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sábado, 5 de janeiro de 2008

Pobreza Franciscana



Pobreza Franciscana

Não é que eu seja supersticioso ou místico. Mas digamos que eu saiba me render às evidências. Que saiba distinguir o que sejam sinais inequívocos. Perceber rastros nas nuvens.

Esse vago preâmbulo é para introduzir uma história que, possivelmente, levará os que me lêem a duvidar da minha já precária sanidade mental. A história é longa e com desdobramentos, mas eu vou tentar dar uma resumida para caber aqui no exíguo espaço que me cabe nesse hiperespaço e com o qual tenho que me dar por satisfeito (e já estou desperdiçando preciosas linhas com essas tergiversações).

Pelo título, os mais atentos já devem ter concluído que vou falar de São Francisco (de Assis) e, por conseqüência, de pobreza ou carência de bens materiais - para ser mais exato.

Meu primeiro encontro cara a cara com São Francisco foi no filme Irmão Sol, Irmã Lua. Fiquei totalmente fascinado com aquele pequeno grande homem, embora não possa negar que, estando em pleno exercício dos estímulos hormonais da puberdade, tenha-me deixado fascinar também pela atriz que interpretava Santa Clara, uma lourinha linda, com uns olhos luminosos e que... bom, é melhor deixar pra lá! Nesse filme, uma das imagens mais marcantes é quando Francisco se despoja de suas roupas e sai nuzinho da silva da casa do pai, que era um rico comerciante, para ilustrar a sua decisão de se desapegar das riquezas e passar a viver dando valor às coisas simples, dedicando-se a ajudar e exaltar os mais humildes, conforme conteúdo das famosas palavras de Jesus no Sermão da Montanha.

Sob uma perspectiva psiquiátrica atual e também na opinião dos contemporâneos de então, Francisco havia pirado total! Ouvia vozes e, numa dessas revelações, consta ter ouvido Jesus lhe pedindo para reconstruir Sua igreja. Entendeu ao pé da letra: passou a efetuar o reerguimento, pedra por pedra, de uma pequena igreja que ficava numa planície logo abaixo de Assis. Começaram a aparecer adeptos daquele estilo de vida paleohippie e algum tempo depois foi criada a Ordem dos Franciscanos, cujo lema é “Paz e Bem” e que tinha horror a bens. Os únicos pertences possíveis eram as sandálias e o hábito, que, nesse caso, faziam o monge.

Quando era estudante de medicina, meu primeiro trabalho remunerado foi no Retiro de São Francisco, atendendo aos pobres das redondezas. Quis o destino que a mulher que escolhi para namorar, noivar, casar e apoquentar, fosse uma devota de São Francisco. Achei legal a devoção, a princípio. Ainda namorados, ambos fizemos “Cursilho” da Igreja no mesmo Retiro de São Francisco. E tudo era uma maravilha. Casamos. Eu estava ainda no quinto ano da faculdade. O dinheiro era pouco, mas o fogo era muito. Eu e ela no apartamento quarto e sala reversível para kitchenette, jogando soltos, até o dia em que ela foi buscar a imagem do dito santo que ficara na casa de sua mãe, ali mesmo no Largo Dois de Julho. Passamos a ser três. Mas não por muito tempo. Logo minha irmã veio do interior para morar em Salvador e a instalamos no sofanete da sala do microapartamento.  

A situação começou a ficar apertada e não só no aspecto físico. A comida começou a ser disputada na base das artes marciais. Para testar a minha devoção, só pode ter sido isso, meu irmão, que trabalhava num banco no Campo Grande e morava num pensionato nas minhas proximidades, também decidiu acorrer de vez em quando ao meu apartamento para fazer uma boquinha na hora do almoço. A luta pelas migalhas tornou-se acirrada. Como ainda não era o apocalipse, o porteiro descobriu os dons filantrópicos de minha mulher e passou a aparecer com cara de pidão e uma marmita vazia nessas mesmas horas estratégicas. Mas aí, finalmente, chegou o Armagedom, o tsunami, as dez pragas do Egito: os parentes próximos e distantes do interior, os conhecidos acompanhados de desconhecidos, que vinham enfrentar a fila do INPS da Rua Carlos Gomes, resolveram dar o ar da graça. Deviam achar que eu estava em vias de me candidatar a algum cargo político ou que meu apartamento era um albergue do Caminho de Santiago. Chegavam em romaria. Incessante. Uma “comovente” peregrinação. Interminável. Pensei em estabelecer um sistema de cotas raciais ou de senhas para ingresso ao recinto e usufruto de repasto. Desisti, porque não teria dinheiro nem para o papel onde escreveria os números.

Num desses dias em que eu ficara em jejum involuntário para atender à demanda nutricional dos visitantes, fui até o quarto e olhei com um jeito pouco amistoso para a imagem de São Francisco que pousava placidamente sobre a cômoda. Pensei comigo e com esperança que ele estivesse ouvindo meus pensamentos: “Isso já passou dos limites! Essa imagem é que está atraindo esse meu estado de penúria”. Comuniquei minha dedução lógica à minha mulher. Ela me olhou consternada, com cara de quem estava perdendo o marido para o manicômio e, numa desesperada tentativa de me salvar, acatou a minha decisão de exilar a imagem. Foi devidamente devolvida à casa da minha sogra, em cortejo solene.

Minha sogra estava vivendo razoavelmente bem com a pensão que meu sogro recebia. Era a minha tábua de salvação quando eu me via ameaçado pelo escorbuto, beribéri e inanição. Quebrava o meu galho com umas comidinhas deliciosas e mesmo com uns empréstimos monetários, quando não chegava a ser doação mesmo. Pouco tempo depois de receber o santo de volta, a situação começou a se inverter completamente: a pensão do meu sogro ficou congelada, sem aumento para acompanhar a inflação, e eu comecei a me recuperar daqueles percalços que eu imputava à presença do São Francisco (para mim, já sem sombra de dúvidas, um gigantesco imã para atrair pobreza). Quando eu revelei à minha sogra essa minha suspeita, ou total certeza - advinda dos fatos -, ela não teve dúvidas: vestiu a roupa de ir à missa, embrulhou a imagem e rumou para uma igrejinha próxima onde, furtivamente, deixou a imagem num altar lateral. Ficou ainda por instantes na igreja e viu que uma beata se apoderara da imagem e a levara. Não sei o destino dessa pobre criatura, mas minha sogra, a partir de então, voltou a prosperar.

