quarta-feira, 14 de agosto de 2019

Anunciação




A minha torcida (na bruma leve) por uma derrota de Macri nas eleições (das paixões) argentinas tem uma motivação egoísta (que vêm de dentro) e muito pouco humanitária; (tu vens chegando) não chega a ser necessariamente (pra brincar no meu quintal) xenófoba, mas pode perfeitamente (no teu cavalo) sofrer essa interpretação.

Explico: após o início (peito nu) do governo Macri (cabelo ao vento), as sinaleiras - semáforos - que ficam próximas à minha casa (e o Sol quarando) passaram a ser frequentadas por variados malabaristas argentinos (nossa roupa no varal) que, suponho, perderam espaço circense em seu país e vieram (tu vens, tu vens) pra cá, justo para debaixo da minha varanda (eu já escuto os teus sinais) lançar aos ares tochas, facões, bolas, arcos e objetos não identificáveis.

O diacho é que (tu vens), ultimamente, esses artistas (tu vens) das vias urbanas ganharam a companhia de um músico, por assim dizer, (eu já escuto os teus sinais) que fica soprando aquela flauta andina (a voz do anjo sussurrou no meu ouvido), mas, em vez de um repertório tipo “El Condor pasa”, o miserável, quer dizer, o músico (eu não duvido já escuto os teus sinais) só toca a melodia de “Anunciação”, de Alceu Valença!

Não bastasse isso (que tu virias numa manhã de domingo), ainda apareceu um tocador de tambor, (eu te anuncio) que está, até hoje, perseguindo todos os ritmos e disritmias (nos sinos das catedrais) para acompanhar o flautista na “execução” da música de Alceu.

Não preciso dizer (tu vens) que o som dessa música está percutindo continuamente (tu vens) meus tímpanos (eu já escuto os teus sinais), esteja eu na cama, mesa, banho ou cama - tou me repetindo (tu vens). Por que será? Até o toque (tu vens) do meu celular parece reproduzir os acordes do (eu já escuto os teus sinais) flautista portenho, o que já transforma “Anunciação” (tu vens) em alucinação. Um italiano provavelmente chamaria isso de "un tormentone".

Portanto espero que a derrota (tu vens) de Macri traga condições para o retorno (eu já escuto os teus sinais) dos artistas ao seu torrão natal, oferecendo-me a urgente oportunidade de alívio (tu vens) sonoro. Enquanto isso não ocorre (tu vens), estou pensando em passar por perto e gritar: Toca Raul! (eu já escuto os teus sinais).

terça-feira, 12 de junho de 2018

VERSÍCULOS DO GÊNESIS


                            (Versão não autorizada - non imprimatur - não alcançou o nihil obstat)


 Capítulo 1º




1 Agora nós (plural majestático) vamos criar o vaga-lume! Plim!

2 Agora vamos criar a minha partícula (que um dia será usurpada e chamada de Bóson de Higgs)! PirlimPlimPlim!

3 Agora vamos criar o barro! Ploft!

4 Ontem criaremos, quer dizer, amanhã criamos, melhor, hoje estaremos criando o tempo! Tic! Tac! Trim!

5 Depois do tempo, crie-se o tempo antes do tempo, ou seja, a previsão do tempo! Plim, plim!

6 Estamos pensando em criar algo desse barro, mas antes vamos criar o espelho para conhecer nossa imagem. Click!

7 Já fizemos a água? Não? Oxe! Então que jorre por todo canto! Doce, salgada, salobra, Evian, Indaiá... Chuá! Chuá! Glub! Glub!

8 Vamos criar umas coisas cheias de folhas que serão chamadas árvres, ávres, ávires, ávores, évoras, órvares, não, árvores. Isso!

9 E o céu já tem? Não, né? Ô, menino, chama Van Gogh aí pra pintar um céu estrelado! Starry, starry night, paint your palette blue and grey...

10 Notamos que o vaga-lume não estava acendendo porque ainda não criamos a luz. Cáspite! Faça-se a luz nessa zorra! Fontes de luz no modo on!

11 Vamos moldar o barro e fazer algo de útil e interessante... ah, uma moringa, um caboré, uma bilha, um mealheiro, um cachepot, um cuscuzeiro... um tijolo... uma telha...

12 Que maçada! Os vasos de barro não ficaram cozidos... Faltou fogo! Ô, inteligência, cria o fogo antes, não é? E bambambã caixa de fósfo, fogo!

13 Ih, precisamos colocar todas essas coisas feitas até agora em algum lugar...hum...Faça-se o Kentucky! (plano, na forma de um frisbee) Amém? Yeah!

14 Fizemos o ar? Não? Por isso estávamos nos sentindo sufocados! E o fogo não acendia...Que se insuflem os ventos, as atmosferas, os gases nobres e plebeus!

15 Cremos ser imperativo criar uma cobra com aparelho fonador e adequada loquacidade para deixarmos de lado esse solilóquio alucinatório...Zap! Oi! Hem? Psiu!

16 Voltamos a moldar o barro para criar algo parecido conosco...Uma olhadinha no espelho...Muito complicado.

17 Deixa pra lá! Façamos o homem, então, como molde preliminar. Chamar-se-á Teágenes Heliodoro!

18 Incumbamos a cobra de travar diálogos com esse homem. Ele me parece meio leso. 19 A cobra disse que Helinho anda sorumbático, sem muito estímulo, sentindo um vazio existencial.

20 Geninho Heliodoro continua triste. Vamos criar algo que haverá de servir para dar sentido à sua existência: a cerveja artesanal! Glub! Glub! Aaaah! Blurp! Hic!

21 Vamos tirar uma costelinha aqui desse Heliodoro e fazer... fazer o quê com uma costela? Ideia mais besta... 22 Devolva-se a costela! Enfiemo-la aí entre as pernas de Te-odorinho. Há de servir para algum propósito. Ele descobrirá.

