sexta-feira, 29 de março de 2024

Salvador 475 anos. Eu, 50 anos em Salvador (com várias estadias temporárias anteriores).

 





Navios El Rey, João das Botas, Maragogipe, Itaparica e Espera “jogando” na meia-travessa; a visão progressivamente imponente da cidade, em camadas, vista do mar; chegada no cais da Companhia de Navegação Bahiana (ou só “Bahiana”); maçãs argentinas com muito cheiro e pouco gosto expostas sobre caixotes no Terminal da França; ônibus elétricos (trólebus) da SMTC na cidade baixa; cheiro da fábrica dos chocolates Chadler nos Mares e do Café Cravo no Caminho de Areia; leite Alimba na garrafa marrom entregue nas portas; subir pelo Elevador Lacerda e descer pelo Plano Inclinado; ver os outros tomando sorvete na Cubana (e não ter dinheiro pra tomar também); dar uma volta na escada rolante das Duas Américas; a “Mulher de Roxo”; ficar observando o desempenho coreográfico do Guarda Pelé orientando o trânsito: ver os cartazes dos cinemas Excelsior, Liceu, Astor, Popular, Tamoio, Guarany, Bahia, Capri, Bristol; assistir a um filme fumando na cabine de fumantes do Cine Bahia; comer um hambúrguer do Rose’s; uma banana split das Lojas Brasileiras; uma fatia de torta de tapioca do Savoy; um pastel do chinês da Carlos Gomes; um caldo de cana do meio de uma rua qualquer; passear na Avenida Sete olhando o interior das Lojas Sadel, M Kraychete, Radiolar, Florensilva, Romelsa, Saffilhos, Clark Calçados, A Norma…; ficar ouvindo um som na loja de discos da Fundação Politécnica e olhando o desfile das cocotas; um cachorro-quente no trailer do Tony’s ou no Baitakão; a esfiha de rosbife da Unimar da Fonte Nova; a ficha pros orelhões da Tebasa; entrar bem antes do xaréu da Fonte Nova abrir, pelo portão das numeradas superiores e cadeiras cativas, na ladeira, que ficava encostado e a dois passos do meu pensionato na Joana Angélica; ficar na janela do pensionato cerrando cigarros dos passantes até completar uma carteira; entrar de penetra no Baile de Iemanjá, no Clube Português;  também penetrar no Grito de Carnaval do Fantoches da Euterpe e ainda dar espeto no bar; dar espeto também no Braseiro da Carlos Gomes, no Tatu Paka da Pituba, no Jereré de Amaralina; subir a Ladeira da Barra de “morcego” num ônibus da Vibemsa; ir num “xinxim de bofe dançante” no Bairro Macaúbas; fazer serenata na Lagoa do Abaeté bebendo cambuí; bater um baba no SESC de Piatã e depois comer uma dobradinha barata no restaurante do SENAC dentro do próprio clube; ir pra missa das 18:00h, dos domingos, na Igreja de Santana ou no Mosteiro de São Bento, só pra ver uma renca de menina bonita; dar uns amassos na praia atrás do Língua de Prata, em Itapuã; dançar no Pá da Baleia e não conseguir pegar ninguém; passar várias vezes na porta da Boite Anjo Azul e nunca entrar por não ter dinheiro; tomar uma batida de pitanga em Diolino, no Rio Vermelho, e um caldo de sururu no Popular Batidas, na Pituba; ir pra faculdade andando pra economizar dinheiro pro lanche na cantina e pro ingresso do cinema; ir para um sambão na Barraca de Juvená; tomar uma cerveja no Peji, do Orixás Center ou farrear no Avalanches, do Canela; tomar incontáveis chopes no Oceania, no Farol, quando os colegas pagavam minha parte, acumulando uma pilha de "bolachas"; comer uma pizza depois de vários chopes na Dom Giovanni do terraço do Shopping Iguatemi recém-inaugurado; pegar um galeto assado do abatedouro na esquina do Areal de Baixo, no Largo 2 de Julho, levar pro pensionato e comer tomando uma Brahma gelada; comer uma vara de pão de sal de semolina quentinha com manteiga derretendo e arrematar com uma garrafa de Guaraná Antárctica, em qualquer padaria das imediações do pensionato em que eu estivesse morando na Joana Angélica, no Lanat ou no Largo 2 de Julho; dar plantão como interno no atendimento de emergência no Pronto Socorro do HGV, no Canela, sonhando em ter um rápido tempo livre para atravessar a rua e fazer um lanche no Paes Mendonça defronte; namorar bastante no Largo 2 de Julho, noivar, casar na Igreja dos Aflitos, ter filhos paridos no IPERBA, preparados no ensino pelo Social e formados pela UFBA, netos paridos no Hospital Santo Amaro e Mater Dei, viajar muito e voltar sempre pra esta cidade, que não é mais a mesma, mas é quase igual.



