sábado, 13 de agosto de 2011

O Ato Falho


José Roberto Tolentino - ecbahia.com

O Ato Falho
22/03/2005

Por instantes, breves instantes, cheguei a me confundir ao ver na grade de programação do pay-per-view da TV por assinatura o anúncio do jogo entre Bahia e Fluminense de Feira: pensei tratar-se do Fluminense do Rio, mas logo caí na real. Responsabilizei a similaridade dos escudos, para justificar esse meu lapso que foi corrigido logo que percebi efes demais no escudo do time homônimo do sertão.

Dizem que o desejo do inconsciente se realiza através do “ato falho” e que nenhuma palavra, gesto ou pensamento aparentemente equivocado ocorre por acaso - pelo menos é o que suponho de cá de baixo da minha leiga ignorância em Psicologia. Aliás, essa coisa de pecar por pensamentos, palavras e obras é a base da nossa formação (repressão) moral cristã (para os que a seguem) e sempre me atemorizou essa idéia de pecar por “pensamentos”, mas nem por isso me tornei um modelo de virtude interior e, recidivantemente, as coisas mais escabrosas continuam perpassando “minha pobre mente conturbada” - devo aqui creditar à minha mulher essa última expressão.

Pois não é que, com essa mania de ficar analisando esses atos falhos, eu cheguei a uma explicação razoavelmente plausível para o que eu referi acima? A resposta é uma só, meus amigos: nostalgia. Pura e doce nostalgia. Não foi por acaso que confundi um Flu com o outro. E a culpa é de Nestor. Não é aquele da letra de “Tu és o MDC da minha vida” , de Raul Seixas (...na Faculdade de Agronomia/ numa aula de energia, bem em frente ao professor/ eu tive um chilique desgraçado/ vi você surgindo ao meu lado/ no caderno do colega Nestor...); o Nestor em questão é o bravo e competente jornalista Nestor Mendes Jr., companheiro de coluna aqui no ecbahia e autor de Bahia Esporte Clube da Felicidade, livro que só não pode ser chamado de obra definitiva porque o Bahia não acabou (ainda).

Foi me deleitando e fazendo mais uma releitura do livro, essa semana, que me detive na narrativa do jogo entre Bahia e Flu do Rio, na semifinal do Campeonato Nacional de 1988 (já em 89). Aí, tudo o que aconteceu naquele histórico dia me reapareceu na memória, nos sentidos e nas secreções lacrimais.

Eu estava lá. Parece que todo o mundo estava lá. Cheguei bem cedo para evitar engarrafamentos e confusões, estacionei meu Passat 76 Missão Impossível (esse carro se autodestruirá em 5 segundos) na Rua da Independência, já pensando em ter, na volta, a minha saída facilitada pela Mouraria, Rua do Paraíso e alcançando a Avenida Sete. Deixei o carro com a certeza que a sua aparência era o melhor seguro contra roubos existente no mercado. A experiência de chegar até o estádio já foi comparável ao espreme-gato que se experimenta quando se tenta passar pela pipoca do Chiclete. Ao entrar na Fonte percebi um incrível número de pessoas tão precavidas quanto eu me supunha. A zorra já estava lotada - para os parâmetros dos clássicos regionais, por exemplo.

A duras penas consegui assento no meu sítio costumeiro de então – arquibancada superior, à direita da tribuna, num local que fizesse uma linha reta, uma diagonal perfeita, entre a bandeirinha de escanteio e o vértice da linha divisória com a lateral lá do lado das antigas gerais. Esse posicionamento era absolutamente essencial para que as coisas caminhassem bem dentro de campo. Com o passar do tempo, o aperto começou a se intensificar e meus dois irmãos Lu e Júnior, que estavam ao meu lado, já se encontravam quase sobre meu colo e as minhas pernas foram sendo obrigadas a se fechar, comprimindo as minhas partes baixas e colocando em risco a minha produção de espermatozóides confiáveis.

Como se fosse possível, no momento em que o Bahia entrou em campo e todo o mundo levantou para saudar o time (exceto eu, pra garantir meu lugar e para tentar me precaver dos fogos que a Torcida Povão soltava), apareceu mais uma enxurrada de gente querendo ocupar espaço ali e alhures. Fui então designado pelo destino para acolher dois bêbados à milanesa (cobertos de areia) no espaço da arquibancada destinado a colocarmos os pés. Um deles, o de maior massa adiposa, desabou literalmente sobre minhas Havaianas e sucumbiu ao sono ou ao coma. O outro, aparentemente menos embriagado ou mais resistente, ficou abaixado, mas dando cotovelada e apoiando-se nos meus joelhos, insistindo em levantar-se continuamente. – Peraí, meu irmão! Abaixa aê, caraio! Eu já não estava conseguindo ver porríssima nenhuma. Aí o Fluminense faz seu primeiro ataque e... gol de Washington! Foi o maior silêncio já havido até hoje na Fonte Nova. O bêbado que estava comatoso reagiu ao gol vomitando todas as batidas de Diolino e todos os pedaços de comeu-morreu que havia ingerido até então.

Retei-me! Qualquer cientista do Projeto Genoma e qualquer estafeta cartesiano sabe sobejamente que dá o maior azar assistir a um jogo ao lado de um torcedor adversário, ao lado de uma mulher que não entenda de futebol ou do lado de um bêbado. Eu estava do lado de dois! O Bahia estava perdendo e os meus pés estavam sendo digeridos pelo suco gástrico daquele peru de Natal escornado à minha frente. Avisei a meus irmãos: - Vou me picar daqui! Na saída a gente se encontra lá onde deixei o Missão Impossível.

Enquanto ia me deslocando, ouvi uns insultos previsíveis, esquivei-me de umas caras feias, mas depois de 10 minutos consegui alcançar a escada para sair dali. O peso no peito que eu estava sentindo e que reconhecia como prenúncio de tragédia foi aos poucos me abandonando. Mas o jogo já transcorria há uns 15 minutos e eu não estava conseguindo ver nada. Tentei encontrar um lugar em cima do placar: nem uma fresta do gramado era possível ser vista. Fui tentar acesso na arquibancada superior do outro lado: não passava nem um átomo de hidrogênio. Desci e fui em direção às antigas gerais e, talvez, por ainda estar batendo sol, achei uma gretinha suficiente pra ver Tarantini se preparando para cobrar um falta pela direita. A bola saiu teleguiada para a cabeça de Bobô e daí para o nosso gol de empate. Como eu estava bem atrás da aglomeração de torcedores que assistiam ao jogo naquele local, saí correndo mais para trás, gritando e pulando sozinho até que fui alcançado e abraçado efusivamente por outros torcedores com os quais dividia naquele momento muito mais que um recíproco desconhecimento – um simultâneo frenesi.