23 Já fizemos o homem. Agora, aproveitando esse embalo, vamos criar... o macaco. Coloquemos umas escamas nele pra Darwin não ficar inventando histórias...

24 A cobra volta a se queixar que o homem está enchendo o, por assim dizer, saco dela com lamúrias de que está faltando algo que ele não sabe definir, mas que deve ser um algo palpável e apalpável. 25 E que Heliodoro anda brincando muito com a costelinha que lhe implantamos. Grande novidade!

26 Moldaremos o barro novamente para obter uma criatura semelhante a Heliodoro, que irá lhe fazer companhia e acabar com as queixas na ouvidoria: eis Apolônio!

27 A cobra ficou meio incrédula e deu um riso sarcástico quando lhe dissemos que iríamos passar o dia compondo a 5ª Sinfonia de Beethoven. Receba: tchã tchã tchã tchãããã!

28 Cansamos de plural majestático... Agora sou EU! Eu, eu, eu. Eu sou aquele que está; eu estou aquele que é (o que quer que isso signifique).

29 Vou criar palavras que se referirão à minha humilde pessoa: glória, divino, poderoso, onipotente, altíssimo, superlativíssimo, o cara... taí, gostei! Pronto: falei!

(Fim do Capítulo 1º)


Capítulo


1 Hoje estou entretido criando verrugas, furúnculos e caroços diversos. 2 Acho que vou colocar uns mamilos  em Heliodoro e Apolônio. Just in case.

3 A cobra veio dizer que não ia nem dizer o que Dodó (Heliodoro) e Apolônio (Popó) estão aprontando em libidinagens mútuas. Cobra ciumenta e fofoqueira!

4 Vou criar a chuva, a frente fria vinda da Argentina, a neve e o granizo para atingir Popó e Dodó e ver se aquietam um pouco o facho. 5 Assim essa cobra vai parar de me importunar a toda hora.

6 Estou achando divertido criar as bactérias... Acabei de gerar, de uma tacada só, os bacilos da tuberculose, lepra, tétano e botulismo. Que beleza!

7 A infeliz da cobra veio alcaguetar que o frio só fez incentivar o aconchego da dupla Dodó e Popó; que agora estão tomando cerveja gelada. Vou fazer o quê?

8 As árvores estão lá no Kentucky todas paradonas sem saber direito o que fazer no dia a dia. 9 Vou ensiná-las a fazer fotossíntese para acabar com o ócio improdutivo. Tudo eu, tudo eu...

10 Fiquei curioso e fui lá no Kentucky dar uma espiada no comportamento de Dodó e Popó. 11 Pareceu-me que eles estavam inocentemente brincando de Escravos de Jó, jogando caxangá, tirando e botando, deixando o zabelê ficar e fazendo zigue zigue zá. Essa cobra, hum, sei não...

13 Para confrontar as fake news da cobra, criarei o fact checking!

14 Estou questionando se devo ou não manter o livre-arbítrio desses seres que criei... e se devo deixar as coisas ao acaso...ou estabelecer um destino...interferir...15 Mas ficar manipulando tudo e todos todo o tempo não é uma opção aceitável: fica enfadonho, gera consequências em cadeia 16 e, além disso, eu não sou maluco e tenho mais o que fazer e mais o que descansar depois de toda essa trabalheira criativa. 17 Então, que se virem! Não quero ser responsabilizado pelo que fizerem. 18 E não vou ficar controlando o momento que a folha cai da árvore coisa nenhuma. Imagine...

19 Vou passar o dia criando umas doencinhas para tirar aquele pessoal do Kentucky da zona de conforto 20 e para eles se lembrarem de mim e ficarem pedindo curas milagrosas. 21 Não posso negar que gosto de algumas súplicas acompanhadas de muitos elogios. 22 Cura para a gripe, sarampo, catapora, papeira, resfriado, eu até vou possibilitar. 23 Mas para o vírus da raiva, ah, não vai ter reza que dê jeito... Pois é, o jogo é duro!

24 É vem a cobra...Reclamando que os homens lá no Kentucky só falam entre si e não mais com ela, que está com teia de aranha na boca e só engolindo sapos (literalmente)... 25 Quer companhia e alguém pra conversar. Vou pensar no seu caso.

26 Já que não consigo criar seres parecidos comigo do nada (espelho, espelho meu...), pegarei uns furacões, uns vulcões, uns raios, uns trovões 27 e finalmente mesclarei, esculpirei, sugarei, lamberei, soprarei, um doce, cândido, cordato e pacífico ser: a mulher. Uau! Vixe! Eparrê!

(Fim do Capítulo 2º)


Capítulo


1 Gostei muito da mulher. Belas formas. Caprichei na projeção do entorno dos mamilos. 2 Mais adiante criarei o câncer de mama... porém não é hora de pensar nisso, mas de contemplar a beleza. 3 Estou em dúvida se mando ela pro Kentucky ou se a deixo aqui pra ficar olhando e constatando o quanto sou porreta em criar algo assim. 4 Chamar-se-á Afro Dita.

5 Hoje criarei rochas diversas. 6 Primeiro vou providenciar uma erupção vulcânica explosiva pliniana 7 e, em seguida, criarei o basalto, o granito, a pedra-pomes, as pedras de fogo para jogar capitão e usar no badogue, a ardósia, o mármore, pedras para apedrejamento... 8 Se bobear, criarei até as pedras dos rins e da vesícula.

9 Antes de enviar a linda Afro para o Kentucky, mandarei a cobra explicar a ela que não deverá comer os cogumelos alucinógenos, 10 claramente reconhecíveis por terem, em cima de cada, uma joaninha (já criei) dando cambalhotas.