sábado, 9 de março de 2024

Sobre um deus e fé

 


Eu levei um tempo da minha vida fazendo cherry picking (escolha seletiva com supressão de evidências indesejáveis), usando viés de confirmação, em relação a possíveis indícios da existência do Deus bíblico.

Depois fui colher as frutas podres lá nas Escrituras e me permiti ver que todo o conjunto, de cabo a rabo, era obra humana, apenas humana, gritantemente humana, cheia de desumanidades. E parte considerável era mítica, fabular, com adaptações de mitos e lendas de outros povos, repleta de contradições, de pensamento mágico, de absurdos antinaturais. No Velho Testamento criaram um deus com distúrbio de múltipla personalidade, uma pior que a outra, convenhamos; e no Novo Testamento há uma inseminação artificial, um pai ausente, clamores sem respostas de um filho que fala com o pai, mas que é o pai simultaneamente, e muito diabo. Percebi que talvez fosse menos danoso para a humanidade se continuássemos acreditando em Papai Noel depois de adultos e desfrutando do conforto psicológico proporcionado por essa figura mágica que recompensa nosso bom procedimento e nos ignora se não nos comportamos bem, do que substituir esse mito infantil pelo consolo na "maturidade" de um deus elaborado para suprir nossa necessidade de conforto emocional e propósito existencial, mas que se presta a todo tipo de exploração e manipulação por parte das religiões organizadas e suas autoridades outorgadas ou autoproclamadas - entretanto, conhecendo bem a dinâmica das sociedades humanas, a imagem do Papai Noel fatalmente seria ressignificada e alvo das mesmas explorações dos atuais deuses dos adultos. Enfim, desfiz (libertei-me de) minha configuração mental que, prolongando-se da infância, aceitava como possível a ocorrência de eventos lendários, fabulosos, míticos, quiméricos, alegóricos… em suma, inventados.

A seguir abdiquei também da ideia de um deus criador, porque teria que imputar a ele (esse argumento não é originalmente meu) o osteossarcoma (câncer ósseo infantil), para citar uma neoplasia, dolorosa, que acomete crianças. Sem contar que esse deus também seria responsável pelos inúmeros vírus e outros microrganismos que se abatem sobre crianças e lhes causam imensos sofrimentos e sequelas (paralisia infantil, por exemplo). Face a tais exemplos ilustrativos, entre muitos outros, concluí que não podia levar adiante um sistema de crença em um ser superior criador com tal nível de canalhice. Convenhamos que ser superior canalha é uma contradição de termos, um oxímoro.

