domingo, 25 de fevereiro de 2024

Um sósia




Ao longo da vida tenho constatado evidências empíricas de que várias sequências do meu DNA têm sido usadas para reproduzir minhas características físicas, mormente as faciais. Sempre foi muito comum ser apresentado a alguém e ouvir um “você é cara de...”, “menino, você é irmão de ...?” ou mesmo apenas um “você me lembra muito...”

Esse assunto me foi trazido à mente agora depois de ler a matéria da BBC que pode ser encontrada nesse link: https://www.bbc.com/portuguese/curiosidades-63600059

Entre as muitas histórias envolvendo sósias ou quase sósias que se passaram comigo, tem um episódio que aconteceu na minha adolescência, relacionado a um cara que diziam ser muito parecido comigo, e que era da mesma cidade do interior em que eu morava. Éramos companheiros de babas e convivíamos com as mesmas turmas. Eu não nos achava assim tão parecidos, mas sempre que eu ia reconhecer uma firma no Tabelionato de Seu Amabérico, ele me perguntava pelo meu pai (no caso, o pai do sósia) e eu tinha que lhe esclarecer que oficialmente meu pai era outro e que ele devia estar me confundindo com Afonso*.

Pois então, durante uma ensolarada manhã de domingo numa micareta, eu estava num bloco de maioria mascarada e suspendi a máscara até o topo da cabeça por uns instantes pra secar o suor do rosto. Depois recoloquei a máscara e continuei ali no meio do bloco. Logo em seguida, uma menina sem máscara me abraçou pela cintura e ficou me acariciando. Eu, agradavelmente surpreso, tratei de retribuir, depois de conferir os atributos físicos da desconhecida beldade e, na primeira oportunidade, saímos do bloco sendo atraídos para um beco onde poderíamos dar uns amassos mais privadamente, ainda que num espaço tão público (ambiente que para adolescentes com o cérebro inundado de hormônios é como estar numa ilha deserta – não se está nem aí para os circunstantes).

Então, num determinado momento, quando já nos encontrávamos adiantados nos procedimentos libidinosos palpatórios, osculatórios e assemelhados, ela me encarou bem e, assustada, exclamou: “Você não é Afonso, não?”.

Revelação: era namorada de Afonso! Vinha de outra cidade.

Ela me pediu mil desculpas! Eu a desculpei mil vezes e a fiz ver que foi um imenso prazer conhecê-la naquelas circunstâncias. Disse-lhe que Afonso era meu amigo (até então) e que eu nunca iria ter a iniciativa de colocá-lo a par daquele nosso momento de inocente mal entendido bem aproveitado, embora interrompido abruptamente. Ela se foi, devolvendo para mim algumas vezes um olhar confuso, até hesitante, eu diria, à medida que se distanciava. Resolvi voltar para o bloco e continuar sem a máscara, não sei se para evitar ou para atrair de volta a aturdida e inominada criatura.

Foi mal aí, Afonso, mas foi muito bom, pelo menos pra mim, ser seu sósia naquele dia!

 

*O nome verdadeiro do meu amigo, obviamente, está sendo omitido/substituído para manutenção da devida discrição que o incidente requer.

domingo, 4 de junho de 2023

Reflexões divinas

 


Resposta a um vídeo de um pastor, no qual ele diz que Deus não existe, ELE É; que Deus não se preocupa se você acredita ou não nele, e que Deus não é matéria de discussão de nenhuma natureza, de constatações, de demonstrações, de palpabilidades; que ele não existe porque não está em lugar nenhum pra ser demonstrado, pra ser provado:

[Vocês podem não acreditar, mas não há um só deus: há inúmeros. E eles não existem: SÃO. Tem deus que regula a gula, tem deus que controla a órbita dos planetas, tem deus especializado em definir e acompanhar o percurso das abelhas, tem deus que traz poemas e canções para alguns eleitos, tem até deus que ajuda o goleiro a defender pênalti. E eles não estão nem aí para o fato de você acreditar ou não neles. Eles não precisam de prova de suas existências porque vivem não existindo, mas sendo por aí indefinidamente sempre, desde sempre, e são imperscrutáveis por nossos limitadíssimos meios.]