Findo o primeiro tempo, achei que finalmente sobraria um espaço deixado por aqueles que iriam para os bares e para os temíveis sanitários da Fonte. Fui tentar um lugar na arquibancada imediatamente inferior àquela em que me instalei inicialmente, no intuito de encontrar um posicionamento que fizesse a imprescindível diagonal com a bandeirinha de escanteio e o vértice da linha de meio de campo. Pouquíssima gente arredou pé de onde estava. Percebi que minha capacidade preditiva estava em seus piores dias e que a minha via crucis iria continuar. O único posicionamento que se mostrou possível e disponível foi o da parte posterior daqueles longos bancos de cimento que ficam na parte superior da arquibancada (se é que me faço entender). O jogo recomeça e o Bahia vai pra cima do Flu. A torcida sente o ânimo do time e vai se inflando ainda mais. Em pé na pontinha do banco de concreto, fila dupla na minha frente, segurando por vezes no ombro de alguém para não cair, meu equilíbrio era precário. E de repente uma jogada de Charles pela direita, um bate-rebate, um petardo para o gol. Valeu? Quem foi que fez? Foi Gil? Foi Bobô? Nada disso interessa: é gol! É gol do Bahia! É o gol da virada! Bora Baêa, minha porra! O grito de gol veio tão das entranhas que, se fosse mulher, eu diria que foi um grito uterino. Dessa vez a comemoração com os confrades circunstantes foi tão efusiva que, por pouco, eu teria sido vítima ali de uma precoce palpação da próstata.

Era a materialização da força desse time predestinado e dessa torcida tão compreensivelmente fiel e arrebatadora. Os nossos meninos continuavam dando sangue em campo e ataques se sucediam. Eu continuava praticando equilibrismo no banco de cimento e, num momento em que Gil quase marca o terceiro, o pessoal que estava na minha frente se agitou e eu me descuidei, pisando o espaço vazio como se fora uma extensão do banco e acabei caindo, não sem antes pisar em falso no chão e ouvir um estalo no tornozelo. A dor era insuportável e eu comecei a sentir tonturas e a suar frio, deitei-me no chão para oxigenar melhor o cérebro e não perder totalmente os sentidos. Enquanto me contorcia e suava profusamente, a baiana do acarajé que estava logo atrás, achando que aquilo era emoção por causa do jogo, procurava me consolar dizendo: - Fique assim não, meu filho! O Bahia vai ganhar! Se preocupe não! Santa baiana do acarajé: ela me trouxe de volta da dor para o júbilo. O Bahia estava ganhando. O Bahia ia para a final. Já estaria na Libertadores após aquele triunfo. Aos diabos com a dor. Aquele pé-de-pilão que eu exibia e que latejava não era nada. O que importava era o Bahia e o Bahia ainda precisava da minha ajuda: Bora Baêa, minha porra!

Não sei mais o que aconteceu no campo até o fim do jogo. Só lembro de ver o placar estampando 113 mil pagantes, número que tempos depois foi reduzido para 110 mil e poucos. Mas foi muito mais. Creio que todas as boas almas da Bahia estavam lá na Fonte nesse dia, de alguma forma. O jogo acabou e parecia que ninguém queira sair do estádio. Todos pretendiam eternizar aquele momento.

O meu pé continuava inchando e doendo. Comecei a chorar, mas não por causa dor, com a qual já estava de alguma forma me acostumando: é que lembrei do meu pai. Ele, que morrera havia alguns anos. Ele que me influenciou a torcer inicialmente para esse mesmo Fluminense do Rio que acabáramos de derrotar e que depois me ensinou a torcer ainda mais pelo Bahia, justo em 1966, quando o Leônico foi campeão. Ele, o Expedicionário Miguel Tolentino, ex-combatente da FEB no teatro de operações na Itália, durante a II Guerra, que participou de inúmeras batalhas e foi ferido por uma mina terrestre alemã na mesma parte do corpo que agora latejava em mim. Ele que, estando internado na Santa Casa em Nazaré das Farinhas, hemiplégico e convalescendo do terceiro derrame cerebral, pediu para ser levado de ambulância numa maca até a sua sessão eleitoral só para poder votar em Paulo Maracajá para deputado estadual e ajudar, segundo ele acreditava, o nosso Bahia. Ele não viveu para ver o que eu via. Eu não podia abraçá-lo apertada e demoradamente naquela hora e permanecer esses longos segundos sem dizer uma palavra sequer um para o outro, mas falando tudo o que palavras falham em expressar. Ele não estava ali. Ou será que aquela pontada no meu pé era mais do que um simples sintoma da lesão que eu sofrera? Coincidências, amigos... apenas coincidências.

Não me perguntem como foi que eu cheguei sem ajuda de volta ao meu carro. Não lembro. Só não pensem que saí dali para uma clínica traumatológica. Eu e meus irmãos fomos foi pra Barra. E parece que, novamente, toda a nossa Soterópolis teve a mesma idéia. Sem acerto prévio, armou-se o maior carnaval nos bares da proximidade do Farol. A trilha sonora consistia basicamente do Hino do Bahia e da música Campeão dos Campeões. E a cada repetição dessas músicas, os primeiros acordes pareciam algo totalmente inédito e a euforia tomava conta de todo o mundo. Eu estava feliz. Todos estavam. É fato conhecido que Salvador fica mais luminosa quando o Bahia ganha, ainda mais naquelas circunstâncias. No dia seguinte eu já tinha um álibi para faltar ao trabalho: meu pé, imensamente edemaciado, que num ato falho saltou no vazio para me trazer a dor e a alegria de novamente juntar meu pai e o Bahia.




segunda-feira, 4 de abril de 2011

A Ciência da Superstição (final) ou Meu Pequeno Ego (José Roberto Tolentino) // ecbahia.com

http://www.ecbahia.com/coluna/a_ciencia_da_supersticao_final_ou_meu_pequeno_ego
Uma das colunas que publicava irregularmente no site ecbahia.com

15/11/2020

Olá a todos! Estou de volta, para desagrado de alguns poucos (assim espero). A minha última aparição aqui neste espaço se deu em maio de 2010. À época eu era um sorumbático cronista de Série B. Convenhamos que isso não estava à altura da minha estatura.