11 Fui informado pelo réptil falante que os homens e a mulher estão reclamando que não têm umbigo. 12 E daí? Eu também não tenho! 13 Quem falou de umbigo pra eles, afinal? 14 Não tiveram placenta, como é que querem umbigo? 15 Fiz todos com barriga de tanquinho e ainda reclamam... Putz! É difícil!

16 E agora querem saber o sentido da vida... Que mané sentido, rapaz! 17 Qual o sentido de uma montanha? Tem esse negócio de sentido não! 18 Já não lhes dei a cerveja?Já não é o bastante existir? A existência não é suficiente para se ter noção de importância? 19 Vocês acham que eu fico me perguntando qual o meu sentido? EU SOU e pronto. Punto e basta!

20 Olhem essa: a cobra veio dizer que a mulher está reclamando das condições higiênicas no Kentucky 21 e quer que eu crie a privada com descarga, o papel higiênico e o absorvente íntimo, pra início de conversa... 22 Como é que é? Não vou dar nem resposta.

23 Hoje vou me dedicar à criação de ovos e ovas para gerar seres rastejantes, nadantes, voadores e a galinha - a ave caminhante e ciscante cujo surgimento a todos intrigará quanto a ter tido ou não a precedência do ovo. 24 Mas eu saberei o que veio primeiro e rirei dos aturdidos.

25 Estou precisando aparar os cabelos... Para que os tenho mesmo? 26 E essas unhas?... Sei não... Tem cada coisa meio injustificável... 27 Quem me terá feito assim? Fico intrigado. 28 Deixa pra lá! Eu e a criação somos um work in progress.

(Fim do Capítulo 3º)


Capítulo

1 Pedirei à rastejante e serpenteante criatura que diga àquele pessoal lá do Kentucky que ainda estou decidindo de que forma os próximos ovos serão fertilizados. 2 Portanto, nada de precipitações nem de soluções criativas sem o meu aval. 3 Mas pode ir adiantando para a galinha que ela tem um orifício multifuncional.

4 Notícias com origens ofídicas dão conta que Afro Dita (Frodi) estava sofrendo bullying de Dodó e Popó pelo fato de ela não ter pênis. 5 Isso me revela, por um lado, que eles dois não sabem o que fazer com uma mulher 6 e, por outro, que os homens gostam mesmo é de ficar enturmados com outros homens.

7 Frodi, a mulher, continua reclamando. Não se conforma com a menstruação. 8 Disse à serpente que se eu elaborasse um design realmente inteligente e elegante para sinalizar ausência de gravidez, 9 teria instalado no lugar do umbigo um pequeno LED ou uma concentração de pixels acesos por estímulo neuroquímico e não essa sangria desatada nas partes.

10 Hoje (que dia é hoje? Ainda não criei o calendário... O tempo na minha esfera não pode ter como referência o ciclo do sol em torno daquela superfície plana chamada Kentucky) 11 passarei momentos criando parasitas - seres que vivem à custa de outras espécies, só espoliando o hospedeiro. 12 Então lá vai: vermes, protozoários, pulgas, ácaros (não esquecer do chato, importantíssimo). 13 Eu tenho ideias geniais.

14 Ah, o inevitável... a cobra deixou Frodi curiosa sobre que efeitos teriam os cogumelos alucinógenos. 15 E ainda sugeriu misturar em infusão com catuaba. 16 Frodi tomou e deu para os homens: e aí deu para os homens. 17 Um duradouro ménage à trois com múltiplas variações sobre o mesmo tema e sobre temas distintos. 18 Vi tudo aqui no telão.

19 Long story short, 20 Frodi engravidou, 21 não sabia quem era o pai, óbvio, 22 morreu no parto, 23  nasceram sêxtuplos, metade de cada sexo, 24 Dodó e Popó deixaram as crianças aos cuidados da cobra, sumiram, 25 as crianças cresceram, 26 incesto comeu no centro, 27 multiplicaram-se malthusianamente, espalharam-se pelo Kentucky, 28 alguns caíram no abismo da borda da terra plana, 29 começou a faltar comida, 30 passaram a comer-se, quer dizer, devorar-se, 31 comeram a cobra. 32 Perdeu a graça. 33 Deprimi. 34 Dei um select all seguido de um shift + del.

36 Agora vou dar um tempo e espaço para um big bang (ou vários) e sumir de cena.


(Fim da criação e de mim)


Publicado homeopaticamente no Facebook com a seguinte chamada:
SÉRIE VERSÍCULOS DO GÊNESIS
(Todo dia um átimo da criação de tudo - acompanhe aqui)




quinta-feira, 28 de agosto de 2014

Política das Ruas

POLÍTICA DAS RUAS

Tenho feito o possível para me abster do horário político na TV e no rádio. Tenho até conseguido ficar imune aos programas televisivos, mas no rádio há umas inserções imprevisíveis, que felizmente são rápidas e passíveis de alheamento (menos quando o partido não se dá ao trabalho de gravar qualquer mensagem para ocupar o horário gratuito e aí fica uma mensagem padrão chata repetindo “horário reservado ao partido tal, inserção tal, bloco tal, duração x segundos...”).

Entretanto meus esforços de me transformar num desinformado político se mostram totalmente inúteis quando se trata de caminhar prosaicamente na rua. A profusão de cartazes, tripés, cavaletes, tem-se mostrado muito eficaz na tarefa de atrair a atenção de quem, como eu, é ingênuo o bastante para achar que pode se alienar desse rico momento cívico que ora atravessamos.

O verbo “atravessar”, aliás, quando usado para se referir à circulação em passeios e canteiros, vem tendo sua conjugação continuamente dificultada pela presença física dos citados artefatos propagandísticos.