É apenas um comentário sarcástico para confrontar a ideia de que se a existência da divindade não pode ser submetida a prova, logo qualquer ideia do que ela supostamente seja pode ser aventada e, consequentemente, validada, já que não pode ser testada nem, portanto, descartada. Então aí cabe o politeísmo, os duendes, quaisquer seres mitológicos, quaisquer ideias estapafúrdias, no papel de geradores e comandantes das sopas de ondas e partículas incertas que compõem esse universozinho de meu deus.

Quod gratis asseritur, gratis negatur (O que é afirmado gratuitamente é negado gratuitamente) ou "What can be asserted without evidence can also be dismissed without evidence" (O que pode ser afirmado sem provas pode ser rejeitado sem provas) - conhecido com "A navalha de Hitchens" ou "Afirmações extraordinárias exigem evidências extraordinárias", conhecido como Padrão Sagan.

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Sondando os mistérios

Dúvidas infantis que costumavam me intrigar: a presença de mamas (ou só de mamilos) nos mamíferos machos é para favorecer uma eventual mudança de rumos do portador? E o Criador, que fez o Homem à sua imagem e semelhança, tem mamilos ou não? Tem narinas, pulmões, precisa respirar? Tem unhas? E umbigo? Nunca me satisfiz com aquelas respostas tipo "são mistérios insondáveis", porque na escola nunca me permitiram responder a nenhuma questão de prova com esse tipo de resposta. Também depois de tomar alguns cascudos e puxões de orelha após verbalizar esse tipo de curiosidade, concluí que era melhor guardar essas perguntas só para consumo individual. E com o passar do tempo percebi que só a questão da presença dos mamilos nos mamíferos machos tinha alguma relevância e possibilidade de ser respondida concretamente.

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Capangas da divindade

Um deus todo-poderoso que, sabe-se lá o porquê, não pode aniquilar diretamente seres que ele mesmo teria criado para não crerem nele... Que coisa!

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Blindando sua religião

Não acreditar é pecado; ter dúvidas é pecado; não ter fé é pecado; fraquejar é pecado; questionar é pecado; contestar é pecado; ridicularizar é pecado. Se você criasse uma religião, uma seita, um sistema de crenças, você deixaria a sua clientela livre para discordar, duvidar, contestar, questionar? Ou conferiria autoridade e sacralidade suficientes aos postulados dessa religião para que eles não fossem ameaçados nem tivessem a veracidade posta em dúvida?

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Respondendo às orações

Sabe quando você quer muito alguma coisa, fecha os olhos e pede por uma intervenção divina em seu favor ou de alguém próximo? Pois é: Deus é aquele que não responde às suas preces na grande maioria das vezes. Só que você não atribui isso a ele ou à falta dele. Mas se o que você desejava vier a acontecer, então a conexão divina está configurada, comprovada, etc. lsso pode ser denominado de wishful thinking (pensamento ilusório ou pensamento desejoso), e, portanto, não é verdadeiro.

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Os mistérios do mundo

Você foi ensinado a se satisfazer em não entender o mundo?  Não?  Pense bem, pois é isso que as religiões fazem - elas não estimulam a sua curiosidade. Muito pelo contrário.  Você foi ensinado a achar que há coisas que escapam à nossa compreensão e que essas coisas seriam apenas do domínio de algo superior?  Sim?  Deixe-me adivinhar: foi na sua educação religiosa. Não aceite postulados que suprimam o uso da sua razão. É importante se interessar em conhecer a natureza das coisas. Os mistérios do mundo estão aí para estimular nossa busca pelo conhecimento. Duvide, questione, pesquise, pense. Você é um Homo sapiens sapiens!