Eu comecei a escrever aqui para o ecbahia.com em março de 2005 e, desde então, só tinha enfrentado a árdua missão de comentar a trajetória do glorioso tricolor, esquadrão de aço, meu Bahêa nessa porra, em competições nacionais da Série B e “Cerei” C e Série B de novo.  Enchi o saco desse negócio.

E, não menos importante, achei que eu era o culpado pelo fato de o Bahia não estar ainda na Série A. Afinal, cinco anos escrevendo, dando pitacos, criticando, apontando equívocos, dando sugestões e nada! Só havia uma explicação: era eu quem estava pesando. Era preciso aliviar essa carga para o Bahia subir.  Eu sou bastante modesto, como se pode ver, mas tinha que aceitar esse fato irrecorrível – parei de escrever. Se eu já me constituía num conselheiro consultivo que não era consultado, então deveria ser também um escritor que não era escriturado.

E qual foi o resultado? Hein? Hein? O primeiro resultado prático foi a saída do técnico morubixaba, mantido no cargo mesmo depois de perder um Campeonato Baiano praticamente ganho! Renato Gaúcho foi tomar o seu mate nos pampas e por lá se tem dado muito bem, mas por aqui iria azedar nosso caruru com certeza. Ponto pra mim. Comemorei silenciosamente. Fãs de ambos os gêneros (mais de um do que outro) lamentaram. Em vão.

A notícia da contratação do desconhecido técnico Márcio Araújo me causou uma certa rejeição inicial, pois eu achei que era aquele Márcio Bittencourt, um meio gazo, que treinou o Ipatinga este ano nos 02 minutos protocolares para um técnico naquele time. Desfeita essa minha confusão, o descontentamento continuou quando ele manteve no primeiro jogo o mesmo time e postura que eram adotados por Renato Gaúcho. Tomamos um cacete feio do Coritiba, jogando em Joinville, e nem vimos a cor da bola. Aquilo me deixou abalado no que tange à eficácia da minha estratégia de silêncio.

Mas seria o Benedito? Sim, seria. Seria o benedito etimológico – bendito!  O “Pastor” Márcio Araújo entre uma renitente piscada de olho e outra, com sua fala mansa de lullaby budista, com a sua prática revolucionária de treinar tática e tecnicamente o elenco, em vez de fazer só baba, foi dando uma face reconhecível ao time. Os resultados começaram a aparecer. Mais pontos pra mim. Comecei a coçar os dedos para escrever umas observações, mas me contive muito relutantemente.

Resumindo a história: minha estratégia se revelou cientificamente verdadeira por comprovação inequívoca de sua eficácia.  Descobri que, se no Jogo do Bicho vale o que está escrito, para erguer o Bahia vale não escrever.

Há alguns anos eu escrevi aqui uma crônica intitulada “A Ciência da Superstição – Parte 1” e nunca escrevi a parte 2, nem epílogo, nem zorra nenhuma. Pois aí está: depois de ter comprovado que minha bermuda da Mesbla, meu rádio sempre com as mesmas pilhas recarregadas no congelador e minha imobilidade na posição em que me encontrava no momento de um gol eram fatores decisivos para os triunfos do Bahia, cheguei à ultimate top infalível atitude para garantir o sucessivo sucesso do tricolor rumo à primeirona – a mudez escrita ou, atualizando, estratégia Tiririca, o deputado. Foi só não escrever nada e pronto.

Em que outra circunstância vocês acham que o Bahia iria ganhar fora de casa da Ponte, da Lusa, do Sport (sem 15 dos nossos titulares)? Não acharam estranho? Pois é: fui eu. Quer dizer, não fui eu, foi o não-eu, foi minha omissão, minha abstinência, meu celibato literário.

Em minha franciscana humildade, não estou esperando nenhum reconhecimento público do meu gesto de renúncia, de auto-anulação. Já estou me sentindo bem demais com o acesso e não acho necessário que me chamem para entrevistas, bocas-livres, placas comemorativas ou quaisquer outras homenagens. Só espero da diretoria é que me avise se vai fazer um time meia-boca em 2011, pois aí, em vez de ficar sem escrever, eu vou ter que aprender umas palavras e palavrões novos.

***

Interessante como o choro esteve presente nesse momento do acesso do Bahia à Série A. Na verdade, a trajetória do Bahia nesse longo calvário tem como marco inicial o choro convulsivo e sincero do goleiro William Andem, em 97, depois do jogo contra o Juventude, e espero que o tocante choro de Ávine no último sábado seja o marco final nessa história lacrimogênea.

Precisamos voltar a rir, a gritar, a uivar, sei lá. Negócio de chorar, rapaz... Seja homem! No primeiro gol de Adriano nesse jogo contra a Lusa eu, em vez de gritar gol, fui olhar pra cima, pro céu, pensei em meu pai... e chorei. Ele foi um pai Série A.


segunda-feira, 8 de dezembro de 2008

Paródias Diversas

Textos de algumas paródias que fiz e que ainda restaram razoavelmente intactas na memória. Sabe quando você ouve o trecho de uma música como "...ficar como eu fiquei / cada vez mais sentimental..." e a sua cabeça fica repetindo "... fumar como eu fumei / cada vez mais Continental.."? Sabe não? Pois é: comigo acontecia frequentemente. E aí, para acabar com esse abuso, eu tratava logo de fazer uma paródia completa da música para me livrar das alucinações auditivas. Coisa de maluco, mesmo!
Para acessar, clicar no arquivo em pdf.
Attachment: Paródias.pdf

sábado, 2 de agosto de 2008

Amores e Humores (poesias)

Arquivo em pdf com coletânea de poesias que fiz desde década de 1970. Contém comentários explicativos ao fim de uma boa parte dos poemas.
Já está em formato de livro, mas ainda é uma obra aberta - embora eu não venha mais escrevendo poesia ultimamente. Foi inicialmente impresso e publicado em 1993. Posteriormente foram adicionados poemas escritos após o lançamento do livro.