Consegui comprar um apartamento pelo Sistema Financeiro da Habitação (bem longe do posto do INSS). Na época já estava com dois filhos e às vésperas do terceiro. Sentindo-me seguro e confiante diante da nova situação financeira, nem me abalei quando minha comadre deu de presente à minha mulher uma imagem, de cerâmica de Caruaru, com a representação do que parecia ser São Francisco, portando umas toscas pombas de barro nos ombros. Deduzi que era totalmente inofensiva, porque só com muito boa vontade para ver o santo ali: para mim era um baixinho barbudo, com roupão de banho, cheio de passarinhos. Passou algum tempo e minha mulher foi parir. O obstetra e o pediatra que eram  amigos, além de colegas, não cobraram honorários. Mas o anestesista não aliviou. O baque foi acrescido pela conta das diárias da maternidade. Tive que optar entre as prestações do apartamento e o pagamento dessas contas. Resultado: fiquei inadimplente com a empresa de crédito imobiliário. Meu nome acabou saindo no jornal na longa lista dos caloteiros e vieram as ameaças de ter o apartamento tomado e leiloado caso não quitasse a dívida, que já era bem volumosa àquela altura. Fui até o Comércio, na sede do grande banco baiano que era proprietário da “Caderneta de Poupança dos três sacis”, para negociar a dívida. Na ante-sala da diretoria vi algo bastante preocupante: uma gigantesca imagem de São Francisco! Os mais velhos devem saber exatamente o que aconteceu a essas instituições financeiras. Eu tenho certeza que não contribuí para a falência delas, porque tive que vender alguns pertences e raspar o tacho para quitar o débito. Mas aquela imagem lá... sei não!

A vida seguia apertada. As contas dos cartões Mesbla, Sandiz e Hiper, cada vez mais impagáveis. Certo dia, enquanto eu tinha uma crise de riso nervoso diante dos formulários do Imposto de Renda e dos carnês do Crédito Educativo, minha visão focalizou a imagem de barro do pretenso São Francisco, que sobrevivia impávida ao lado da minha cama. Num impulso rápido o suficiente para não retroceder diante das possíveis conseqüências, peguei a imagem e a arremessei pela janela. A intenção era que ela se espatifasse no estacionamento do Centro Médico vizinho ao meu prédio. Acreditem: a dita cuja aterrissou caprichosamente em meio às plantas ornamentais de um canteiro suspenso do Centro Médico. Confesso que fiquei aliviado. Quem sabe que pragas outras poderiam se abater sobre mim com aquele santo de barro multiplicado em dezenas de pedaços nas minhas cercanias. O referido prédio do Centro Médico estava sendo pintado na lateral e o trabalho já havia avançado até a metade. A obra foi paralisada desde então (não fiquei sabendo ao certo o porquê, mas guardava minhas suspeitas). O prédio ficou com duas cores (branco gelo e acinzentado mofado), e assim permaneceu por vários anos. A agência bancária que havia lá também passou a ser vítima de seguidos assaltos. “Coincidentemente”, o trabalho de pintura recomeçou e foi finalizado quando, anos depois, o canteiro suspenso foi cimentado para ser colocada uma grade. Os assaltos à agência bancária já haviam parado de ocorrer pela simples razão de que ela não resistira e houvera sido fechada meses antes de a imagem ser finalmente retirada.

A minha vida foi melhorando e consegui comprar uma casa de praia em Arembepe.  Passei a freqüentar um barzinho do qual eram fregueses alguns amigos meus que já tinham casa de veraneio lá. O nome do bar escrito na parede era um, mas na nota fiscal o nome era Bar e Restaurante São Francisco! Já fiquei com a pulga atrás da orelha. Adivinhem quem é o padroeiro daquela aprazível localidade? Pois é: ele mesmo. A descoberta deu-se assim que houve uma tempestade, acompanhada de uma terrível ressaca no mar, e a igrejinha foi seriamente danificada. Obviamente bateram à minha porta para pedir donativos destinados à reconstrução. Contribuí relutantemente com o Livro de Ouro, mas minha mulher se empenhou bastante, comprou milhares de bilhetes de rifas, Raid das Moças, pagou dízimos, deu óbolos, quase a ponto de dilapidar nosso claudicante patrimônio. A igreja foi finalmente reconstruída e milagrosamente está lá de pé até o momento. Mas tive que contribuir também com uma cota substancial para a reforma do bar, que estava aos pedaços. Para tanto, lancei mão do dinheiro que estava juntando para reformas na minha própria casa. O Bar São Francisco era mais importante. Quando contei ao proprietário os meus delírios a respeito da pobreza franciscana, ele, mais que depressa, mudou o nome do bar. Vai bem, obrigado.

Fiz minha primeira viagem à Europa e fui direto conhecer a Itália. Como não podia deixar de ser, o roteiro incluía a cidade de Assis. A primeira atração turística que conheci foi a Igreja de Santa Maria degli Angeli, construída para englobar a igrejinha da Porciúncula, uma das que São Francisco reconstruiu com suas próprias mãos. Enquanto minha mulher ficava lá em interminável genuflexão rezando, persignando-se e chorando emocionada, eu fui dar uma volta no interior da igreja e vi uma seta indicando o “Roseiral”. Fui seguindo as indicações que me guiavam num labirinto de rampas descendentes e sentindo cada vez mais forte um perfume intenso de rosas. Fiquei imaginando o tamanho desse “Roseiral” e a quantidade e diversidade de flores que ia encontrar. Finalmente me deparei com um amplo espaço que se abria para o céu e continha inúmeras leiras vazias – uma pobreza!. No meio desse jardim apenas uma única rosa. Imensa, sem espinhos. Fiquei arrepiado com aquele negócio. Que rosa era aquela? Li numa placa que aquela rosa só dava ali. Não sei se é mesmo verdade, mas até hoje não encontrei explicação plausível para explicar a intensidade do odor de rosas que me atingiu tão longe e que exalava desse único exemplar. Esse São Francisco realmente adora me pregar peças e me por à prova - pensei, enquanto enxugava minhas lágrimas. Meses depois do meu regresso, houve um intenso terremoto na Úmbria, sacudindo Assis, e essa igreja parece ter sido duramente atingida, pois até hoje não tenho notícia de sua reabertura ao público.* Será que...? Hum... Não. Acho que não!