A ideia do deus criador também traz a questão da necessidade de haver uma anterioridade e causalidade desse criador, ou seja, um criador do criador e toda essa sequência retrógrada teria que ter uma complexidade crescente. Explicando: um ser capaz de criar, num estalar de dedos ou num plano meticulosamente arquitetado, o Universo (com maiúscula), este que é o único que conhecemos por enquanto, já com todas as leis físicas, com a constituição da matéria visível e invisível, com manifestações de vida estruturadas, tem que ser necessariamente mais complexo que a sua criação e tem que ter sido criado por outra "entidade" criadora ainda mais complexa. Mas aí, os teístas, os defensores do criacionismo ou religiosos em geral, lhe jogam na cara o argumento de que esse deus - por que não deuses? Por que não o politeísmo (uma divisão de tarefas)? - SEMPRE existiu! Uma forma alternativa de interpretar o "eu sou aquele que É" - jogo de palavras que não quer dizer absolutamente nada, apenas substitui um ente substantivo abstrato por um verbo (vago). Ora, isso é uma alegação que escapa à lógica, tirada da cartola: é um Deus ex machina! Não há como argumentar num campo onde impera o pensamento mágico - aí qualquer disparate se torna factível. Sei que é difícil conceber que o tempo (junto com as três dimensões espaciais - espaçotempo) só tenha começado a existir a partir do início deste nosso Universo, que o tic-tac do relógio só foi disparado na singularidade em que o silencioso "Big Bang" deu partida à súbita inflação cósmica, portanto o "sempre" tem lá suas limitações físicas, e o "antes", nesse contexto, é uma limitação da linguagem, pois não existe palavra para expressar o estado das coisas anteriores ao tempo. Quando não é esse "sempre existiu", vem o argumento solapador de qualquer contestação, trazido por Tomás de Aquino: que Deus seria um Ser sem causa, a primeira causa, que não necessitaria de nenhuma força externa para existir. Convenhamos que, se você quer blindar uma doutrina, encerrar uma contestação lógica, filosófica, trazer um argumento desse para a mesa é um ato de desespero, mas extremamente eficiente para por fim a qualquer possibilidade de objeção - segundo esse postulado de Aquino, se tudo tem uma causa precedente, essas causas não podem ser infinitas, tem que haver uma causa primordial e essa causa é justamente quem? O quê? Se pensou em Deus e não numa flutuação quântica no vácuo, ponto para Sonserina! É o famoso deus das lacunas - onde ainda não há explicação ou constatação científica, encaixa-se uma divindade e pronto: não se fala mais nisso. Chega de questionamentos incômodos. Uma resposta simples e impeditiva de escrutínio foi posta na mesa. Só que já existem evidências experimentais mostrando que o vácuo não é vazio; que nesse pretenso nada, sem interferência mágica, pululam flutuações quânticas - energia que, como se sabe, é equivalente a massa (são interconversíveis); essas flutuações surgem e desaparecem em tempo infinitesimal nesse vácuo. Portanto é possível no mundo físico que "algo" surja do "nada", até porque o nada já é algo.

Há também as contradições do deus perfeito (que já num estado de perfeição, mas carente, sente a necessidade de criar um mundo para se divertir? Hum...); tem o deus onipotente (mas que, paradoxalmente, não pode criar nada mais potente que ele, tipo uma Excalibur que nem ele pode desencravar da bigorna), o deus onisciente, onipresente, onibenevolente, e todos os "omni" imagináveis, que ora tudo controla, ora dá o livre arbítrio, ora perdoa, ora pune, ora cuida, ora corrige, ora não está nem aí - haja contradições. Conclusão: sob o ponto de vista lógico, não pode existir um deus perfeito, tal como as grandes religiões monoteístas o concebem.

Ateísmo é sobre crença. Agnosticismo é sobre conhecimento. São domínios distintos, embora ambos estejam se referindo à não existência de divindades. Ateísmo é dizer “eu não aceito a afirmação de que existe divindades”. Agnosticismo é não poder afirmar categoricamente que não existe divindades, por falta de provas da sua existência, mas, diante da absoluta falta de evidências, apostar que a probabilidade de inexistência de divindades é de 99,999...%.

Então ficamos assim: eu não acredito (não tenho fé) na existência de um ou mais de deuses, - ateísmo; eu não tenho (ninguém tem) como provar cientificamente que não existe ou que existe um deus ou deuses - agnosticismo. Na verdade, eu levo minha vida sem incluir questionamento sobre a existência de divindades, assim como não questiono se existe alguma formiga que saiba cantar La donna è mobile em mandarim - tonou-se algo totalmente absurdo e irrelevante para a minha vida interior, embora eu tenha que sobreviver imerso num meio que me sufoca de teísmo (é como se eu tivesse que respirar nitrogênio, por ser o gás mais abundante da atmosfera). Um argumento interessante do comediante ateu Ricky Gervais nesse tema de divindades e não crença nelas é que a humanidade já criou 3000 deuses diferentes ao longo da História; boa parte das pessoas não acredita em 2999 desses deuses e ele apenas não acredita em mais um. Ele também diz que a palavra ateísmo nem devia existir, se não tivessem sido inventado tantos deuses. Eu me sinto confortável e bem melhor sem deuses, sem alma, sem céu ou inferno, sem vida eterna, sem divino, sem destino. O sentido da minha vida é o caminho que eu decidir tomar. Saber objetivamente que o que tenho à disposição, na trajetória do universo até o seu colapso, se apresenta sob a forma da minha existência e atos nesse período de tempo entre meu nascimento e morte (e nada mais), faz a vida se tornar algo raro e de valor inestimável. Quando não se crê que haja a persistência da sua pessoa após a morte (como não existia a sua pessoa antes do sua gestação/nascimento) a vida se torna algo extremamente precioso. Você passa a não ter nada pelo que morrer (a menos que esteja sendo vítima de algum mal que lhe cause um sofrimento intolerável e irreversível), mas tem muito pelo que viver. Tudo se passará aqui nesse palco e na duração do espetáculo. Não tenho que remeter nada a planos imaginários post mortem. Ficarão aí, quando eu morrer, meus genes diluídos na minha descendência, meus escritos, árvores que plantei, outros tênues registros e referências... Depois de algum tempo já não serão mais vistos ou evocados. E terá sido isso. Nenhum propósito especial. Nenhuma missão. Nada além de um elo nas elegantes correntes da vida. Correntes que se estendem e se ramificam aleatoriamente sem rumo e sem nenhuma pretensão além de apenas existir e tornarem a ser e continuarem a ser até quando for e fim.