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O perigo da curiosidade

Aos curiosos e cientistas, eis as palavras de "incentivo" de Santo Agostinho pra vocês:  "There is another form of temptation, even more fraught with danger. This is the disease of curiosity. It is this which drives us to try and discover the secrets of nature, those secrets which are beyond our understanding, which can avail us nothing and which man should not wish to learn" (Confessions). Tradução livre: "Existe ainda uma outra forma de tentação, ainda mais repleta de perigo. É a doença da curiosidade. É essa que nos leva a buscar provar e descobrir os segredos da Natureza, segredos, esses, que estão além do nosso entendimento, os quais não podem nos beneficiar em nada e que as pessoas não deviam desejar entender" (Confissões).

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Eu não

Você precisa recorrer ao sobrenatural para levar a vida?

Você vive intimidado por temores a divindades, demônios e pela perspectiva de ser julgado após a morte?

Você acha que a vida é um preâmbulo menor que pode ser perfeitamente desperdiçado? Você acha que vai ter outra chance para reparar eventuais danos a si próprio e aos outros?

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O Tablet da Lei

As Tábuas da Lei com os 10 mandamentos estão defasadas.  Deve vir aí o Tablet da Lei, que só se referirá a fé, temor e dízimo. Furtos, assassinatos, falsos testemunhos, adultérios, castidades, cobiças, convenhamos, são pura letra morta - não pegaram.

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1º mandamento

Adore-me para que eu possa lhe salvar do que eu farei no caso de você não me adorar.

E olhem que no 1° mandamento, que não é o que o cristianismo inventou ("Amar a Deus sobre todas as coisas") e sim, "Não terás outros deuses diante de mim" (originalmente, ao pé da letra: "Não estará para ti deuses outros sobre as faces de mim") - há uma estranha admissão da existência de outros deuses... Interessante.

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Visões de mundo (traduzido e parcialmente adaptado de comentários na internet)

Visão de mundo do fundamentalista:

Eu sei que Deus criou o universo inteiro apenas para o benefício dos seres humanos. Ele me vigia constantemente e se preocupa com tudo o que digo e faço. Eu sei como Ele quer que eu e todo o mundo se comporte e creia. Ele é perfeito e justo, e é por isso que enfrentaremos uma eternidade de bem-aventurança ou de tortura, dependendo se acreditamos ou não nEle. 

Visão de mundo do ateu:

Nós somos o produto de milhões de anos de evolução. A maioria das espécies está extinta, assim como os seres humanos acabarão por estar. Espero fazer a diferença de modo positivo em minha existência, porque é a coisa certa a fazer, não por causa de futuras recompensas ou punições numa vida após a morte. Quando eu não sei alguma coisa, eu digo: "Eu não sei."

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Milagres são tragédias precisamente evitadas pelo acaso.

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Estranha mente humana, que tem gerado deuses que se comprazem com adulações e sacrifícios. Estranhos deuses esses que acolhem puxa-sacos torpes e falsos. Deuses que necessitam alimentar-se do aniquilamento de criaturas inocentes ou da abstinência dos prazeres da vida e supressão do pensamento crítico.

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"Basicamente para mim, não há muita saída a não ser aceitar que os humanos, boa parte deles, mesmo quando adultos, seguem com mentes estruturadas (provavelmente por predisposição genética) para interpretar o mundo de uma forma mágica, de modo que não podemos esperar deles racionalismo para interpretar fenômenos da Natureza." (Maria Cátira Bortolini, UFRGS)

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Seria bom que as pessoas tivessem clareza que a blasfêmia é um “crime” contra Deus, portanto só pode ser cometido por quem professa a crença em Deus.

Para um ateu, a blasfêmia é um “crime” sem vítima.

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Blasfêmia é o nome que se dá à difamação de alguns seres que só existem no imaginário.

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 E, no final, o que você vai ser ao morrer é o mesmo que você era antes de nascer.