Fui enviado para fazer um curso de medicina do trabalho** nos Estados Unidos. Relutei bastante ao saber que o local seria a cidade de San Francisco, Califórnia. Não bastasse o meu histórico de relações tumultuadas com o santo em questão, meus remotos conhecimentos de geografia ginasial me davam conta que essa cidade fica em cima da famosa “falha de Santo André” - que é um miserê geológico responsável pela frenética atividade e instabilidade sísmicas daquela região. Já houvera um terremoto bem razoável no início do século XX e todo o mundo sabe que, a qualquer momento, lá vai ocorrer um graúdão já chamado previamente de Big One. Entretanto, enchi-me de coragem e de argumentos lógicos, estatísticos e científicos, para desconsiderar totalmente a hipótese de ser brindado com essa “graça”. Passei a nem cogitar a possibilidade de um tremorzinho tipo Very Small One. Sou homem e não um saco de pipocas! E aquele povo todo mora lá em San Francisco numa boa (em vários sentidos), é uma Salvador sem favelas, teve o flower power ("if you're going to San Francisco, be sure to wear some flowers in your hair"), não vai acontecer nada de desastroso.

Num belo dia, num dos intervalos do curso, subi até o meu quarto no hotel e fui ao banheiro. Quando estava sentado na privada cantando I left my heart in San Francisco e deixando lá algo além do meu coração, senti a porta entreaberta começar a tremer. Começou e continuou tremendo. Mudei logo de música para Put the blame on Mame. Eu ainda não me encontrava nas condições higiênicas ideais para me desvencilhar imediatamente do vaso. Hoje eu tenho consciência que aquilo durou apenas alguns segundos, mas pareceu tempo suficiente para ver o filme da minha vida, cuja cena final incluía um grupo de buscas, chefiado por aquele bombeiro mexicano que pinta em tudo que é terremoto, me encontrando nos escombros com minhas calças na mão e o traseiro encravado na privada. Não era o fim mais digno que eu poderia esperar para a minha existência fugaz e nada marcante neste planeta. Graças a São Francisco que, creio, bateu um papo com Santo André pedindo para estabilizar a falha e ter misericórdia para com aquele pobre pecador em situação tão vexaminosa, fui poupado. Viva São Francisco!

* Um esclarecimento que só me foi possível fazer quando retornei a Assis em 2017 e pude revisitar a Igreja de Santa Maria degli Angeli foi que o forte cheiro de rosas que eu percebi e atribuí à única rosa que havia no roseiral era proveniente de uma fabriqueta de terços, com os "mistérios" (contas)  feitos de pétalas de rosas comprimidas, a qual parece estar estabelecida ali por perto.

** Há pouco tempo fiquei sabendo que o dia do médico do trabalho é comemorado em 04 de outubro, data de nascimento do médico italiano Bernardino Ramazzini (considerado o pai da medicina do trabalho), e esse dia, mui coincidentemente, também é o dia de São Francisco de Assis.

terça-feira, 20 de novembro de 2007

Versos da Canção


                                             
Versos da Canção

Muito já se escreveu sobre qual seria o verso ou a estrofe mais bonita, poética ou estética da Música Popular Brasileira. Até mesmo teses acadêmicas foram feitas tendo como alvo de estudo, por exemplo, as aliterações contidas na música "Januária", de Chico Buarque (Toda a gente homenageia Januária na janela).

Até a década de 1960, havia um certo consenso, por influência da opinião do poeta Manuel Bandeira, de que o verso mais bonito da MPB era "Tu pisavas nos astros, distraída", da música "Chão de Estrelas", letra de Orestes Barbosa - há quem diga que o certo é "Tu pisavas os astros, distraída". Caetano Veloso, em "Livro", vem com uma paráfrase muito boa: "Tu pisavas nos astros, desastrada". Pra quem não lembra, esses "astros"  da música original seriam o resultado de pontos de luz projetados pela Lua no chão do barraco (e olhem que a Lua "furava" o zinco do teto). Realmente é uma imagem e tanto, ainda por cima com a distração da mulher, flanando, enquanto pisoteia os pobres dos astros.

Ninguém nunca discordou muito dessa opinião, mas algumas vozes advogavam em favor dos versos "Tire o seu sorriso do caminho/ que eu quero passar com a minha dor", da música "A Flor e o Espinho", letra de Guilherme de Brito - lembram-me o primeiro carro velho que tive. Ou "Vista assim do alto/ mais parece um céu no chão", de "Sei lá, Mangueira", letra de Hermínio Bello de Carvalho, que sempre me faz questionar se é uma referência à favela vista de cima ou se ilustra a visão privilegiada da cidade que se tem a partir do morro - seja o que for, o que há no chão está muito longe de parecer um céu, seja de longe ou de perto, no meu ponto de vista. Sem esquecer da linda imagem evocada em "Asa Branca", letra de Humberto Teixeira, pelos seus famosos versos "Quando o verde dos teus óios se espaiá na prantação" - por causa disso, eu passei anos procurando uma namorada que tivesse esses olhos esmeralda com superpoderes de transformar a vegetação seca em verdejante; acabei me conformando em esverdear o mundo apenas com o uso das lentes dos meus óculos Ray-Ban (conta-se que um criativo fazendeiro nordestino utilizou-se, com sucesso, desse mesmo artifício para fazer os seus bois comerem a pastagem seca).

Entre as estrofes mais citadas como merecedoras do título de mais bela da MPB, encontra-se, indefectivelmente, aquela do compositor mangueirense Cartola, na música "As Rosas não Falam", quando diz: "Queixo-me às rosas/ mas que bobagem, as rosas não falam/ simplesmente as rosas exalam/ o perfume que roubam de ti". Eu também gosto muito dessa estrofe, principalmente porque confirma a sanidade mental do saudoso Cartola, ao constatar que os vegetais de então não tinham cordas vocais, para dizer o mínimo. No futuro, com o progresso da transgenia, quem sabe...