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O pior, o mais patológico das religiões organizadas é endeusar a fé, instigar e elogiar o crer sem prova, aceitar como verdadeiro algo para o qual não há evidências, sob o argumento da autoridade de religiosos. Significa abolir o raciocínio, o pensamento crítico, não fazer uso das ferramentas que nossa espécie desenvolveu evolutivamente, porque isso coloca em risco o poder do pajé e a credibilidade da pajelança. A fé é a aceitação acrítica do pensamento mágico (definido aqui como a crença que orações alteram a realidade, que é possível a existência de milagres causando a ruptura impune de leis da Natureza, etc) e a inclinação cognitiva para o pensamento ilusório (wishful thinking) - querer, desejar ou precisar que algo seja verdade para ter conforto existencial.

As religiões tratam espertamente de se blindar quando censuram e praticamente criminalizam a situação de ter seus dogmas ameaçados por uma fé cambaleante ou pela falta de fé. Além disso, criam outros “crimes” capitais como a blasfêmia, heresia, etc, que se tornam alvo de punições sociais imediatas (anátemas, excomunhões, opróbios) ou maldições que deverão se cumprir num pós-vida, nesse caso lançando mão da necessária invenção de demônios e inferno.

A fé é uma disposição mental escandalosa. O seu estímulo deveria ser denunciado como assédio intelectual, como insulto, e sua adoção deveria ser desencorajada e abolida nas futuras gerações desde a mais tenra infância.

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Ter fé é crer em algo sem provas, acreditar sem ter evidências, tomar como certa qualquer coisa só por intuição ou porque a autoridade atribuída a alguma pessoa ou a um livro lhe diz ser essa a verdade. A fé afronta a razão e é justamente no abandono da razão, no desprezo da capacidade crítica inerente aos seres racionais, na louvação ao não questionamento, que as religiões lançam suas bases, se estabelecem, vicejam e nos escravizam. Ter fé não deve ser visto como virtude. Muito pelo contrário. Como se pode elogiar um comportamento que prescinde da racionalidade?

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Nenhuma intensidade de convicção ou fé torna algo um fato.

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 O nome daquilo capaz de mover montanhas não é fé, é avalanche ou terremoto.

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 Fé é aquilo em que você acredita (ouvindo as vozes da sua cabeça). Religião é aquilo que os outros dizem pra você acreditar (difundindo o que soa na cabeça deles).

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 O grande mistério do âmbito metafísico que ainda me causa espanto e certa perplexidade é a música; mais especificamente a composição musical, o ato da geração das músicas que lhe arrebatam à primeira audição e que você acha que já existiam, que já estavam prontas em algum depósito no éter de obras a serem desvendadas. Há o relato de diversos compositores que dizem que a música lhes veio completa, assim, do nada (às vezes já com a letra); e que nem parecem terem sido criações suas.