O poema "Olhar de Ontem" foi premiado com o primeiro lugar no 10o Concurso de Poesias do SESI, realizado em 01/08/2008. O poema "Papel de Pedra" também foi classificado entre os 15 finalistas, mas só ganhou uma menção honrosa que Mabel Veloso (da comissão julgadora) me fez em particular, dizendo que em sua opinião os meus dois poemas deveriam ter sido premiados entre os 3 primeiros. Ambos foram publicados em 2009 pelo SESI no livro Antologia Poética do Trabalhador da Indústria, que reuniu os poemas vencedores dos últimos anos e os finalistas de 2008. Não gostei muito das ilustrações feitas para os meus poemas nesse livro. - achei pouco criativas; feias mesmo. Mas, enfim, agora é tarde! Tenho que me conformar.
Attachment: Amores e Humores.pdf

sábado, 5 de janeiro de 2008

Pobreza Franciscana



Pobreza Franciscana

Não é que eu seja supersticioso ou místico. Mas digamos que eu saiba me render às evidências. Que saiba distinguir o que sejam sinais inequívocos. Perceber rastros nas nuvens.

Esse vago preâmbulo é para introduzir uma história que, possivelmente, levará os que me lêem a duvidar da minha já precária sanidade mental. A história é longa e com desdobramentos, mas eu vou tentar dar uma resumida para caber aqui no exíguo espaço que me cabe nesse hiperespaço e com o qual tenho que me dar por satisfeito (e já estou desperdiçando preciosas linhas com essas tergiversações).

Pelo título, os mais atentos já devem ter concluído que vou falar de São Francisco (de Assis) e, por conseqüência, de pobreza ou carência de bens materiais - para ser mais exato.

Meu primeiro encontro cara a cara com São Francisco foi no filme Irmão Sol, Irmã Lua. Fiquei totalmente fascinado com aquele pequeno grande homem, embora não possa negar que, estando em pleno exercício dos estímulos hormonais da puberdade, tenha-me deixado fascinar também pela atriz que interpretava Santa Clara, uma lourinha linda, com uns olhos luminosos e que... bom, é melhor deixar pra lá! Nesse filme, uma das imagens mais marcantes é quando Francisco se despoja de suas roupas e sai nuzinho da silva da casa do pai, que era um rico comerciante, para ilustrar a sua decisão de se desapegar das riquezas e passar a viver dando valor às coisas simples, dedicando-se a ajudar e exaltar os mais humildes, conforme conteúdo das famosas palavras de Jesus no Sermão da Montanha.

Sob uma perspectiva psiquiátrica atual e também na opinião dos contemporâneos de então, Francisco havia pirado total! Ouvia vozes e, numa dessas revelações, consta ter ouvido Jesus lhe pedindo para reconstruir Sua igreja. Entendeu ao pé da letra: passou a efetuar o reerguimento, pedra por pedra, de uma pequena igreja que ficava numa planície logo abaixo de Assis. Começaram a aparecer adeptos daquele estilo de vida paleohippie e algum tempo depois foi criada a Ordem dos Franciscanos, cujo lema é “Paz e Bem” e que tinha horror a bens. Os únicos pertences possíveis eram as sandálias e o hábito, que, nesse caso, faziam o monge.

Quando era estudante de medicina, meu primeiro trabalho remunerado foi no Retiro de São Francisco, atendendo aos pobres das redondezas. Quis o destino que a mulher que escolhi para namorar, noivar, casar e apoquentar, fosse uma devota de São Francisco. Achei legal a devoção, a princípio. Ainda namorados, ambos fizemos “Cursilho” da Igreja no mesmo Retiro de São Francisco. E tudo era uma maravilha. Casamos. Eu estava ainda no quinto ano da faculdade. O dinheiro era pouco, mas o fogo era muito. Eu e ela no apartamento quarto e sala reversível para kitchenette, jogando soltos, até o dia em que ela foi buscar a imagem do dito santo que ficara na casa de sua mãe, ali mesmo no Largo Dois de Julho. Passamos a ser três. Mas não por muito tempo. Logo minha irmã veio do interior para morar em Salvador e a instalamos no sofanete da sala do microapartamento.  

A situação começou a ficar apertada e não só no aspecto físico. A comida começou a ser disputada na base das artes marciais. Para testar a minha devoção, só pode ter sido isso, meu irmão, que trabalhava num banco no Campo Grande e morava num pensionato nas minhas proximidades, também decidiu acorrer de vez em quando ao meu apartamento para fazer uma boquinha na hora do almoço. A luta pelas migalhas tornou-se acirrada. Como ainda não era o apocalipse, o porteiro descobriu os dons filantrópicos de minha mulher e passou a aparecer com cara de pidão e uma marmita vazia nessas mesmas horas estratégicas. Mas aí, finalmente, chegou o Armagedom, o tsunami, as dez pragas do Egito: os parentes próximos e distantes do interior, os conhecidos acompanhados de desconhecidos, que vinham enfrentar a fila do INPS da Rua Carlos Gomes, resolveram dar o ar da graça. Deviam achar que eu estava em vias de me candidatar a algum cargo político ou que meu apartamento era um albergue do Caminho de Santiago. Chegavam em romaria. Incessante. Uma “comovente” peregrinação. Interminável. Pensei em estabelecer um sistema de cotas raciais ou de senhas para ingresso ao recinto e usufruto de repasto. Desisti, porque não teria dinheiro nem para o papel onde escreveria os números.

Num desses dias em que eu ficara em jejum involuntário para atender à demanda nutricional dos visitantes, fui até o quarto e olhei com um jeito pouco amistoso para a imagem de São Francisco que pousava placidamente sobre a cômoda. Pensei comigo e com esperança que ele estivesse ouvindo meus pensamentos: “Isso já passou dos limites! Essa imagem é que está atraindo esse meu estado de penúria”. Comuniquei minha dedução lógica à minha mulher. Ela me olhou consternada, com cara de quem estava perdendo o marido para o manicômio e, numa desesperada tentativa de me salvar, acatou a minha decisão de exilar a imagem. Foi devidamente devolvida à casa da minha sogra, em cortejo solene.