Porém devo confessar que o meu cachorro adora os cavaletes. E numa impressionante demonstração de independência, apartidarismo e tratamento equânime às diversas correntes, coligações e propostas, tem dado especial predileção a esses cartazes na hora de demarcar o território com sua urina, esquecendo-se completamente das árvores e postes. Para ser fiel à verdade, percebo que ele faz um esforço adicional para acertar o jato urinário na boca com sorriso plastificado de alguns candidatos. Infelizmente o esforço resulta debalde por conta da sua reduzida estatura. Mas ele não dá mostras de esmorecimento. Repete o ato seguidamente até a quase expulsão da bexiga. Acho que essa é a sua forma de participação política; além de uma provável crítica, não muito velada, ao meu comportamento esquivo frente a essa festa democrática.

Mesmo já estando anestesiado para as alianças políticas esdrúxulas e impensáveis há poucos anos e para os previsíveis slogans de campanha, de vez em quando me deparo com algumas imagens e/ou frases nesses cartazes que ficam pulsando circularmente em meu cérebro, como aquele refrão de música grudenta, deixando-o ainda mais confuso que o habitual.

Pois então acompanhem meu aturdimento e me ajudem a decifrar o enigma que me foi proposto hoje num cavalete: os candidatos Márcio Marinho e Pastor José de Arimatéia compartilham o slogan “O povo em primeiro lugar”!!! 

Fiquei bege, como dizem alguns personagens televisivos. O que eles querem dizer com isso? Que amplitude é essa? De que povo estão falando? Os autóctones, os estrangeiros, os apátridas? Tá todo o mundo incluído? O homem do povo, o povão, o zé povinho? Mesmo os que não votam neles, os que não acreditam no mesmo que eles, os que têm mais ou menos dinheiro que eles, os que roubam ou matam ou abortam mais que eles, os que bebem mais que eles, se drogam mais que eles, trepam mais que eles? O povo de Deus e o povo do Capeta?  O que vem em segundo lugar: a Natureza, os animais, os vegetais, os minerais, os corpos celestes, os bens imateriais, os 4 elementos, o inconsciente coletivo, os telefones celulares, o petróleo do pré-sal?

A política da rua me deixou em crise. Vou me trancar em casa doravante.

terça-feira, 12 de agosto de 2014

Pifou a TV



Pifou a TV


Pifou a televisão! Como assim, pifou? Pifou-se, apagou-se, não acende a tela, fica esse ponto luminoso no meio do tubo de imagem e esse chiado de descarga elétrica em alguma válvula aí atrás. Imagem e som que é bom, necas!  Agora lenhou! Tem que levar pro conserto... Logo hoje que Beto Rockfeller tá tão boa... Vamos perder o capítulo. E Batman? E o Repórter Esso? Ah, liga o rádio aí e vê o que tá passando. Tá quase na Hora do Brasil, quer dizer, a Voz do Brasil. Hoje não dá mais pra consertar. Dá umas porradas aí do lado que às vezes é mau contato. Adiantou não! Aumenta a voltagem no estabilizador. Nadica. Mexe no botão do horizontal, vertical e altura. Isso não tem nada a ver. E a sintonia fina já rodou pra ver? Também não vem ao caso, mas já rodei pra lá e pra cá sem resultado. É... o jeito é levar pra Rubens. Mas ele é careiro, dizem! Então leva pra Edilson Bandeira. E quem vai carregar essa bicha pesadona até a oficina? Leva de bicicleta. De bicicleta, como? Amarra aí no quadro e vai empurrando. Emaluqueceu? Dá não. E ainda tem essa ladeira toda pra descer. Tem é que chamar alguém que conserte aqui em casa. Então vai de bicicleta lá na casa de Seu Renato. Amanhã eu vou. Amanhã ele pode arrumar outro serviço e pode demorar de vir. Mas já tá escuro. O caminho não mudou: é o mesmo de olho aberto ou fechado. Tá bom, vou lá, mas guarde meu pedaço de pão torrado, se não os outro come. Já voltei. Seu Renato vem vindo aí. Chega Seu Renato e seus temíveis aparelhos de testes eletrônicos. Ponteiro movendo pra lá, pra cá, semblante indecifrável de Seu Renato. Até que sai o diagnóstico: foi o fleibéque! Ranger de dentes, rasgar de vestes, bater de cabeças no Muro das Lamentações... NÃÃÃOOO! O fleibéque não! Quanto vai custar, Seu Renato? Hum, esse modelo Standard Electric é antigo... não sei se vai achar fácil... mas é caro! Ai, ai, ai... Agora vamos ter que empenhar até a virgindade e a pureza das meninas que ainda não têm idade para andar de bicicleta. Tá bom, Seu Renato, pode encomendar a peça. Olha aí: o jeito por enquanto é ficar ouvindo a reprise da Cabana do Pai Tomás ou Jerônimo o Heroi do Sertão no rádio. Ajeita logo essa antena pra pegar a Rádio Tupy do Rio sem muito chiado. Bora, avia logo, deixa de moleza!

sexta-feira, 9 de maio de 2014

Brecha para o passado




Brecha para o passado

Brecha impressionava pelo físico. Alto e vigoroso, parrudo mesmo, dava a impressão de que todos os músculos de seu corpo eram hipertrofiados. Tudo bem que ele impressionava, mas não atemorizava. Era só chegar perto e trocar umas duas palavrinhas com o negão que se via logo estar-se diante de um gentleman, afável e amistoso, um cara “super-gente-boa”, como costumamos dizer por aqui.

 Início dos anos 1970 em Nazaré (das farinhas) e Brecha era o censor do nosso colégio. Cumpria à risca sua tarefa de não nos deixar pelos corredores depois que tocava a sirene e as aulas recomeçavam. Também ficava na porta principal do colégio, na volta do intervalo mais longo, para cobrar que nos apresentássemos com o uniforme completo, principalmente com o escudo da instituição (peça que costumávamos furtar dos colegas para depois vender, pela metade do preço cobrado pela secretaria, a eles mesmos quando eram barrados sorridentemente por Brecha).