Em matéria de estrofes bonitas, Chico Buarque pode figurar fácil numa relação das 10 mais através de "Como, se na desordem do armário embutido/ meu paletó enlaça o teu vestido/ e o meu sapato ainda pisa no teu", da música "Eu te amo" (hino do descasamento) ou "Te perdoo porque choras/quando eu choro de rir/ te perdoo por te trair", da música "Mil Perdões" (adultério plenamente justificado). O poetinha Vinícius de Moraes também compareceria com "A felicidade é como gota de orvalho numa pétala de flor/brilha tranquila, depois, de leve, oscila/e cai como uma lágrima de amor", escrita em "A Felicidade", música que começa dizendo "Tristeza não tem fim/ Felicidade, sim" - deveria se chamar “Triste Felicidade”.

Não sei se por deformação de caráter ou por uma exasperante capacidade de perceber sutilezas insuspeitadas, mas o fato é que a minha preferência recai numa estrofe que nunca é citada pelos expertos. Para mim os versos mais significativos da MPB são: "Fui passear na roça/ encontrei Madalena sentada numa pedra/ comendo farinha seca/ olhando a produção agrícola e a pecuária", do compositor Isidoro, na música "Madalena", que alguns conhecem como “Entra em beco, sai em beco”, principalmente a nova geração que foi apresentada à musica, há uns anos, através da regravação feita por Gilberto Gil.

O fato é que enxergo inúmeras facetas nessa singela estrofe. Primeiro: “passear na roça” já me transporta para o ambiente rural, bucólico, que me é muito familiar. Era comum ir fazer um passeio na roça. Era como ir a um Shopping. Tinha muito atrativo, pelo menos pra mim. Hoje ninguém vai mais passear na roça. Todo o mundo quer é se picar da roça. No máximo, o pessoal quer mesmo é se roçar!

Mas vamos adiante para o ponto principal e nevrálgico: observem que a pobre da Madalena se encontra em pleno estado de abandono, numa solidão só comparável à solidão de Deus, sentada numa pedra e fazendo sua refeição, num cardápio composto por um único item: farinha seca! Isso é a cara da nossa gente. Se isso não bastasse, Madalena ainda está contemplando a “produção agrícola e a pecuária”! Vejam que o autor Isidoro não se utilizou da linguagem que a retratada Madalena usaria e que provavelmente seria “a prantação e os boi”. Madalena está ali olhando uma propriedade rica, produtiva e que certamente não lhe pertence. Está diante de uma fartura de alimentos enquanto come farinha seca.

Não conheço melhor síntese das nossas desigualdades. Solidarizo-me com essa coitada. Tenho a mesma sensação madalênica quando me vejo sentado diante da TV assistindo a um jogo de campeonato europeu, com times cheios de craques caríssimos, enquanto meu time aqui está na terceirona e sem dinheiro para pagar até a lavadeira. Mas isso já vai dar um outro samba.




domingo, 7 de outubro de 2007

DAS DORES E DOS REMÉDIOS



DAS DORES E DOS REMÉDIOS

  
Desde a infância que o destino parecia conspirar para manter juntas Pombinha e Santinha, apelidos que ganharam, ainda pequenas, Ma das Dores e Ma dos Remédios, respectivamente. Nasceram e se criaram na rua da Lambreta, uma avenida de casinhas de três cômodos, unidas parede com parede, perto do pasto do Barão, na cidade de Nazaré, que os baianos, não nascidos lá, chamam de Nazaré das Farinhas. Passaram pela mesma tentativa de alfabetização, freqüentando a sala de aula do curso primário que a prefeitura mantinha no salão do centro espírita da rua do Sapo. Juntas, esfregaram limão no local da vacina contra a varíola - ou bexiga, como chamavam -, para esta não “pegar”. Tomavam, na merenda escolar, mingau de milho feito com fubá e leite em pó doados pela Aliança para o Progresso. Filavam aulas para ir tomar banho de rio no “rego das moças”, depois de asseguradas que suas mães, ambas lavadeiras, já haviam recolhido as roupas que quaravam sobre as ilhotas e retornado para casa. Quis o inevitável que ambas seguissem as ocupações maternas. Passavam dias inteiros, sob sol e chuva, batendo roupa nas pedras do rio Jaguaripe, ora no mesmo local em que costumavam ir para se divertir, ora num ponto mais acima, o “poço do robalo”. Uma das poucas coisas em que diferiram foi na escolha do companheiro: Pombinha amigou-se com Filinho, pedreiro nas horas vagas, e jogador de dominó e cachaceiro nas horas ocupadas; Santinha teve um caso que não deu certo com Tatá, que pescava pitu de vez em quando, e acabou se amancebando com Anilson, feirante em tempo integral.

Os mais supersticiosos, e até mesmo os cartesianos, atribuem ao peso dos nomes de batismo de ambas o fato de Pombinha ter tido uma vida vexada e repleta de sofrimentos, e de Santinha ter-se tornado versada em artes diagnósticas e terapêuticas, recorrendo a toda a sorte de infusões, rezas e beberagens para medicar as doenças ou sintomas que tomava conhecimento direto ou indireto. Para os casos em que suas prescrições não obtinham sucesso ou não logravam o efeito desejado, Santinha tinha o bom senso de se dar por vencida, mas costumava cometer o temerário ato de indicar a especialidade médica a ser consultada pelo sofrente. Em resumo: virou uma curandeira e palpiteira contumaz! Desde que o único médico clínico da cidade Dr. Demósthenes se aposentou sem que nenhum outro viesse a substituí-lo, os palpites de Dona Santinha tornaram-se o referencial para boa parte dos habitantes do lugar, que já tinham sido alcançados pela sua fama. Não faltava quem dissesse que se ela cobrasse por tais consultas, poderia muito bem deixar o ofício de lavadeira. Mas Santinha achava que isso era dom de Deus, e que Ele não ia gostar que ela cobrasse por algo que recebeu de graça. É bem verdade que o pessoal da roça sempre trazia umas pencas de banana da terra, uns saquinhos de farinha de mandioca, uns franguinhos, uns quiabinhos, e não ficava bem ela mandar levar de volta.