Ângela (minha mulher) costuma classificar as músicas em duas categorias: "com participação divina direta" (as que considera boas, harmônicas, inspiradas e memoráveis) e "música inventada" (aquelas que considera com muita participação humana, pouco inspiradas, muito trabalhadas pela teoria musical, com dissonâncias desconfortáveis sem as devidas consonâncias compensatórias resolutivas, com sucessão de notas que não deixam rastro de poeira de estrelas, que não ficam ecoando e se fixando agradavelmente na memória - estou tentando colocar em termos minimamente racionais o que sei ser gerado por mecanismos mentais meramente intuitivos). Eu geralmente compartilho as opiniões dela na qualificação das composições. Mas ainda não coloco a solução do mistério na categoria da participação de divindade(s), nesse deus das lacunas - (há uma música de Paulo César Pinheiro e João Nogueira, intitulada "O poder da criação", que trata desse tema). Os gregos tiveram essa intuição lá bem remotamente e atribuíram cada arte a uma musa. Enquanto o mistério persiste, vou usufruindo das músicas que considero "divinas".

Do ponto de vista científico, há uma sugestão do físico Roger Penrose de que os microtúbulos celulares teriam funções quânticas (não apenas as funções estruturais) e essas funções implicariam uma conexão com um fluxo quântico do Universo que estaria aí sempre presente, resultando no que se chama de consciência (ou alma ou outra denominação de algo ainda não devidamente compreendido). Analogamente, a consciência originada nesse modelo seria como se o ser fosse um aparelho de rádio que, uma vez ligado, capta os sinais que se encontram aí sempre presentes (podendo incluir, além da ideia de individualidade, a captação de ideias, de invenções, de poemas, de músicas...). Mas o mistério persiste.

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“Afirmações extraordinárias requerem evidências extraordinárias.” (Carl Sagan)

“Fé significa não querer saber o que é verdade.” (Friedrich Nietzsche)

 

 

domingo, 25 de fevereiro de 2024

Um sósia




Ao longo da vida tenho constatado evidências empíricas de que várias sequências do meu DNA têm sido usadas para reproduzir minhas características físicas, mormente as faciais. Sempre foi muito comum ser apresentado a alguém e ouvir um “você é cara de...”, “menino, você é irmão de ...?” ou mesmo apenas um “você me lembra muito...”

Esse assunto me foi trazido à mente agora depois de ler a matéria da BBC que pode ser encontrada nesse link: https://www.bbc.com/portuguese/curiosidades-63600059

Entre as muitas histórias envolvendo sósias ou quase sósias que se passaram comigo, tem um episódio que aconteceu na minha adolescência, relacionado a um cara que diziam ser muito parecido comigo, e que era da mesma cidade do interior em que eu morava. Éramos companheiros de babas e convivíamos com as mesmas turmas. Eu não nos achava assim tão parecidos, mas sempre que eu ia reconhecer uma firma no Tabelionato de Seu Amabérico, ele me perguntava pelo meu pai (no caso, o pai do sósia) e eu tinha que lhe esclarecer que oficialmente meu pai era outro e que ele devia estar me confundindo com Afonso*.

Pois então, durante uma ensolarada manhã de domingo numa micareta, eu estava num bloco de maioria mascarada e suspendi a máscara até o topo da cabeça por uns instantes pra secar o suor do rosto. Depois recoloquei a máscara e continuei ali no meio do bloco. Logo em seguida, uma menina sem máscara me abraçou pela cintura e ficou me acariciando. Eu, agradavelmente surpreso, tratei de retribuir, depois de conferir os atributos físicos da desconhecida beldade e, na primeira oportunidade, saímos do bloco sendo atraídos para um beco onde poderíamos dar uns amassos mais privadamente, ainda que num espaço tão público (ambiente que para adolescentes com o cérebro inundado de hormônios é como estar numa ilha deserta – não se está nem aí para os circunstantes).

Então, num determinado momento, quando já nos encontrávamos adiantados nos procedimentos libidinosos palpatórios, osculatórios e assemelhados, ela me encarou bem e, assustada, exclamou: “Você não é Afonso, não?”.

Revelação: era namorada de Afonso! Vinha de outra cidade.

Ela me pediu mil desculpas! Eu a desculpei mil vezes e a fiz ver que foi um imenso prazer conhecê-la naquelas circunstâncias. Disse-lhe que Afonso era meu amigo (até então) e que eu nunca iria ter a iniciativa de colocá-lo a par daquele nosso momento de inocente mal entendido bem aproveitado, embora interrompido abruptamente. Ela se foi, devolvendo para mim algumas vezes um olhar confuso, até hesitante, eu diria, à medida que se distanciava. Resolvi voltar para o bloco e continuar sem a máscara, não sei se para evitar ou para atrair de volta a aturdida e inominada criatura.