Minha sogra estava vivendo razoavelmente bem com a pensão que meu sogro recebia. Era a minha tábua de salvação quando eu me via ameaçado pelo escorbuto, beribéri e inanição. Quebrava o meu galho com umas comidinhas deliciosas e mesmo com uns empréstimos monetários, quando não chegava a ser doação mesmo. Pouco tempo depois de receber o santo de volta, a situação começou a se inverter completamente: a pensão do meu sogro ficou congelada, sem aumento para acompanhar a inflação, e eu comecei a me recuperar daqueles percalços que eu imputava à presença do São Francisco (para mim, já sem sombra de dúvidas, um gigantesco imã para atrair pobreza). Quando eu revelei à minha sogra essa minha suspeita, ou total certeza - advinda dos fatos -, ela não teve dúvidas: vestiu a roupa de ir à missa, embrulhou a imagem e rumou para uma igrejinha próxima onde, furtivamente, deixou a imagem num altar lateral. Ficou ainda por instantes na igreja e viu que uma beata se apoderara da imagem e a levara. Não sei o destino dessa pobre criatura, mas minha sogra, a partir de então, voltou a prosperar.

Consegui comprar um apartamento pelo Sistema Financeiro da Habitação (bem longe do posto do INSS). Na época já estava com dois filhos e às vésperas do terceiro. Sentindo-me seguro e confiante diante da nova situação financeira, nem me abalei quando minha comadre deu de presente à minha mulher uma imagem, de cerâmica de Caruaru, com a representação do que parecia ser São Francisco, portando umas toscas pombas de barro nos ombros. Deduzi que era totalmente inofensiva, porque só com muito boa vontade para ver o santo ali: para mim era um baixinho barbudo, com roupão de banho, cheio de passarinhos. Passou algum tempo e minha mulher foi parir. O obstetra e o pediatra que eram  amigos, além de colegas, não cobraram honorários. Mas o anestesista não aliviou. O baque foi acrescido pela conta das diárias da maternidade. Tive que optar entre as prestações do apartamento e o pagamento dessas contas. Resultado: fiquei inadimplente com a empresa de crédito imobiliário. Meu nome acabou saindo no jornal na longa lista dos caloteiros e vieram as ameaças de ter o apartamento tomado e leiloado caso não quitasse a dívida, que já era bem volumosa àquela altura. Fui até o Comércio, na sede do grande banco baiano que era proprietário da “Caderneta de Poupança dos três sacis”, para negociar a dívida. Na ante-sala da diretoria vi algo bastante preocupante: uma gigantesca imagem de São Francisco! Os mais velhos devem saber exatamente o que aconteceu a essas instituições financeiras. Eu tenho certeza que não contribuí para a falência delas, porque tive que vender alguns pertences e raspar o tacho para quitar o débito. Mas aquela imagem lá... sei não!

A vida seguia apertada. As contas dos cartões Mesbla, Sandiz e Hiper, cada vez mais impagáveis. Certo dia, enquanto eu tinha uma crise de riso nervoso diante dos formulários do Imposto de Renda e dos carnês do Crédito Educativo, minha visão focalizou a imagem de barro do pretenso São Francisco, que sobrevivia impávida ao lado da minha cama. Num impulso rápido o suficiente para não retroceder diante das possíveis conseqüências, peguei a imagem e a arremessei pela janela. A intenção era que ela se espatifasse no estacionamento do Centro Médico vizinho ao meu prédio. Acreditem: a dita cuja aterrissou caprichosamente em meio às plantas ornamentais de um canteiro suspenso do Centro Médico. Confesso que fiquei aliviado. Quem sabe que pragas outras poderiam se abater sobre mim com aquele santo de barro multiplicado em dezenas de pedaços nas minhas cercanias. O referido prédio do Centro Médico estava sendo pintado na lateral e o trabalho já havia avançado até a metade. A obra foi paralisada desde então (não fiquei sabendo ao certo o porquê, mas guardava minhas suspeitas). O prédio ficou com duas cores (branco gelo e acinzentado mofado), e assim permaneceu por vários anos. A agência bancária que havia lá também passou a ser vítima de seguidos assaltos. “Coincidentemente”, o trabalho de pintura recomeçou e foi finalizado quando, anos depois, o canteiro suspenso foi cimentado para ser colocada uma grade. Os assaltos à agência bancária já haviam parado de ocorrer pela simples razão de que ela não resistira e houvera sido fechada meses antes de a imagem ser finalmente retirada.

A minha vida foi melhorando e consegui comprar uma casa de praia em Arembepe.  Passei a freqüentar um barzinho do qual eram fregueses alguns amigos meus que já tinham casa de veraneio lá. O nome do bar escrito na parede era um, mas na nota fiscal o nome era Bar e Restaurante São Francisco! Já fiquei com a pulga atrás da orelha. Adivinhem quem é o padroeiro daquela aprazível localidade? Pois é: ele mesmo. A descoberta deu-se assim que houve uma tempestade, acompanhada de uma terrível ressaca no mar, e a igrejinha foi seriamente danificada. Obviamente bateram à minha porta para pedir donativos destinados à reconstrução. Contribuí relutantemente com o Livro de Ouro, mas minha mulher se empenhou bastante, comprou milhares de bilhetes de rifas, Raid das Moças, pagou dízimos, deu óbolos, quase a ponto de dilapidar nosso claudicante patrimônio. A igreja foi finalmente reconstruída e milagrosamente está lá de pé até o momento. Mas tive que contribuir também com uma cota substancial para a reforma do bar, que estava aos pedaços. Para tanto, lancei mão do dinheiro que estava juntando para reformas na minha própria casa. O Bar São Francisco era mais importante. Quando contei ao proprietário os meus delírios a respeito da pobreza franciscana, ele, mais que depressa, mudou o nome do bar. Vai bem, obrigado.