Inúmeros tinham sido os purgantes, as lavagens, os chás de boldo, carqueja, capeba, folha de abacate, sabugueiro, garrafadas, que Santinha já tinha preparado e ministrado para reverter os mais diversos sintomas e sinais apresentados pela sua amiga e comadre Pombinha. De “espinhela caída” a “difluxo”, de “tiriça” a “linfatismo”, tudo aquilo que Pombinha manifestara no campo das enfermidades já tinha sido alvo da intervenção de Santinha, que lançava mão instintiva e aleatoriamente do efeito placebo, e do princípio similia similibus curantur, da Homeopatia, ou do contraria contrariis curantur, da Alopatia. O tempo decorrido para a cessação dos males era, no mais das vezes, um pouco longo. Mas o fato é que os curados ficavam extremamente agradecidos, e os mortos nunca voltaram para reclamar, também porque quando Deus chama, não há doutor que dê jeito. Não era à toa que Pombinha depositava uma cega confiança na comadre, haja vista os seus sucessivos acertos ou, como ela mesma dizia, sucessivos sucessos.

Eis que, numa dessas manhãs embaçadas de junho, em que a neblina oculta a parte da cidade situada na outra margem do rio, Pombinha amanheceu entrevada. Diríamos, um pouco mais entrevada que o habitual. Quando Santinha chegou com a enorme trouxa de roupas que lhe caberia lavar naquele dia, encontrou a comadre ainda na cama. Nenhuma tentativa de injetar ânimo surtiu efeito. Perguntada sobre o que estava sentindo, Pombinha respondeu que estava com “umas pontadas nos ossos, umas dores nas juntas, uma dorzinha de cabeça, uns arrepios e sem apetite”. Já vinha sentindo algo parecido há uns dias, mas se fez de forte e não quis incomodar a comadre com mais um queixume. Afinal, fazia só umas semanas que ficara boa daquela ferida nas partes, e a íngua já tinha diminuído bastante, tudo graças ao mastruz e à enxúndia de galinha que a comadre Santinha aplicara diariamente.

A comadre  Pombinha não tinha que se preocupar, pois a causa parecia muito simples: tudo levava a crer que se tratava de um princípio de gripe ou resfriado, por causa da friagem do rio, nessa época do ano. Deveria tomar os chás que ela já estava acostumada e logo estaria de pé. Informada pela doente que esta já houvera tomado chá de alho, com limão e mel, sem que observasse resultado benéfico, Santinha sugeriu que adicionasse à prescrição uma gemada, com leite bem gordo e bastante canela. No dia seguinte o quadro foi acrescido de umas pintas no corpo, com uma leve coceira. A prescrição habitual foi purgante, para limpar o intestino e o sangue, pois aquilo devia ser “intochicação” ou alergia. Quando começaram a cair uns pelos das sobrancelhas e da parte do couro cabeludo detrás das orelhas, Santinha achou que era hora de a comadre procurar um médico especialista. Pela lógica do seu raciocínio, Pombinha devia consultar um “médico de cabeça”, já que o problema da queda dos pelos se concentrava nessa região do corpo.

Dias depois, amealhados os parcos recursos que dispunham, pegaram carona com Seu Irênio, que toda semana levava farinha e carne de fumeiro, em sua Variant, para vender em Salvador. Providencialmente, a passagem do ferry foi paga por Seu Irênio, devedor de alguns favores a Dona Maria dos Remédios. Ficaram hospedados na casa da prima Laurinha, que tinha uma casa ajeitadinha mesmo, lá na Mussurunga, comprada pelo marido Valtinho com o dinheiro ganho em sua atividade na loteria zoológica. As peregrinações pelos postos de saúde e clínicas conveniadas com o SUS tiveram início imediato. Logo ficaram sabendo que para marcar consulta com um “médico de cabeça” teriam antes que passar por um Clínico Geral. Santinha protestou, pois ela já sabia que tipo de médico a comadre precisava. Não precisava um outro médico, desses clínicos gerais que sabem pouco de muita coisa, mas não sabem muito de coisa nenhuma, viesse só confirmar o que ela já estava cansada de saber, só para assinar um papelzinho encaminhando o caso a outro. Além do mais, não tinha mais vaga para consulta no mesmo dia. Teriam que voltar depois. Tentaram um posto de emergência, mas foi-lhes dado a saber que aquele caso não se caracterizava como urgência. Saíram soltando imprecações contra o interno que fez tal comunicação. Voltaram para casa desanimadas e revoltadas. Foi aí que a prima Laurinha teve a idéia de usar a carteira da assistência médica supletiva a que tinha direito, como dependente do marido. Com um pouco de sorte e uns pequenos retoques na carteira de identidade de Pombinha, o problema seria solucionado. Dessa forma, era só pegar o manual e marcar o especialista desejado. Dito e feito. Na manhã seguinte já se dirigiam ao Neurologista.

Houve uma pequena discussão na recepção do consultório quanto ao cumprimento do horário marcado para a consulta, já que a toda hora alguém que não Maria das Dores era chamado a entrar. Uma vez na sala do médico, este perguntou qual era a queixa. Santinha se adiantou, respaldada pela timidez da comadre e pela sua larga experiência de curandeira, assumindo a condição de porta-voz:

- É um pobrema na cabeça dela, Dotô. Se não fosse, a gente não tava aqui, não é?

- Sim, mas que problema? O que a Sra. sente na cabeça? - perguntou o médico, dirigindo-se à paciente.

- Ela tá com umas dor de cabeça e o cabelo tá caindo dos lado! E ainda tá com umas pinta no corpo! - antecipou-se, mais uma vez, Santinha.

- Bem, o problema das dores de cabeça eu vou investigar. Já a questão da pele e da queda de cabelos deve ser encaminhada a um Dermatologista, que é o especialista nessa área. A Sra. vai fazer esses exames que eu escrevi aqui e tomar esse remédio aqui para a dor. Quando tiver com o resultado na mão, a Sra. retorna. - concluiu o Neurologista.

Na saída do consultório Pombinha reclamou que o doutor nem botou a mão nela. Laurinha disse que era assim mesmo, que ele tinha estudado e sabia o que estava fazendo. Agora elas tinham que marcar os exames e procurar o médico… como era o nome mesmo da especialidade que o doutor falou? Ninguém se lembrava direito. Voltaram para casa. Pombinha continuava se queixando de dores nas juntas.

- Vamo marcar uma consulta com um “médico de osso”, pra ver essas dor nas junta da cumade! - opinou Santinha, com autoridade.