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Dúvidas infantis que costumavam me intrigar: a presença de mamas (ou só de mamilos) nos mamíferos machos é para favorecer uma eventual mudança de rumos do portador? E o Criador, que fez o Homem à sua imagem e semelhança, tem mamilos ou não? Tem narinas, pulmões, precisa respirar? Tem unhas? E umbigo? Nunca me satisfiz com aquelas respostas tipo "são mistérios insondáveis", porque na escola nunca me permitiram responder a nenhuma questão de prova com esse tipo de argumentação. Claro que só bem mais tarde fui saber que a espécie humana, como todos os mamíferos, têm mamilos porque o desenvolvimento do embrião, antes da definição do sexo, que ocorre mais tarde, segue o mesmo padrão para sexo masculino e feminino, contempla as mesmas estruturas, incluindo a formação dos mamilos. 

Também, depois de tomar alguns cascudos e puxões de orelha após verbalizar esse tipo de curiosidade, concluí que era melhor guardar essas perguntas só para consumo individual. E com o passar do tempo percebi que só a questão da presença dos mamilos nos mamíferos machos tinha alguma relevância e possibilidade de ser respondida concretamente.




No meu tempo



Perguntas a meu neto:

Você sabe o que é um disco de música? Você sabe o que é discar um número? O que é um orelhão? O que é um tubo de imagem? Um seletor de canais? O que é um videocassete? O que é rebobinar uma fita? O que é uma agulha de vitrola?

Poderia continuar esse interrogatório por essa tarde inteira e não esgotaria as perguntas.

E pensar que a seu pai (meu filho) eu perguntava se ele sabia o que era um ferro de passar roupa a carvão; uma tramela; um trem a vapor; um fogareiro a querosene; um abano; um vasculhador; um escovão; uma enceradeira; uma galocha; a "friza" do cinema…

Não me lembro de meu pai ter-me falado de muitas coisas do tempo dele que já estivessem em desuso. Talvez tenha referido as moedas de réis, patacas, algumas práticas médicas temerárias que felizmente foram abandonadas (auto-hemoterapia, sangrias, etc), mas em termos tecnológicos, por exemplo, eu convivi com praticamente tudo que havia na juventude do meu pai.

Depois que eu casei, tenho testemunhado um vertiginoso movimento de introdução e superação de inovações tecnológicas, as quais tenho-me esforçado para acompanhar, porque, enquanto eu estiver vivo e capaz de observar e absorver o mundo ao meu redor, este também é meu tempo.

Para alguém que conviveu com ecos do paleolítico, Idade Média e  Brasil Colonial na infância, é natural surpreender-se e maravilhar-se com os avanços tecnológicos, como o iPhone em que essa mensagem está sendo digitada enquanto a tela mostra previews de incoming messages do Whatsapp e o tocador de música faz soar limpidamente "The Ballad of John and Yoko".

Temos feito grandes aperfeiçoamentos no mundo das máquinas e dos aparelhos. Já nas pessoas...




sábado, 5 de novembro de 2022

Melody



No início da década de 1970 eu costumava assistir aos filmes do recém-criado “Corujão da Madrugada”. Num desses filmes, cujo nome não gravei na época e que abordava uma história de amor infanto-juvenil, eu ouvi uma música linda, e que ficou gravada em minha mente apenas pela palavra “Melody”, nome da menina protagonista, que era repetido no refrão. 

Fiquei intrigado para descobrir que música era aquela - não consegui ver os créditos. Pareceu-me soar como os Beatles, mas achei improvável eu nunca tê-la ouvido antes. Nenhuma pessoa amiga a quem perguntei pela música, citando as poucas características que tinha preservado na memória, a conhecia nem tinha meios de me ajudar. Lembro de ter imaginado que num futuro de ficção científica deveria haver recursos pra que a gente pudesse fazer uma busca, fosse com dados do filme ou assobiando ou solfejando a música e aí aparecendo o resultado por mágica na nossa frente.