Fiz minha primeira viagem à Europa e fui direto conhecer a Itália. Como não podia deixar de ser, o roteiro incluía a cidade de Assis. A primeira atração turística que conheci foi a Igreja de Santa Maria degli Angeli, construída para englobar a igrejinha da Porciúncula, uma das que São Francisco reconstruiu com suas próprias mãos. Enquanto minha mulher ficava lá em interminável genuflexão rezando, persignando-se e chorando emocionada, eu fui dar uma volta no interior da igreja e vi uma seta indicando o “Roseiral”. Fui seguindo as indicações que me guiavam num labirinto de rampas descendentes e sentindo cada vez mais forte um perfume intenso de rosas. Fiquei imaginando o tamanho desse “Roseiral” e a quantidade e diversidade de flores que ia encontrar. Finalmente me deparei com um amplo espaço que se abria para o céu e continha inúmeras leiras vazias – uma pobreza!. No meio desse jardim apenas uma única rosa. Imensa, sem espinhos. Fiquei arrepiado com aquele negócio. Que rosa era aquela? Li numa placa que aquela rosa só dava ali. Não sei se é mesmo verdade, mas até hoje não encontrei explicação plausível para explicar a intensidade do odor de rosas que me atingiu tão longe e que exalava desse único exemplar. Esse São Francisco realmente adora me pregar peças e me por à prova - pensei, enquanto enxugava minhas lágrimas. Meses depois do meu regresso, houve um intenso terremoto na Úmbria, sacudindo Assis, e essa igreja parece ter sido duramente atingida, pois até hoje não tenho notícia de sua reabertura ao público.* Será que...? Hum... Não. Acho que não!

Fui enviado para fazer um curso de medicina do trabalho** nos Estados Unidos. Relutei bastante ao saber que o local seria a cidade de San Francisco, Califórnia. Não bastasse o meu histórico de relações tumultuadas com o santo em questão, meus remotos conhecimentos de geografia ginasial me davam conta que essa cidade fica em cima da famosa “falha de Santo André” - que é um miserê geológico responsável pela frenética atividade e instabilidade sísmicas daquela região. Já houvera um terremoto bem razoável no início do século XX e todo o mundo sabe que, a qualquer momento, lá vai ocorrer um graúdão já chamado previamente de Big One. Entretanto, enchi-me de coragem e de argumentos lógicos, estatísticos e científicos, para desconsiderar totalmente a hipótese de ser brindado com essa “graça”. Passei a nem cogitar a possibilidade de um tremorzinho tipo Very Small One. Sou homem e não um saco de pipocas! E aquele povo todo mora lá em San Francisco numa boa (em vários sentidos), é uma Salvador sem favelas, teve o flower power ("if you're going to San Francisco, be sure to wear some flowers in your hair"), não vai acontecer nada de desastroso.

Num belo dia, num dos intervalos do curso, subi até o meu quarto no hotel e fui ao banheiro. Quando estava sentado na privada cantando I left my heart in San Francisco e deixando lá algo além do meu coração, senti a porta entreaberta começar a tremer. Começou e continuou tremendo. Mudei logo de música para Put the blame on Mame. Eu ainda não me encontrava nas condições higiênicas ideais para me desvencilhar imediatamente do vaso. Hoje eu tenho consciência que aquilo durou apenas alguns segundos, mas pareceu tempo suficiente para ver o filme da minha vida, cuja cena final incluía um grupo de buscas, chefiado por aquele bombeiro mexicano que pinta em tudo que é terremoto, me encontrando nos escombros com minhas calças na mão e o traseiro encravado na privada. Não era o fim mais digno que eu poderia esperar para a minha existência fugaz e nada marcante neste planeta. Graças a São Francisco que, creio, bateu um papo com Santo André pedindo para estabilizar a falha e ter misericórdia para com aquele pobre pecador em situação tão vexaminosa, fui poupado. Viva São Francisco!

* Um esclarecimento que só me foi possível fazer quando retornei a Assis em 2017 e pude revisitar a Igreja de Santa Maria degli Angeli foi que o forte cheiro de rosas que eu percebi e atribuí à única rosa que havia no roseiral era proveniente de uma fabriqueta de terços, com os "mistérios" (contas)  feitos de pétalas de rosas comprimidas, a qual parece estar estabelecida ali por perto.

** Há pouco tempo fiquei sabendo que o dia do médico do trabalho é comemorado em 04 de outubro, data de nascimento do médico italiano Bernardino Ramazzini (considerado o pai da medicina do trabalho), e esse dia, mui coincidentemente, também é o dia de São Francisco de Assis.

terça-feira, 20 de novembro de 2007

Versos da Canção


                                             
Versos da Canção

Muito já se escreveu sobre qual seria o verso ou a estrofe mais bonita, poética ou estética da Música Popular Brasileira. Até mesmo teses acadêmicas foram feitas tendo como alvo de estudo, por exemplo, as aliterações contidas na música "Januária", de Chico Buarque (Toda a gente homenageia Januária na janela).

Até a década de 1960, havia um certo consenso, por influência da opinião do poeta Manuel Bandeira, de que o verso mais bonito da MPB era "Tu pisavas nos astros, distraída", da música "Chão de Estrelas", letra de Orestes Barbosa - há quem diga que o certo é "Tu pisavas os astros, distraída". Caetano Veloso, em "Livro", vem com uma paráfrase muito boa: "Tu pisavas nos astros, desastrada". Pra quem não lembra, esses "astros"  da música original seriam o resultado de pontos de luz projetados pela Lua no chão do barraco (e olhem que a Lua "furava" o zinco do teto). Realmente é uma imagem e tanto, ainda por cima com a distração da mulher, flanando, enquanto pisoteia os pobres dos astros.

Ninguém nunca discordou muito dessa opinião, mas algumas vozes advogavam em favor dos versos "Tire o seu sorriso do caminho/ que eu quero passar com a minha dor", da música "A Flor e o Espinho", letra de Guilherme de Brito - lembram-me o primeiro carro velho que tive. Ou "Vista assim do alto/ mais parece um céu no chão", de "Sei lá, Mangueira", letra de Hermínio Bello de Carvalho, que sempre me faz questionar se é uma referência à favela vista de cima ou se ilustra a visão privilegiada da cidade que se tem a partir do morro - seja o que for, o que há no chão está muito longe de parecer um céu, seja de longe ou de perto, no meu ponto de vista. Sem esquecer da linda imagem evocada em "Asa Branca", letra de Humberto Teixeira, pelos seus famosos versos "Quando o verde dos teus óios se espaiá na prantação" - por causa disso, eu passei anos procurando uma namorada que tivesse esses olhos esmeralda com superpoderes de transformar a vegetação seca em verdejante; acabei me conformando em esverdear o mundo apenas com o uso das lentes dos meus óculos Ray-Ban (conta-se que um criativo fazendeiro nordestino utilizou-se, com sucesso, desse mesmo artifício para fazer os seus bois comerem a pastagem seca).