Marcaram o Ortopedista para três dias depois, numa clínica mais ou menos próxima ao hospital em que iriam para realizar a tomografia computadorizada do crânio. No dia seguinte estava marcado o eletrencefalograma.

Pombinha gostou muito da consulta com o Ortopedista, porque, pelo menos, ele pegou nela. Palpou as juntas que doíam, apertou, dobrou pra lá e pra cá. Disse que podia ter uma leve inflamação, mas não tinha certeza. Disse que a dor nas pernas podia ser, também, devida a varizes. Aconselhou uma consulta com um Angiologista e deu uma solicitação de raios-X e ultra-sonografia das articulações, além de prescrever um anti-inflamatório. Dessa vez, Santinha tratou de anotar o nome certo do “médico de varize”: Anjolojista.

A consulta com o Angiologista assemelhou-se às outras feitas até então, no que diz respeito à rapidez. Ele perguntou se a perna inchava, se ela trabalhava em pé, pegou, olhou, disse que não via nenhuma variz, mandou, por fim, que ela descansasse com as pernas elevadas e passou uma meia elástica para ela usar, mesmo sob os protestos de Santinha que lembrou das condições de trabalho com as pernas em imersão na água do rio.

Enquanto aguardavam os resultados dos exames que iam sendo solicitados e feitos, em progressão geométrica, Santinha sugeriu que se procurasse um médico de “pele e alergia”. Marcaram um Alergologista e Pneumologista que, ao ver as lesões, achou por bem solicitar uns testes alérgicos de contato, alimentares e de inalantes. Por insistência de Santinha, foram também solicitados exames de sangue, fezes e urina.

As dores tiveram uma melhora razoável com o uso das medicações prescritas. Não fosse a persistência daquelas perebas na pele e da queda de cabelos, Pombinha já poderia se dar  por curada. Mas faltavam os resultados dos exames e o parecer dos médicos.

De posse dos resultados da TC de crânio e do EEG, retornaram ao Neurologista. Numa rápida olhada nos laudos, o especialista falou que ela podia ficar descansada, que estava tudo normal, que ela não tinha nada na cabeça. Pombinha não se ofendeu com essa última afirmativa porque não captou a duplicidade de sentido. Também não foi intenção do médico dizer que o seu crânio continha um vácuo em lugar do cérebro. Saiu aliviada do consultório, com a certeza que os “exames de cabeça” certificaram que ela não era maluca.

Mais alguns dias de espera, chegou a vez de levar os resultados dos RX e US das articulações ao Ortopedista. Depois de colocar as chapas naquele negócio que acende uma luz fluorescente, o especialista deu uma olhadinha nos laudos que as acompanhavam e disse que não tinha nada de errado com as juntas de Pombinha. Ela própria, tomando coragem, e também porque gostara do médico, falou que as dores já tinham passado, depois do remédio. Foi realmente uma pequena inflamação que cedeu ao uso do anti-inflamatório, concluiu o médico, despedindo-se de Dona Maria das Dores.

Os testes alérgicos não gozaram muito da simpatia de Pombinha, que sentiu muito incômodo e coceira, com aquele tabuleiro de xadrez nas costas. Quando receberam o resultado, Santinha abriu ao chegar em casa e viu tanto X, que parecia jogo de loteria esportiva, com nome de comidas e outras coisas em lugar dos times. Não entendeu nada, mas achou que ali estava a razão para a doença da comadre. Os exames de sangue, fezes e urina também ficaram prontos. Levados ao Alergologista e Pneumologista, este foi olhando página por página e fazendo uma cara feia, torcendo o bico, até que pôs fim ao suspense causado. Disse que Dona Maria das Dores tinha alergia a couro, poeira, mofo, camarão, abacaxi, laranja, banana, leite e outras coisas que ela nunca tinha comido ou ouvido falar. Concluiu que essa devia ser a causa das lesões de pele apresentadas. Só que tinha mais algumas coisas: o hemograma mostrou uma anemia, o exame de urina mostrou uma leve perda de proteínas, e no exame de fezes era mais fácil dizer o que não apareceu - parecia uma sala de aula em que a professora vai fazendo a chamada e todos os alunos vão dizendo “presente”. O médico prescreveu um anti-alérgico  e disse que ela devia evitar contato com os alergenos aos quais se mostrou sensível. Passou um bocado de “remédio de verme” e um outro, “à base de ferro”, para a anemia. Recomendou que ela procurasse um Nefrologista ou Urologista para ver a causa da presença de proteína na urina. Ao chegar em casa, Pombinha comentou, satisfeita, que pelo menos ainda podia comer farofa d’água com carne de sertão.

A necessidade da ida a mais um especialista não significou nenhuma chateação adicional para Pombinha. Pelo contrário: até que estava gostando de estar em Salvador. Era como se estivesse de férias, passeando, sem ter que encarar a dura rotina de ter que ir para o rio, todos os dias, lavar a roupa suja dos outros. Santinha opinou que deviam procurar um “médico de rins”, e não um “orolojista”, que é médico que cuida só das partes do homem, segundo sua sabedoria. Infelizmente, dos três Nefrologistas que atendiam pelo convênio, um estava de férias, o outro estava num congresso, e o outro só poderia atender no mês seguinte. Tiveram que regressar a Nazaré, de tardinha, também porque não podiam abusar mais da hospitalidade da prima Laurinha, uma santa, que insistiu que elas ficassem, disse que não davam trabalho, que lhe ajudavam e faziam companhia, e coisa e tal.

Conseguiram chegar na estação do ferry a tempo de pegar a balsa que sairia às seis e vinte. Rumaram para o convés superior e tomaram assento junto a um velhinho, entretido na leitura de seu jornal. No momento em que virou a página, a face do velho mostrou-se por uma duração suficiente para que Pombinha o reconhecesse. Apesar das marcas do tempo, aquele rosto ainda guardava a expressão que conseguia ser, simultaneamente, austera e afável. Trazia de volta as lembranças do tempo em que ia até a casa dele, ainda menina, pegar a trouxa e o rol de roupas sujas que sua mãe lavava semanalmente.

- Dr. Demoste! Tá lembrado de mim não? - exclamou e perguntou Pombinha.

- Assim à primeira vista não me recordo! - respondeu Dr. Demósthenes, ajeitando os óculos.