Numa das festividades cívicas do calendário oficial da cidade estava programada uma corrida rústica. Não houve a menor dúvida na hora de escolher quem seria o representante do nosso colégio: ele, claro, Brecha. Era barbada. Até uma covardia com os outros competidores.

Quando Brecha se alinhou para a largada em frente da Escola Profissional na Rua dos Coqueiros, deu pra ver aquela massa de muques nos braços e pernas recobertos de linimento, brilhando à luz do sol de três da tarde, enquanto ele se aquecia ainda mais com umas flexões, uns cangurus e uns polichinelos.

O percurso compreendia 10 voltas em torno daquele trecho da cidade, atravessando a Ponte da Conceição, seguindo pela Avenida D. Pedro II até a Praça da Prefeitura, descendo a ladeira dos Arcos, passando pela Ponte do Jacaré e voltando pela rua da feira até os Coqueiros novamente, defronte do beco da Escola Profissional. Não estou muito certo quanto à distância percorrida nesse trajeto (na infância tudo nos parece maior, mais longo e duradouro), mas creio que a extensão devesse ser pouco mais de 1 km.

A galera do colégio estava toda lá, com o uniforme de educação física contendo o emblema da escola, na maior torcida e incentivo: Bre-cha! Bre-cha! Bre-cha!

Quando foi dado o sinal de largada (que era na base do “um, dois, três e já”), faltam-me palavras para descrever suficientemente a velocidade alucinante, desabalada, desembestada, quase WARP, desenvolvida pelo nosso herói do Olimpo. Que Usain Bolt, que nada! O cara foi sumindo em direção à ponte da Conceição e tudo que eu conseguia ver eram as solas da chuteira preta, que ele estava usando com meião de futebol e tudo, sendo projetadas seguidamente para trás e para a frente. Os outros competidores usavam um conga ou um galupim ou um bamba e ele não: botou logo a chuteira de birro que usava no campeonato de futebol amador da cidade. Não sei o que passou em sua cabeça quando fez essa escolha.

Poucos segundos após a largada, enquanto os outros competidores ainda estavam na altura da casa de Dr. Raymundo Crusoé (uns 50 metros ou pouco mais), Brecha já se encontrava na subida da cabeceira da Ponte da Conceição e acelerando. O que víamos era apenas o ponto preto da cabeça dele se deslocando feito uma bala ponte afora.

Nós, na torcida, eufóricos: “Vai, Brecha! Vai, Brecha!”
Os outros 10 ou 15 competidores cá atrás, bem devagar (se tomarmos como padrão a velocidade de Brecha, the Flash), e tome-lhe vaia e depreciações nos caras molóides retardatários: “Vai, Bunda de Ameixa!” “Corre, Paralisia Infantil!” (lembrem-se de que não tinha esse negócio de politicamente correto naqueles tempos. Bullying era a regra).

Quando Brecha passou pelos trilhos da Estrada de Ferro já devia ter vantagem de uns 200 metros. Naquele ritmo, a questão era saber quantas voltas de vantagem ele ia colocar sobre os demais até ganhar a corrida.

Do nosso ponto de observação ficamos esperando Brecha aparecer na outra ponte. Olhos fixos na cabeceira da ponte, no Náutico Bar, esperando, esperando, esperando mais do que Pedro Pedreiro e nada. Cadê Brecha? Cadê Brecha? Nadica de nada nem de ninguém. Até que depois de um bom tempo começaram a surgir os corredores, uns meninos mirrados, um após outro correndo no estilo “piano, piano si va lontano” e Brecha, que é bom, necas de pitibiriba!

Mas que desgrama terá acontecido? Será que ele errou o caminho e foi em direção ao Camamu e ao Apaga-Fogo em vez de fazer a volta pela ponte? Não era possível que o negão não completasse nem uma voltinha sequer da corrida que até eu completava fácil, fácil. Alguns de nós saímos em missão de busca e resgate de Brecha. Pergunta daqui, olha dali, até que alguém disse que ele estava estirado lá na estátua de Dr. Alexandre Bittencourt, em frente da Prefeitura, passando mal, talvez vomitando, babando e espumando – estaria praticamente morto, pelo menos de cansaço. Quando chegamos ao local indicado não mais o encontramos. Demos uma passada pela Funtinha (o brega local) para ver se alguma alma caridosa o tinha levado para se esconder e se recuperar por lá. Nada. Nós também estávamos quase mortos, mas era de vergonha. A gente ali envergando o uniforme do colégio e o nosso representante nos proporcionando essa vergonheira no caminho da feira.

Depois desse fracasso, que no linguajar local é traduzido com a expressão “a participação de Brecha na corrida foi uma negação”, chegou a segunda-feira e ele apareceu no colégio com aquele jeito bem-humorado e disse que teve só uma dorzinha de facão e uma fisgada na perna e que se não fosse isso ia ganhar com 5 voltas de diferença. E ainda rindo disse: “paroano vou correr de novo; e vou evitar comida pesada no dia”.

terça-feira, 17 de dezembro de 2013

Plantão da Língua Portuguesa informa:

Vez em quando me deparo com mensagens no correio eletrônico (e-mails, para sucumbir ao barbarismo) contendo expressões com erros diversos que me deixam com uma insuportável coceira nos dedos. Aí não resisto e respondo assim: “Plantão da Língua Portuguesa informa: ...”, aproveitando para defender a língua pátria e sapecando a correção daquilo que eu julgo estar equivocado do ponto de vista ortográfico, gramatical, mesmo sem ter muita autoridade para tal.