Entre as estrofes mais citadas como merecedoras do título de mais bela da MPB, encontra-se, indefectivelmente, aquela do compositor mangueirense Cartola, na música "As Rosas não Falam", quando diz: "Queixo-me às rosas/ mas que bobagem, as rosas não falam/ simplesmente as rosas exalam/ o perfume que roubam de ti". Eu também gosto muito dessa estrofe, principalmente porque confirma a sanidade mental do saudoso Cartola, ao constatar que os vegetais de então não tinham cordas vocais, para dizer o mínimo. No futuro, com o progresso da transgenia, quem sabe...

Em matéria de estrofes bonitas, Chico Buarque pode figurar fácil numa relação das 10 mais através de "Como, se na desordem do armário embutido/ meu paletó enlaça o teu vestido/ e o meu sapato ainda pisa no teu", da música "Eu te amo" (hino do descasamento) ou "Te perdoo porque choras/quando eu choro de rir/ te perdoo por te trair", da música "Mil Perdões" (adultério plenamente justificado). O poetinha Vinícius de Moraes também compareceria com "A felicidade é como gota de orvalho numa pétala de flor/brilha tranquila, depois, de leve, oscila/e cai como uma lágrima de amor", escrita em "A Felicidade", música que começa dizendo "Tristeza não tem fim/ Felicidade, sim" - deveria se chamar “Triste Felicidade”.

Não sei se por deformação de caráter ou por uma exasperante capacidade de perceber sutilezas insuspeitadas, mas o fato é que a minha preferência recai numa estrofe que nunca é citada pelos expertos. Para mim os versos mais significativos da MPB são: "Fui passear na roça/ encontrei Madalena sentada numa pedra/ comendo farinha seca/ olhando a produção agrícola e a pecuária", do compositor Isidoro, na música "Madalena", que alguns conhecem como “Entra em beco, sai em beco”, principalmente a nova geração que foi apresentada à musica, há uns anos, através da regravação feita por Gilberto Gil.

O fato é que enxergo inúmeras facetas nessa singela estrofe. Primeiro: “passear na roça” já me transporta para o ambiente rural, bucólico, que me é muito familiar. Era comum ir fazer um passeio na roça. Era como ir a um Shopping. Tinha muito atrativo, pelo menos pra mim. Hoje ninguém vai mais passear na roça. Todo o mundo quer é se picar da roça. No máximo, o pessoal quer mesmo é se roçar!

Mas vamos adiante para o ponto principal e nevrálgico: observem que a pobre da Madalena se encontra em pleno estado de abandono, numa solidão só comparável à solidão de Deus, sentada numa pedra e fazendo sua refeição, num cardápio composto por um único item: farinha seca! Isso é a cara da nossa gente. Se isso não bastasse, Madalena ainda está contemplando a “produção agrícola e a pecuária”! Vejam que o autor Isidoro não se utilizou da linguagem que a retratada Madalena usaria e que provavelmente seria “a prantação e os boi”. Madalena está ali olhando uma propriedade rica, produtiva e que certamente não lhe pertence. Está diante de uma fartura de alimentos enquanto come farinha seca.

Não conheço melhor síntese das nossas desigualdades. Solidarizo-me com essa coitada. Tenho a mesma sensação madalênica quando me vejo sentado diante da TV assistindo a um jogo de campeonato europeu, com times cheios de craques caríssimos, enquanto meu time aqui está na terceirona e sem dinheiro para pagar até a lavadeira. Mas isso já vai dar um outro samba.




quarta-feira, 10 de outubro de 2007

Estudo comparativo

Estudo comparativo entre uma coisa e outra, quando confrontadas com algo.

José Roberto Tolentino MD (Meio Distraído)

Especialista em coisas e algos

Fellow do Arembepian Alcoholics

Membro do Council for Counsels, Advice & Suggestions de Nazareth City

 

 

 

 

 

 

Introdução

 

 

Há muito tempo um mistério intriga a Ciência, os cientistas, os pesquisadores da FIOCRUZ, os bolsistas do CNPQ e os reprovados em biologia Celular e Molecular: o que aconteceria com uma coisa, quando estivesse defronte de algo?

 

Inúmeros e escassos trabalhos e esforços hercúleos e amofinados foram levados a cabo, desde que essa pergunta surgiu no crânio fossilizado do Trilobita bahiensis, antes da invasão do vírus da axé-music transformando tudo em larauê, oi, oi, oi e similitudes símias.

 

As respostas insatisfatórias iam do tudo ao nada ao quase tudo e quase nada, passando pelo sei lá, repita a pergunta e pelo ninguém sabe. Supõe-se, entretanto, que uma coisa é uma coisa e outra coisa é outra coisa.

 

Este trabalho se propõe a elucidar, de uma vez por todas, esse mistério, essa dúvida atroz que percute os nossos calos calejados. Comedida, humilde e modestamente, pretendemos alargar e arreganhar os horizontes da nossa incipiente e insipiente Ciência, ganhando o Prêmio Nobel, o Pulitzer, o Oscar, o Grammy, O Jovem Cientista, o Troféu Caymmi e outros Prêmios-Awards que aparecerem pela frente.

 

 

Revisão Bibliográfica

 

 

Author e Al(1) estudaram uma cepa de uma espécie de filo extinto e não conseguiram descobrir muita coisa.

 

Já Cols(2) encontrou uma certa correlação não muito estreita entre eventos independentes de uma cultura de espécimens indefinidos in vivo e in vitro.

 

Alumni(3) usando marcadores de satúrnio anelado radioativo171 contaminou-se durante o experimento e não conseguiu levá-lo a termo.

 

Somebody, citado por Cicrano(4), desautorizou a sua citação aqui.

 

Quando Author e Al repetiram o experimento de Alumni, obtiveram resultados similares, mas com um êxito letal(5).

 

O sobrevivente Al et al(6) concluiu que era melhor mudar de ramo de atividade; hoje vende cosméticos, além de usá-los em profusão.