 

O fato é que acabei por redescobrir (ou descobrir) quem cantava essa música, pouco mais de 10 anos depois, num dia de sábado pela manhã em que estava de plantão no Hospital do Tórax (atualmente Hospital Santo Amaro), e alguém na vizinhança do Cemitério do Campo Santo estava ouvindo um LP com sucessos dos Bee Gees, quando de repente o ar se encheu com os acordes e vozes da dita música. Foi um verdadeiro achado. Cheguei em casa exultante e disse pra minha mulher que tinha descoberto quem cantava a música que ela, assim como eu, tinha ouvido uma vez e achado que era som dos Beatles. Nós já tínhamos um álbum duplo de Greatest Hits dos Bee Gees, mas, obviamente, essa música não estava lá. 

 

Aí parti para uma busca desenfreada nas casas de discos e nas seções de música da Mesbla, Sandiz e Paes Mendonça. Como eu não sabia o título da música, a estratégia era pegar o disco, levar pra vitrola da loja, colocar os fones e ir passando faixa por faixa aquelas cujos títulos não me eram familiares. Foi uma mineração árdua e infrutífera por um bom tempo.

 

Apenas quando os CDs chegaram ao mercado foi que finalmente encontrei a gema preciosa. Numa coletânea com nem tão grandes sucessos dos Bee Gees, lá estava ela: Melody Fair! A última faixa do CD. Ufa! Finalmente! Levei meu troféu pra casa e toquei Melody Fair numa quantidade de repetições de causar o mesmo efeito ocorrido com o gato de João Gilberto (quem não souber da história, informe-se). Tentei tirar a letra completa, mas ficaram umas lacunas. Só tempos depois fui descobrir que o filme, de 1971, se chamava “Melody” e recebeu no Brasil o título de “Quando brota o amor”.

 

Todas essas lembranças me ocorreram agora, quando acabo de ver um filme em que no final tocou um blues que achei interessante e automaticamente peguei o celular, abri o aplicativo Shazam e imediatamente a música foi localizada, identificada e disponibilizada para eu ouvir e baixar se quisesse. Aquilo que eu um dia imaginei só ser possível na ficção, agora faz parte das possibilidades de maneira natural. Não há alardes, espantos nem admirações para esse feito tecnológico. Mas, pra mim, o Shazam é o melhor e mais inacreditável aplicativo disponível no mundo real, virtual, ficcional e afetivo. Minhas congratulações a quem criou. Só acho que podia se chamar Melody!

 

 Atualização: o Google passou a disponibilizar uma função de localizar músicas, na qual você só precisa solfejar a melodia com um lá-lá-lá (até desentoado) para que apareçam os links/arquivos onde essa possível música pode ser encontrada. Um avanço e tanto. Eu me sinto privilegiado por ainda estar vivo e testemunhar esses feitos. Mas ainda aguardo que os programas de Inteligência Artificial componham uma música que preste. :)



terça-feira, 13 de setembro de 2022

ALMOÇO DE FATO


Lá nos remotos anos 60, na ainda mais remota Nazareth City ou Nazaré das Farinhas ou apenas Nazaré (para os nativos como eu e para a Geografia), os domingos me apresentavam de quando em vez o temível "almoço de fato" (ou fatada)  - preparação culinária desenvolvida (suponho) para competir com o gás mostarda na I Guerra Mundial visando ao extermínio de exércitos inteiros na primeira garfada ou nas poucas subsequentes.