Tem umas palavras que são meio espinhosas para a maior parte das pessoas. Na hora que surge a dúvida sobre a grafia correta delas, escolhe-se sempre a forma incorreta. Alguns exemplos são:
- depedrar (incorreta), em vez de depredar (correta) – o pessoal acha que essa ação de espoliar algo tem a ver com jogar pedras e aí não dá outra: tome-lhe “depedrar” (se pensassem em predador, não errariam);
- degladiar (incorreta), em vez de digladiar (correta) – para escrever e falar certo é só ter em mente um duelo de espadas (di = dois; gládio = espada);
- estrupar (incorreta), em vez de estuprar (correta - não do ponto de vista da atitude, mas ortográfico!) – essa eu nem sei o que causa o erro, talvez um desejo inconsciente de estuprar a língua. Se pensarem que é uma atitude estúpida, têm grandes chances de acertar a grafia;
- frustar (incorreta), em vez de frustrar (correta) – provavelmente devem imaginar que seja impossível uma mesma palavra ter dois erres depois de duas consoantes (f e t) ou queiram frustrar os esforços do seu professor de Português (quando se tem a sorte de tê-lo, coitado!).

Isso para não falar em “célebro” (cérebro), “pobrema” (problema),  “padastro” (padrasto), “protistuta” (prostituta), “previlégio” (privilégio), “se esmerilhar” (se esmerar), “débora mental” (débil mental), “aos troncos e barroncos” (aos trancos e barrancos) e por aí vai.

As pessoas também não sabem que existe um substantivo masculino chamado crescendo, que vem do italiano, o qual é muito utilizado em notação musical para designar aumento progressivo de sonoridade e no nosso cotidiano deve ser usado quando se quer referir a progresso, gradação (ex.: o partido vem num crescendo considerável entre os jovens). Aí os nossos Homo pseudosapiens acham que, com a terminação “endo”, essa palavra está destinada a ser exclusivamente o gerúndio do verbo crescer e imediatamente a substituem pelo substantivo/adjetivo “crescente”, que poderia ser como aquele fértil da Mesopotâmia, mas esse seres criativos operam uma mudança de sexo na palavra e a tornam feminina (ex.: o partido vem “numa crescente”...). Minha indignação vai num crescendo que só tem um diminuendo quando o quarto crescente da Lua começa a trazer alguma luz às trevas tão democraticamente distribuídas.

Falando em mudança de sexo, no campo das denominações das doenças houve uma verdadeira epidemia de transexualidade: o dengue virou a dengue; a cólera virou o cólera; mas o mais marcante evento de transformação radical de identidade de gênero se deu com o diabetes: a revista Istoé publicou uma matéria de capa em que chama a doença de "a diabete"!! Pronto. Virou a chacrete do diabo! Era o que nos faltava.

Também não se deve dizer “há alguns anos atrás”, porque, além da possível interpretação de exuberância anatômica dessa expressão quando sonorizada, a palavra “atrás” fica redundante, pois “há alguns anos” quer dizer “faz alguns anos” e não se diz “faz alguns anos atrás”. Então não se deve colocar “atrás” depois dos “anos”, quer dizer, deve-se evitar colocar “atrás” – se é que me faço entender. Mas se alguém quiser insistir em botar “atrás” colado nos “anos”, deve-se tirar o verbo e dizer apenas “alguns anos atrás”... Acho que ficou confuso demais esse negócio: na dúvida, o melhor mesmo é dizer “há algum tempo” ou “faz tempo” ou “tempos atrás” e pronto! Esquece essa coisa de “anos atrás”, que só dá complicação.

Outro dia eu ouvi um apresentador de TV local dar uma cacetada na mesa e dizer que a situação era “lastimoniosa”! Imagino que esse neologismo seja a síntese perfeita da mistura de lastimável com horrorosa. Acho até que deveríamos incorporar essa palavra ao nosso vocabulário cotidiano, pois às vezes as palavras disponíveis falham em traduzir a nossa perplexidade. Esse mesmo “criativo” apresentador disse que a população estava em “pavorosa”! Certamente quis dizer polvorosa (agitação) – a palavra vem de pó, que em castelhano é polvo – mas ele acabou “enriquecendo” o nosso idioma com mais uma pérola que, essa sim, poderia ser denominada de pavorosa.
Quando estiver de volta o horário eleitoral, é bem provável que tornemos a ouvir expressões como: povo do “recôncuvo”; gente de “Cachaceiras” (Cajazeiras); “candidato com forte penetração no baixo clero”; “o Dr. Fulano foi o único médico que só saiu de cima de minha mulher quando ela ficou boa”; e “as pedra desse carçamento fui eu quem pô-las, colocô-las e aterrô-las!” Não estranhem se a transmissão for interrompida por uma interferência dizendo: “Plantão da Língua Portuguesa informa:...” – minha paciência tem limites.

Para ficar com ela (em 15 lições)



Para ficar com ela (em 15 lições)


1 - Se você quiser ficar com ela, aprenda a não gritar quando discutir – ela não gosta muito desse comportamento; ninguém gosta, eu sei, mas quando ela não gosta, acredite, a reversão das leis da física se torna totalmente iminente, quase imperativa, e você poderá ouvir as trombetas do Armagedom soando e presenciar o mundo desmoronar na sua frente em todas as direções.

 

2 - Se você já leu o Apocalipse ou as Centúrias de Nostradamus e não deseja estar vivo para testemunhar nenhuma das cenas catastróficas e aterrorizadoras lá descritas, verá que é totalmente aconselhável, a qualquer custo, evitar fazer algo que a leve a dizer “me aguarde” ou “vamos pra frente”.