 

 

Material e Métodos

 

Foram estudadas duas ou três dúzias de ambos os três sexos, divididos em grupos de alguns para cada lado, de acordo com suas especificidades.

 

Os critérios de seleção foram os do técnico da própria, baseados em postulados de autores ancestrais de confiabilidade parcialmente estabelecida.

 

O grupo controle foi escolhido a esmo, ao acaso e aleatoriamente randomizado, de acordo com Malthus, Descartes, Pitágoras, Eratóstenes e Olga Pereira Mettig.

 

Para o estudo duplo cego foram descartados Stevie Wonder e Ray Charles por não conseguirem distinguir as cores com boa margem de acerto, apesar de formarem uma dupla cega bem afinada, tocando piano com movimentos pêndulos em direções diferentes para não se chocar. Vários ensaios foram realizados com Jose Feliciano e Kátia, de forma longitudinal e transversal, sem que o intercurso lograsse êxito, por pura desorientação espacial. Para o duplo cego, por fim, optou-se pela equipe econômica de FHC e por aquele juiz que não viu um pênalti escandaloso a favor do Bahia.

 

Tentou-se conseguir a fórmula da Coca-Cola, mas, apesar dos inúmeros e patéticos apelos, os executivos daquela multinacional sugeriram-nos que usássemos Tubaína.

 

Os dados foram jogados na tábua e tabulados e nós ficamos encabulados quando deu a pontuação 12, contrariando as previsões e cabalas de Malba Tahan e Oswald de Souza.

 

Fizemos digressões, agressões e regressões à vida fetal. Para o cálculo, usou-se o teorema do trinômio de Newton Cruz, que nada mais é do que a função logarítmica aplicada às tendências internas e bases do PT. O teste T de Student pareado e não pareado foi considerado ininteligível, dando lugar ao teste da dona de casa com o sabão que lava mais branco.

 

Por fim, os dados tiveram tratamento estatístico num bom sanatório; encontrou-se a moda, o fora de moda e a última moda, o desvio padrão e os desvios do operário padrão; tudo foi lançado numa planilha para cálculo computadorizado (que ninguém mais é besta de ficar fazendo conta de lápis), numa máquina que estava encostada no laboratório por falta de monitor e CPU, além do teclado.

 

 

Resultados

 

 

Levando-se em conta o nosso nível de ansiedade, exigência e presunção, temos que confessar que os resultados obtidos foram pífios.

 

A tabela 1, se tivéssemos conseguido confeccioná-la, mostraria a extensão do nosso equívoco.

 

A tabelinha 14 (metade do ciclo), associada ao método Billings, falhou miseravelmente (como sempre).

 

O gráfico em pizza foi devorado avidamente numa madrugada, após uma cervejinha. O gráfico que nos assessorava demitiu-se devido à fuga de capitais do CNPq.

 

Algo aconteceu durante determinado período, mas não deu pra ver direito. Uma coisa e outra mostraram diferenças intrínsecas e extrínsecas, às vezes.

 

O grupo controle consumiu 520 comprimidos de Valium 10, enquanto o grupo descontrole se exasperava tomando placebo.

 

O duplo cego continua aguardando doadores de córnea.

 

 

Discussão

 

 

- A culpa é sua!

- Culpa minha? Mas foi você quem teve essa idéia esdrúxula!

- Eu, uma zorra! Você é que ficou insistindo. Eu vi logo que não ia dar em nada.

-Você sim! Aquela história de Nobel, Oscar, Grammy... me o brigou a botar até na introdução!

- Ah, mas se tivesse funcionado... você ia querer botar a mão no prêmio, não ia?

- É... ia.

- Tá bom! Agora toma logo o Haldol pra gente voltar a ser um só de novo!

 

 

Conclusões

 

 

Às vezes é melhor ficar sem saber. Se souber, que não veja. Se vir, que não creia. Se crer, que não sinta. Se sentir, que perdoe e assuma logo.

 

No meio do cominho tinha uma pedra. Tinha uma pedra na pimenta e cominho. Jamais me esquecerei desse acontecimento, na vida da minha dentina tão desgastada.

 

 

Bibliografia

 

 

1- Extraviou-se.

 

2- Idem.

 

3- Ibidem.

 

4- Não autorizada.

 

5- Cópia radioativa (depósito de lixo de Goiânia).

 

6- Al, Fat et al.: How to become rich by selling Avon and Amway products. People Magazine, Vol. 15, No 12, p. 72-75 (1994).

 

 

Apêndice

 

 

Foi operado.

 

 

Resumo

 

 

Vou procurar ser bem sintético, breve, sucinto, conciso, econômico e sumítico em palavras, sem ser prolixo, sem me estender demasiada, desnecessária e cansativamente para o leitor que procura informação condensada, em poucas linhas, sobre o real teor deste trabalho, com poucas vírgulas, que bem poderia ser uma tese de mestrado, doutorado, e só não foi porque se trata de pesquisa básica, não tendo aplicação imediata nem apelo comercial, mas servirá por certo e com certeza de substrato para as gerações futuras e vindouras e, porque não dizer, do porvir, do amanhã, que ninguém sabe qual será nem se será.

 

Voltando ao assunto principal, à linha mestra, ao fio condutor do raciocínio que deve guiar a explicitação compactada do trabalho em questão, confesso pasmo, boquiaberto, estupefato e atônito, que não tenho palavras para descrevê-lo.

 

 

Summary

 

 

Nowadays there are some intriguing questions hanging in the air: who are we? Where did we come from? Where are we going to? Who has killed Laura Palmer? Would you pay one million dollars to spend a night with Demi Moore or with Robert Redford? Would you accept such a proposal (for free)? Would you sleep in such a night? Is that a kind of prostitution? Do you mind about it? Don’t you have any moral, you shameless? Do you think the Pope should marry Madre Theresa? Do you consider O. J. Simpson guilty or not guilty for murdering his wife and her lover? Would you accept a cigar from Bill Clinton?

 

In this study you can be absolutely sure that you won’t find the answers for these issues.

 

Our results show that is extremely dangerous asking Sharon Stone to break the ice (you know what I mean, don’t you?).

 

At the very end, we conclude that watching without acting is worthless.