuma ficar fechado no mês de Fevereiro, logo... Visitas a Roma e Veneza a
qualquer tempo podem suprir razoavelmente a falta desse tiramisu. Mas
prepare-se para percorrer detalhadamente todas as igrejas e templos construídos
nesses locais desde que os etruscos começaram a empilhar pedregulhos. Dê-se por
satisfeito de ser liberado da penitência de subir a Scalinata Santa de joelhos
e, ao vê-la genuflexa e contrita vencendo os degraus um a um, resista ao desejo
herético de tomá-la nos braços e conduzi-la escada acima. Mas fique de joelhos
pelo menos no Vaticano e agradeça por ela estar ali ao seu lado.
15 - Se você quiser ter uma companheira fiel,
maternal, amorosa, culta, politizada, entendedora de futebol entre muitos
outros esportes, inteligentíssima, sensual, lindíssima e ficar casado com ela
por trinta anos e mais trinta e mais trinta, não seja burro: ame-a sempre,
deixe ela e não a deixe jamais!
Eu tenho feito isso, mas ainda não sei se é o
bastante.
quarta-feira, 19 de setembro de 2012
Os dois locais mais românticos do mundo
sábado, 21 de abril de 2012
Miguel Tolentino - uma biografia em minha memória
Durante o ataque a Monte Castelo na noite de 12 de dezembro, em meio ao frio e neve, avançando em meio a uma chuva de projéteis e granadas, Miguel, ironicamente, pisou numa mina alemã e a explosão o arremessou para longe. Permaneceu estendido e atordoado no meio da neve e lá ficou com o pé direito aos pedaços, sem saber ao certo se estava vivo ou morto. Sobreviveu por toda a noite praticamente congelado. Quando chegou a luz do dia, os companheiros que estavam recolhendo os mortos já o estavam dando como uma das baixas, mas logo perceberam que ele ainda estava com vida. Foi então removido para um hospital de campanha do Serviço de Saúde e daí para hospitais militares em Pistoia, Pisa e Livorno, sendo submetido a cirurgia de síntese, enxerto e reconstituição das partes ósseas atingidas. A sua permanência nos hospitais foi prolongada e a recuperação lenta e dolorida, tendo que permanecer com aparelho de tração e perna direita elevada por um bom período. No hospital conviveu com os mais variados dramas dos soldados aliados que lá se encontravam com os mais variados ferimentos, mutilações e traumas psíquicos. Quando começou a andar novamente foi enviado para reabilitação num hospital em New Orleans, nos Estados Unidos, pois a guerra na Europa já estava perto do fim e os americanos queriam dispor de mais efetivos para enviar à guerra do Pacífico.NOTA:
no último dia do seu internamento no Hospital do Exército, às 8:00h da manhã,
meu pai foi informado que teria que amputar a perna por conta de uma úlcera
diabética. Horas depois seu quadro se agravou, entrou em coma leve e foi levado
para a UTI. Eu estava de plantão em outro hospital e só pude chegar lá no final
da tarde. Entrei na UTI para vê-lo às 18:00h; quando segurei sua mão, ele abriu
levemente os olhos e eu lhe disse que iríamos lutar para fazê-lo recuperar-se.
Ele, num aparente grande esforço, acenou um não com a cabeça e os olhos se encheram de lágrimas. Entendi que
ele tinha desistido, que não queria mais viver com aquelas limitações que já
vinham se arrastando há anos. Fiquei segurando sua mão e ele voltou a fechar os
olhos. Vi que o monitor começou a registrar extrassístoles. Falei para o
pessoal de plantão que caso ocorresse algum evento de parada
cardiorrespiratória deveria ser encarado como óbito e não deveriam ser tentadas
manobras de ressuscitação. Saí da UTI e voltei para o quarto onde minha família
aguardava notícias. Falei da impressão pessimista que tive. Enquanto eu falava
o colega plantonista da UTI chegou e relatou que meu pai tinha ido a óbito logo
que eu saí. Um misto de tristeza e alívio se instalou em minha mente. Fui até o
necrotério e fiz a barba do agora cadáver de meu pai, enquanto lhe acariciava o
rosto e lembrava da sua trajetória de lutas desde a II Guerra.