A composição dessa temerária comida se constitui primordialmente de porções de todos os órgãos e tecidos presentes na cavidade abdominal bovina, incluindo aquelas esquisitices estomacais do ruminante que comportam até algo chamado “livro”, mais umas carnezinhas.  Tudo isso e mais temperos e condimentos diversos iam para a panela a fim de gerar um odor nauseabundo de vômito e golfadas em conserva, que circulava por toda a casa e, imagino, pelas redondezas, impregnando a mucosa olfatória de maneira tão persistente que se ameaçava perene. Ao fim do cozimento, as porções sólidas da coisa eram segregadas; com o que ficava na panela estava gerado um aterrorizante caldo, que devia conter toda a gordura prevista para um ser humano ingerir durante sua completa existência. A esse caldo era adicionada generosa e gradativa quantidade de farinha de mandioca para gerar o imprescindível pirão, o qual já trazia em si a fórmula dos adesivos mais potentes, pois ia se recusando firmemente a se desprender da colher de pau, exigindo determinação e autoridade de quem cozinhava para fazer sua remoção entre recipientes quando atingia o ponto de preparo ou ponto gatilho.

A gororoba pastosa era colocada sobre a mesa, ao lado (ou mesmo distante) das partes sólidas ou quase isso. Uns salivavam enquanto outros se benziam ou se persignavam (meu caso). Havia quem colocasse molho (de pimenta) no pirão para aumentar seu efeito devastador. A ingestão era acompanhada da sensação de deglutição incompleta, pois o pirão (não surpreendentemente) insistia em ficar grudado no palato. Os fatos propriamente ditos iam sendo, na medida do possível, mastigados e lançados diretamente da boca ao piloro, para indicar a trajetória e o sentido a ser seguido.

O meu temor e repugnância pela iguaria eram reforçados pelas histórias, contadas bem nessa hora do almoço, dos infelizes destinos de comensais que, após o consumo desse prato, experimentaram imediata indigestão,  congestão, derrames, paralisias, catatonias, estupores, só por se terem envolvido pós-prandialmente em atividade muscular outra que não apenas os movimentos respiratórios (cautelosos).

Não deve ser por outra razão, meus caros, que desenvolvi aversão ao domínio do fato.


24/05/2016


segunda-feira, 17 de maio de 2021

Esportes radicais da minha juventude (ou luta pela sobrevivência)

- Sair correndo do Ferry Boat, em Bom Despacho, para chegar no guichê da Viazul a tempo de conseguir comprar uma passagem de poltrona, para não ter que viajar em pé até Nazaré;

- rasgar o bilhete do Ferry Boat no meio longitudinalmente, depois dobrá-lo algumas vezes até ficar bem fino, entregar uma metade na saída, depois, noutro dia utilizar a outra metade numa segunda viagem, economizando o valor de uma passagem (tudo feito no momento de maior movimento dos passageiros para não possibilitar uma conferência mais detida do bilhete);  

- andar de "morcego" nos ônibus da Vibemsa  que subiam a Ladeira da Barra ou a Barra Avenida, para não ter que voltar da praia do Porto e subir a pé até a Vitória (a essa altura do dia não havia mais dinheiro disponível pra pagar a passagem do ônibus);

- servir de intérprete e guia de marinheiros americanos, que aportavam em Salvador, pelos bares e bregas do centro, para praticar o inglês e tomar cerveja de graça; 

- comer pastel do chinês da Carlos Gomes, merenda escolar do Colégio Luiz Viana, picolé com água do Dique e sanduíche "comeu-morreu" na geral da Fonte Nova... e sobreviver para repetir a dose;

- entrar na Fonte Nova com meu irmão com ingresso da "geral", saltar no fosso, correr para fugir da vigilância e pendurar-se para subir até a arquibancada com a ajuda de outros torcedores, depois escalar as manilhas do esgoto para acessar a área das cadeiras numeradas superiores ou das cadeiras cativas;

- dar espeto no Tatu-Paka, Jereré, Braseiro, padaria em frente à Unimar do Rio Vermelho, com outros amigos, e sair picado sendo perseguido aos gritos de "Pega! Espeto!";

- subornar com algumas moedas o garçom do restaurante do SENAC, no clube do SESC, para ele trazer porções extras da comida do dia (que já era bem barata); 

- frequentar xinxim de bofe dançante no Bairro Macaúbas, caruru de preceito (sem sal) no Alto das Pombas (como penetra); 