- Sou Maria das Dô, Pombinha, filha de Quitéria, que lavava as roupa de sua casa, lá em Nazaré! - esclareceu Pombinha, com uma intimidade respeitosa.

- Sim, sim, Quitéria, lembro sim! Você era aquela menina que vivia espetando o pé no espinho de mandacaru? Que vivia tendo amigdalites?

- Sou eu sim! Ispinho e garganta. Sou eu mermo! O Sinhô lembra, né? Tá indo lá pra Nazaré?

- Não! Vou passar uns dias na minha casa da ilha. Faz um bom tempo que não volto lá. E você, como está?

- Num tenho passado muito bem não, dotô. Tive vexada por esses dias, cheia de coisa pelo corpo, dor, essas coisa!

- Mas como começou? O que foi que apareceu primeiro?

- Bom, faz uns mês que eu tive, sabe, um carocinho que virou uma firida nas parte, sabe, dotô? Apariceu até uma íngua aqui na viria, que ainda tá até um pouquinho. Passou um tempo e cumecei a me senti mal, assim, dor nas junta, nos osso, arripio, fastio, e apariceu umas mancha na pele, no corpo, assim paricendo sarampo ou catapora, e os cabelo de trás das oreia cumecou a cair os tufo, e da sombranceia também. Aí foi que minha cumade Santinha, essa aqui, lembra dela, filha de Teté, lavadeira também, aí foi que ela que sempre me dá uns remédio caseiro disse que era milhó eu ir pra Salvador, pra ver uns ispecialista. Aí eu vim, fiz um monte de izame, tá até aqui se o Sinhô quisé vê, fui no médico de cabeça, de osso, de varize, de alergia e tinha que ir também no médico de rim mas num deu. As dô já passou, sabe, só ficou as pereba na pele, aqui ó, tá vendo? E o cabelo também, ó!

- Você é casada, minha filha? Mantém relações com algum homem?

- O Sinhô sabe, né Dotô? Casada casada num sou, mas vivo com um peste, que passa mais tempo na rua que em casa, dorme fora, fica um tempo sem aparicê... Minhas amiga diz que ele vive lá no Brega, na Funtinha, com as rapariga, mas eu num ligo muntcho, porque ele num é meu marido mermo, né?

- Bem... Pombinha, não é? Pelo que você me disse, Pombinha, e pelo que eu vi, tudo o que você está apresentando é característico de sífilis. Vai ser necessário um exame de sangue para confirmar, mas é o diagnóstico mais provável!

- Shife? Num é aquela duença venera? Vixe, isso mata, num mata Dotô? Ai, meu Deus!

- Já matou muito. Mas, depois do surgimento da penicilina, o tratamento cura completamente. Eu vou lhe dar a solicitação do exame, que vai poder ser feito, lá mesmo, no laboratório do hospital. Pegue o resultado e me procure no sábado, na casa de meu irmão Diógenes, em Nazaré. Eu vou aproveitar e dar uma passadinha na terra, para matar as saudades daquela feirinha, comprar uma farinha da boa...

Durante o restante da travessia, Pombinha e o Dr. Demósthenes trocaram reminiscências, lembraram os vivos e enumeraram os mortos. Santinha permaneceu numa mudez pouco característica em seu comportamento. Ao se despedir do médico, Pombinha reclinou-se e beijou-lhe as mãos, revivendo um gesto que costumava fazer ao pedir a benção de seu pai. As lágrimas que vieram aos seus olhos falaram muito mais que o “muito obrigado” que tencionava dizer. O velho médico, mesmo acostumado a essas demonstrações de gratidão, também se emocionou e deu-lhe uns tapinhas na cabeça, paternalmente.

No sábado, conforme combinado, Pombinha levou o resultado do exame até a casa de Seu Diógenes, no Alto da Conceição. O Dr. Demósthenes estava sentado numa espreguiçadeira, na porta da rua. Olhou o laudo analítico e pelo movimento afirmativo que fez com a cabeça, e pelo hum-hum, sabia-se que tinha confirmado o diagnóstico. Prescreveu o tratamento padrão para sífilis secundária, num total de seis ampolas de penicilina benzatina de 1.200.000 unidades, duas a cada sete dias, durante três semanas. Aconselhou Pombinha a mandar o seu companheiro Filinho fazer o mesmo, e que só voltasse a ter relações com ele novamente, depois que estivesse tratado, caso contrário, tornaria a pegar a infecção. Pombinha agradeceu muito, disse que ia mandar que Filinho se tratasse, e que ia mandar também outra coisa: que ele fosse baixar noutro terreiro!

Na volta para sua casa, depois de ter tomado as duas primeiras injeções na farmácia de Seu Tércio, Pombinha passou na casa da comadre Santinha, para contar o desfecho do caso. A comadre ouviu atentamente, concordando com a decisão de Pombinha em se desvencilhar, finalmente, de Filinho. Quando foram interrompidas pela vizinha Matilde, querendo saber o que ela devia tomar para uma tosse braba que apareceu no dia anterior, Maria dos Remédios mandou que ela, antes de tudo, se consultasse com um clínico geral.

Maria das Dores riu.

                                                                    José Roberto Tolentino (2002)

Sem palavras

Sem Palavras

 

Sempre fui chegado a sinônimos. No tempo do ginásio, passava tardes inteiras em casa lendo dicionários, só para me divertir. Por conta dessa fixação, há alguns anos fui colocado diante de uma das situações mais constrangedoras que já pude experimentar.

 

Após receber a notícia do falecimento, do passamento, do óbito, do êxito letal, da batida de caçuleta, da morte mesmo, da avó de um amigo de infância, senti-me na obrigação social, moral e protocolar de comparecer ao enterro, ao féretro, às exéquias, da dita cuja, a qual eu nem mesmo sabia se era mãe da mãe ou do pai do meu amigo.

 

Ao chegar ao cemitério, ao campo santo, à necrópole, deparei-me com uma fila quase indiana de mulheres que eu sabia vagamente serem parentes em graus variáveis da nonagenária defunta, que ali jazia pacificamente no caixão, no esquife, no ataúde, na urna funerária.