 

3 - Se você tem algum conhecimento gramatical e acha que o pronome pessoal “ela” se aplica a todas as coisas e pessoas do gênero feminino, pode ir reformulando o seu conhecimento: em pouco tempo você vai descobrir que “ela” designa e se refere unicamente a ELA. Não por imposição consciente dela, mas pela dimensão que ela tem. Ela fica ali do seu lado em silêncio ou num papo interessantíssimo e tudo conflui para a conclusão de que só existe ela. Os filhos descobrem isso desde cedo e usam o pronome apropriadamente.

 

4 - Se você a ouvir dizer que quer ter seis filhos, creia-me, é sério. Ela nasceu para ser mãe. Você terá que contar com o imponderável para que essa explosão demográfica, da qual você será partícipe e co-provedor, não se concretize. E tem mais: ela falará em gêmeos e outras coisas assustadoras, mas serão todos do sexo masculino nos sonhos e desejos dela. Ela é feminista, mas, como é mais inteligente do que feminista, não quer nenhuma outra mulher por perto competindo com ela. E, ai de você, se olhar para um outro rabo-de-saia! E, ai do rabo-de-saia, se lhe disser algum “oi” mais entusiasmado!

 

5 - Se você deseja manter algum controle sobre seu destino, sentimentos e sanidade mental é imprescindível, absolutamente imprescindível, que jamais aproxime sua mão da pele das coxas dela. Mas, caso esse contato venha a acontecer, aproveite – nenhuma outra sensação táctil que você venha a experimentar será mais prazeirosa.

 

6 - Se você quiser escapar da atração gravitacional equivalente a de um buraco negro poderoso, nunca se permita dar ouvidos aos suspiros e sussurros dela, jamais olhe o lindo rosto que ela ostenta nem toque os lábios dela com os seus. Essa experiência será a sua ruína. Você vai ser tragado inapelavelmente. Não vai ter retorno. Você será reduzido a uma massa cativa disforme e terá o seu coração comprimido a níveis inimagináveis. Mas, incompreensivelmente, você verá que isso é muito bom.

 

7 - Se você quiser lhe dar um presente romântico e significativo da sua afeição, jamais lhe dê rosas ou flores ou vegetais de qualquer espécie, sejam naturais, artificiais ou pictoricamente representados (evitar especialmente o bonsai, porque para ela esse vegetal miniaturizado é algo maligno e demoníaco - não peça explicações lógicas. Conforme-se).  Pra ver os olhos dela cintilarem, lance mão de adornos feitos daquele metal dourado precioso, preferencialmente cravejados de átomos de carbono dispostos num arranjo atômico e molecular especial que os fazem muito duros, transparentes e brilhantes.  Nenhuma flor do Jardim do Éden, nem todos os Jardins de Édens que possam ser concebidos suplantarão o efeito de deslumbramento e satisfação que qualquer jóia fará brotar nos olhos alegremente infantis em se transformam os olhos dela ao abrir a caixinha da joalheria.

8 - Se você quiser se abster de magoá-la ou de arranjar problemas desnecessários para si, evite comprar roupas para ela com o passar dos anos. Suas chances de acertar o tamanho serão sempre infinitesimais – em se tratando de roupas femininas, é impressionante a variedade de grandezas que existem entre o P, o M e o G; e quando a numeração é do tipo 38, 40, 42, 44, etc, as suas chances não melhoram em absolutamente nada. Se comprar roupa de um número menor que o dela, ela se achará gorda e lhe dirá que você não sabe mais o tamanho atual dela e que ficou fixado num manequim de quando ela era pós-adolescente. Se comprar de um tamanho maior (horror dos horrores) ela não só se achará gorda, mas ainda concluirá (com razão) que você a vê mais gorda ainda. Se você, por um acaso remotíssimo, acertar em cheio o tamanho, ela ainda se achará gorda e lhe dirá que você sabe exatamente o quão gorda ela está. You never win! Esqueça roupas, portanto. Pode até arriscar um sapato ou uma bolsa, mas apenas se usar algum estratagema para saber antecipadamente se ela aprova ou deseja aquele modelo. Aliás, melhor esquecer o sapato também, porque o pé dela é lindamente arqueado e não é qualquer sapato que lhe fica confortável. Melhor deixar que ela mesma se encarregue desse item de suprimento quase mensal. Ah, e se não der para fingir uma súbita falta de ar ou um desmaio na eventualidade de ela lhe fazer a inescapável pergunta sobre se você acha que ela está gorda, responda que você tem a impressão que ela emagreceu. E pronto. Se disser que não a acha gorda, ela dirá que você está mentindo para agradá-la; se disser (ai, meu Deus) que ela está cheinha, pode se preparar para reações citadas nos itens 1 e 2 acima.

 

9 - Se você ficar com ela, vai ver que ela vai lhe preparar as mais deliciosas comidinhas que você já provou ou provará. E rápido. Ela cozinha bem e come bem. Aliás, comer para ela não é verbo de sobrevivência - está mais para sentido da vida. Elogie sempre os pratos que ela fizer tão ágil quanto dedicadamente. Dificilmente você aliará tanta satisfação e honestidade simultâneos em outros eventos da sua existência. Beije-a no dorso enquanto ela cozinha, porque não atrapalha em nada, eu acho.

 

10 - Se você quiser ter um mínimo de afinidade artística com ela é recomendável que goste de música.  Da boa música, não desses batuques requebrativos ou funks e raps. Ela saberá todas as letras e músicas do tempo dos afonsinhos. Ela saberá solfejar as mais famosas sinfonias e sonatas e valsas e concertos e tocará algo delas no piano, para seu deleite. É indicado também que você ache a Bossa Nova pretensiosa, ingênua e alienada nas letras e muitas vezes irritante. O mesmo vale para o Jazz. Ela concordará. Aliás, as críticas musicais dela são arrasadoras. Ela lhe acompanhará ouvindo, cantando ou tocando rock e será tomada pela batida, sacudindo mais a cabeça e a parte superior do corpo ao acompanhar o ritmo desse tipo de música. E ela também fará coro com você se você começar a cantar qualquer música dos Beatles; e esse coro se dará, no mais das vezes, com ela fazendo a segunda voz e é bom que você saiba se manter cantando a melodia na primeira voz, para que a harmonia saia perfeita. Ela canta muito. Muito bem. Nunca desafina. Ela tem ouvido quase absoluto. Ela é música em estado quântico.