- assistir ao filme "Operação Dragão" no Cine Jandaia e me tornar sparring dos espectadores da fila de trás que reproduziam os chutes e voadoras de Bruce Lee no recosto da minha poltrona; 

- ficar na janela do pensionato na Joana Angélica cerrando cigarros dos passantes que vinham com maços salientemente visíveis no bolso da camisa e, no final da empreitada, conseguir encher uma carteira vazia de Carlton com cigarros de quase todas as marcas disponíveis no mercado;

- tomar banho na fonte da Ladeira da Preguiça (quando faltava água no pensionato) junto às moças da difícil vida fácil;

- levar o livro de Histologia para estudar sob a luz do poste de iluminação pública no Areal de Baixo, porque no meu quarto do pensionato o pessoal estava ouvindo rock pesado, fumando maconha, o que não me possibilitava uma concentração aceitável para o propósito do estudo em questão; 

- pular na pipoca do trio de Dodô e Osmar em frente ao Cine Guarani, receber no olho uma lata de Skol metade cheia (quando a lata era feita de lata) e tentar sair da muvuca para ir em busca de atendimento médico sem estar enxergando nada...

- e tantas outras modalidades olímpicas que o meu atual corpo, em perfeito estado de degeneração, nem ousa supor.


segunda-feira, 12 de abril de 2021

Curta do que curti

 

Há um mito de que no momento da morte a sua vida passa diante dos seus olhos. Imagino que deva ser um curta-metragem em velocidade aumentada. Pensando nisso, e também na possibilidade de que esse momento me chegue sem um nítido aviso ou que nessa hora eu me encontre num estado de confusão mental mais acentuado que o habitual, decidi preparar logo o roteiro para esse filmezinho, com a peculiaridade de que esse curta deverá recorrer às minhas memórias infantis e incluir apenas coisas de comer, com suas consistências, gostos e cheiros, além das imagens. Manda a prudência que os registros das minhas experiências e atos outros sejam deixados de fora.

Então, vamos lá: luz, câmeras, texturas, sabores, aromas, ação!

Melaço de cana com farinha; banana da terra cozida amassada e misturada com tapioca torrada com coco e açúcar; café com tapioca torrada com coco e açúcar; banana da terra cozida, amassada e misturada com coco ralado; banana da terra frita coberta com açúcar misturado com canela em pó; aipim cozido amassado ainda quente e misturado com manteiga; losangos de bolo de aipim; doce de tamarindo; picolé de tamarindo; abafabanca de tamarindo; jambo bem maduro; sapoti maduro; seriguela de vez; cajá; mané véi; ingá; bacupari;  manga carlota; carne de sertão assada na brasa com farofa molhada de café com folhas de hortelã; carne passada com chuchu; salada de massambê assado com farofa de azeite de dendê, água e sal; salada de bacalhau também com com farofa de azeite de dendê, água e sal;  pão cacetinho sem o miolo, recheado de choriça assada na brasa enquanto envolta em papel de embrulho; pão fatia da Padaria de Passarinho; bolacha americana da Padaria Vitória, com manteiga; mingau de aveia com pedacinhos de pão picados e imersos; rolete de cana; caldo de cana; cana assada; chorete; acaçá de leite; caroço de jaca cozido; amendoim cozido; milho assado; fufuca (castanha de caju assada, triturada bem fina e misturada com açúcar); quebra-queixo; pirulito de mel; bolinho de goma; doce de Leite Moça; caramujo (cem recheio de camarão); cajuzinho; coco mole comido com colher; doce de araçá em compotas; calda do doce de araçá em compotas com farinha; doce de groselha; calda do doce de groselha com farinha; doce em calda de leite cortado; doce em calda de banana prata em rodinhas; torradas com chá mate; pão com manteiga, torrado e embebido no café com leite; bolo de ovo molhado no café; manauê, manauê, manauê...