 

A experiência já me havia demonstrado que a melhor atitude nessas situações era aproximar-se das pessoas mais chegadas à pessoa falecida e, sem dizer qualquer palavra, dar um abraço sentido com uns leves tapinhas nas costas, seguido de um olhar compungido (nas mulheres) e uma firme sacudidela nos ombros, com um olhar de “segura firme aí, meu irmão” (nos homens). Isso sempre mostrou a eficácia requerida para os meus propósitos nesses delicados momentos e nunca me colocou em apuros.

 

Mas não foi o que aconteceu nesse fatídico dia que estou mencionando aqui. A mania da sinonímia reapareceu das catacumbas da minha mente e comecei a acrescentar frases ao ritual dos abraços que estava dando no mulherio perfilado. E lá fui eu soltando “meus pêsames” pra uma, “minhas condolências” pra outra, “meus sentimentos”, “aceite minha compaixão”, “meu pesar”, quando, de repente, me vi desprovido de mais sinônimos ainda não verbalizados que pudessem ser ditos às restantes moçoilas carpideiras.

 

Não sei por que diabos nem me passou pela cabeça repetir as expressões que já havia dito anteriormente. Tornou-se uma questão de honra achar uma manifestação de pesar original. Como nada aflorou à minha mente, um sentimento de pânico se apossou de mim enquanto concluía a série de tapinhas nas costas da senhorita da vez. Foi aí que as minhas cordas vocais, no auge do desespero e da urgência,  pronunciaram “meus parabéns”!

 

O olhar atônito da pessoa a quem dirigi essas palavras não poderia ser um amplificador melhor para o meu constrangimento. Tentei desesperada e inutilmente procurar alguma palavra que rimasse com “parabéns” para falar em seguida e confundir a minha embasbacada interlocutora, na tentativa de remediar a situação, mas nem de “amém” eu lembrei na hora (também nem sei se amém iria funcionar).

 

Dei as costas de maneira furtiva e saí andando lentamente pelo cemitério, ainda tentando achar um meio de justificar o injustificável. Eu estava cabisbaixo, envergonhado, acabrunhado; e pálido, lívido, céreo. Era um fantasma vagando, à procura de um túmulo, uma tumba, uma campa, um buraco para me enterrar.

 

A carne

A Carne

Não sei se posso generalizar, mas acho que, quando as pessoas se aproximam perigosamente de meio século de existência - como está ameaçando acontecer comigo – começa-se a fazer mais amiúde as grandes e profundas perguntas filosóficas. Coisas como o sentido da vida, existência ou não de Deus e de vida após a morte (mormente quando não se tem certeza de haver vida durante a vida), os porquês todos e de tudo, etc, etc.

Eu, que não tenho nenhuma capacidade de aprofundamento, ando seriíssimamente preocupado em ter que abandonar os prazeres da carne. Os mais apressados hão de concluir que me refiro à luxúria. Ledo engano - com o passar do tempo, esses tipos de prazeres carnais vão se tornando mais uma vaga lembrança do que uma experiência prática, só que ninguém admite (nem eu), e ficamos só fazendo sexo oral: falando, falando, falando. Refiro-me mesmo é ao prazer (não pecado) de comer carne (no sentido digestivo, não no bíblico). E, mais especificamente, à incomparável sensação de comer uma carne de sertão.

As minhas heranças genéticas somadas às inexoráveis voltas em torno do Sol apontam para o avizinhamento dessa assustadora possibilidade de cerceamento dietético. Nada me fará mais infeliz. Que sentido terá a minha vida sem um naco dessa carne maravilhosa e democrática? Será que vou ter que me contentar em passar a comer isopor, polipropileno ou folhas com gosto de gramíneas, como a rúcula?

Se eu nunca mais puder colocar um pedaço de carne de sertão na grelha e sentir seu aroma se espalhando criminosamente pelo bairro, enquanto preparo uma farofa de água – combinação perfeita – para depois degustar com um molho lambão, nada mais fará sentido. E o que dizer daquele ensopado de abóbora com um charquezinho? E as quiabadas? Vão ser na base do quiabo com quiabo? O escondidinho vai esconder o quê? Repolho? Os cozidos e as feijoadas vão pegar gosto de que forma? Com couve? O arroz-de-carreteiro vai ser na base do risoto de espinafre? Isso é a visão mais próxima do Apocalipse que posso conceber.

Na época do Plano Cruzado, quando houve generalizado desabastecimento de quase todos os gêneros alimentícios, o que mais me aterrorizou foi a falta da carne de sertão. Depois de conseguir leite de Chernobyl e de achar um açougue no fim de linha de Pirajá que tinha um mirrado e disputado estoque da carne de boi que minha mulher exigia que eu providenciasse, para provar que eu era macho e voltar a me dirigir a palavra, saí em missão cívica e olímpica atrás de preciosa carne de sertão. Coloquei em funcionamento minha rede de informantes do Engenho Velho da Federação ao Pau da Lima, passando pela Mata Escura e adjacências. Finalmente chegou a notícia, pouco precisa, que havia uma barraca na Feira de São Joaquim que tinha a bicha, quer dizer, a carne.

Peguei o meu Passat 76, o Missão Impossível (esse carro se auto-destruirá em 5 segundos), e rumei para lá. Como a informação foi genérica, passei a percorrer freneticamente aquele labirinto babélico. Pergunta daqui, pergunta dali, finalmente achei o tesouro: três enormes mantas de charque. Vai querer dianteiro ou ponta de agulha? – perguntou-me o feirante. Ora, meu amigo, pode enfiar a agulha no dianteiro, no traseiro, que eu vou é levar tudo! Descapitalizei-me, é bem verdade, mas comprei carne de sertão que durou até quase o Plano Real. Devo confessar que o carro ficou com aquele cheiro característico por um bom tempo e logo depois apareceu um buraco no porta-malas, acho que foi por causa do sal da carne, mas nem liguei. Na verdade, tive até a idéia de usar pedaços do carpete impregnado no caldo do cozido, para dar um gostinho, mas, minha mulher, não sei por quê, rejeitou minha sugestão furiosamente.

Por tudo isso, nesse momento filosófico da vida, já tenho uma clara certeza: o sentido da vida é comer carne de sertão. Seja ela crua com farinha seca, frita, assada, cozida, ensopada. E se depois da vida eu me vir num lugar em que não exista carne de sertão, será o inferno.