 

11 - Se quiser conviver apropriadamente com ela, acostume-se com os medos que ela preserva. Não zombe deles. Ela tem medo de água, qualquer água, portanto até cruzar pontes é fonte de angústia para ela. Evite travessias pelo Ferry Boat. Cruzeiro marítimo, nem pensar. Uma gôndola pode ser uma exceção. Proteja-a com um abraço envolvente na eventualidade de soar um ameaçador e mortal trovão, ou seja, qualquer trovoadazinha. Poste-se, interponha-se heroicamente e de imediato no caminho que qualquer coisa viva ou inanimada que entre voando em sua casa. A calamidade das calamidades para ela é a barata voadora (e também a rastejante). Sua atitude máscula, destemida e exterminadora de insetos desorientados e inoportunos a acalmará um pouco nesses momentos, mas nunca abolirá o medo dela. Não se ofenda nem se sinta diminuído com isso. Use a crise como oportunidade de demonstrar uma das suas poucas reais utilidades na vida dela.

 

12 - Se você não quiser ter confrontos religiosos com ela, é bom saber que ela é católica. É um tipo diferente de católica, para quem a Santíssima Trindade é composta, mais ou menos em ordem variável de importância, por São Francisco de Assis, pelo Papa e por Jesus. Um segundo escalão de devoção é formado por Santo Antonio e pelas Nossas Senhoras de todas as denominações. Deus, para ela, é algo meio distante e inacessível - mais uma ideia assustadora e remota do que necessariamente um ser supremo acolhedor. Ela está bastante confortável com essa concepção teológica tão particular - os deuses dela são ou foram pessoas de carne e osso. Por isso, nunca tente questionar, desmerecer, desafiar ou menosprezar a Santíssima Trindade dela, as divindades e santidades de todos os escalões ou a instituição que as abriga. Evite, na medida do impossível, tentar entender o que difere isso do politeísmo – nem mencione essa possibilidade interpretativa. Se isso, inadvertidamente, acontecer, você terá seu intelecto e reputação como Homo sapiens arrasados. Sem falar nas consequências imediatas e remotas no seu cotidiano. Lembre-se sempre do “me aguarde”.

 

13 - Se você é muito exigente com controle orçamentário, planejamento e racionalização de despesas, gastos no cartão de crédito, uso do limite de crédito no banco, você está no caminho certo – vai ter que fazer isso por sua própria conta e com a sua própria parte dos recursos comuns ao casal. Ela não é Maria da Conceição Tavares nem conselheira econômica do Fantástico. Ela deverá ter a liberdade de fazer tudo aquilo que você julga economicamente temerário. Para ela o céu é o limite e você terá que lhe oferecer o céu. Sem estresse, então.

 

14 - Se você quiser viajar para conhecer o mundo com ela, pode ir arrumando a bagagem. Ela topa ir para qualquer lugar com você, desde que seja para a Itália. Nesse “qualquer lugar” também não estão incluídos ou estão liminarmente excluídos os paraísos tropicais, redutos naturais e trilhas ecológicas, claro (ela odeia mato, bicho, mar, sol - “a bola de fogo”, Natureza, essas coisas hostis; ela gosta é de concreto e de ruínas romanas, gregas e etruscas). Paris, Londres, Madri, Berlim serão perfeitamente suportados por ela, desde que o itinerário inclua a Itália em algum momento. Não se assuste se a avaliação dos países e cidades não italianos for mais negativa do que mereceriam ou se o humor dela não se mostrar tão bom durante a estadia nesses locais. Quando a imagem da paisagem italiana surgir e a primeira palavra nesse idioma for pronunciada por um cameriere num restaurante qualquer, você verá brilhar o sol da Toscana na sorridente face dela, seja dia, seja noite. Qualquer comida italiana elevará o humor dela, seja no cardápio, no prato, no garfo ou na memória. Beba com ela o vinho da casa ou um Chianti e desfrute dos melhores momentos que os seus cigarros podem proporcionar. E não se esqueça nunca dos minutos de êxtase que transparecem do rosto dela ao degustar o tiramisu do Il Bargello, em Florença. Repetir essa experiência é uma necessidade à qual você desejará se submeter repetidas vezes ao longo dos anos em que estiver ao lado dela. Mas lembre-se que o Il Bargello costuma ficar fechado no mês de Fevereiro, logo... Visitas a Roma e Veneza a qualquer tempo podem suprir razoavelmente a falta desse tiramisu. Mas prepare-se para percorrer detalhadamente todas as igrejas e templos construídos nesses locais desde que os etruscos começaram a empilhar pedregulhos. Dê-se por satisfeito de ser liberado da penitência de subir a Scalinata Santa de joelhos e, ao vê-la genuflexa e contrita vencendo os degraus um a um, resista ao desejo herético de tomá-la nos braços e conduzi-la escada acima. Mas fique de joelhos pelo menos no Vaticano e agradeça por ela estar ali ao seu lado.

 

15 - Se você quiser ter uma companheira fiel, maternal, amorosa, culta, politizada, entendedora de futebol entre muitos outros esportes, inteligentíssima, sensual, lindíssima e ficar casado com ela por trinta anos e mais trinta e mais trinta, não seja burro: ame-a sempre, deixe ela e não a deixe jamais!



Eu tenho feito isso, mas ainda não sei se é o bastante.




Salvador, 27 de setembro de 2010.