Foi mal aí, Afonso, mas foi muito bom, pelo menos pra mim, ser seu sósia naquele dia!

 

*O nome verdadeiro do meu amigo, obviamente, está sendo omitido/substituído para manutenção da devida discrição que o incidente requer.

domingo, 4 de junho de 2023

Reflexões divinas

 


Resposta a um vídeo de um pastor, no qual ele diz que Deus não existe, ELE É; que Deus não se preocupa se você acredita ou não nele, e que Deus não é matéria de discussão de nenhuma natureza, de constatações, de demonstrações, de palpabilidades; que ele não existe porque não está em lugar nenhum pra ser demonstrado, pra ser provado:

[Vocês podem não acreditar, mas não há um só deus: há inúmeros. E eles não existem: SÃO. Tem deus que regula a gula, tem deus que controla a órbita dos planetas, tem deus especializado em definir e acompanhar o percurso das abelhas, tem deus que traz poemas e canções para alguns eleitos, tem até deus que ajuda o goleiro a defender pênalti. E eles não estão nem aí para o fato de você acreditar ou não neles. Eles não precisam de prova de suas existências porque vivem não existindo, mas sendo por aí indefinidamente sempre, desde sempre, e são imperscrutáveis por nossos limitadíssimos meios.]

É apenas um comentário sarcástico para confrontar a ideia de que se a existência da divindade não pode ser submetida a prova, logo qualquer ideia do que ela supostamente seja pode ser aventada e, consequentemente, validada, já que não pode ser testada nem, portanto, descartada. Então aí cabe o politeísmo, os duendes, quaisquer seres mitológicos, quaisquer ideias estapafúrdias, no papel de geradores e comandantes das sopas de ondas e partículas incertas que compõem esse universozinho de meu deus.

Quod gratis asseritur, gratis negatur (O que é afirmado gratuitamente é negado gratuitamente) ou "What can be asserted without evidence can also be dismissed without evidence" (O que pode ser afirmado sem provas pode ser rejeitado sem provas) - conhecido com "A navalha de Hitchens" ou "Afirmações extraordinárias exigem evidências extraordinárias", conhecido como Padrão Sagan.

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Sondando os mistérios

Dúvidas infantis que costumavam me intrigar: a presença de mamas (ou só de mamilos) nos mamíferos machos é para favorecer uma eventual mudança de rumos do portador? E o Criador, que fez o Homem à sua imagem e semelhança, tem mamilos ou não? Tem narinas, pulmões, precisa respirar? Tem unhas? E umbigo? Nunca me satisfiz com aquelas respostas tipo "são mistérios insondáveis", porque na escola nunca me permitiram responder a nenhuma questão de prova com esse tipo de resposta. Também depois de tomar alguns cascudos e puxões de orelha após verbalizar esse tipo de curiosidade, concluí que era melhor guardar essas perguntas só para consumo individual. E com o passar do tempo percebi que só a questão da presença dos mamilos nos mamíferos machos tinha alguma relevância e possibilidade de ser respondida concretamente.

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Capangas da divindade

Um deus todo-poderoso que, sabe-se lá o porquê, não pode aniquilar diretamente seres que ele mesmo teria criado para não crerem nele... Que coisa!

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Blindando sua religião

Não acreditar é pecado; ter dúvidas é pecado; não ter fé é pecado; fraquejar é pecado; questionar é pecado; contestar é pecado; ridicularizar é pecado. Se você criasse uma religião, uma seita, um sistema de crenças, você deixaria a sua clientela livre para discordar, duvidar, contestar, questionar? Ou conferiria autoridade e sacralidade suficientes aos postulados dessa religião para que eles não fossem ameaçados nem tivessem a veracidade posta em dúvida?

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Respondendo às orações

Sabe quando você quer muito alguma coisa, fecha os olhos e pede por uma intervenção divina em seu favor ou de alguém próximo? Pois é: Deus é aquele que não responde às suas preces na grande maioria das vezes. Só que você não atribui isso a ele ou à falta dele. Mas se o que você desejava vier a acontecer, então a conexão divina está configurada, comprovada, etc. lsso pode ser denominado de wishful thinking (pensamento ilusório ou pensamento desejoso), e, portanto, não é verdadeiro.

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Os mistérios do mundo

Você foi ensinado a se satisfazer em não entender o mundo?  Não?  Pense bem, pois é isso que as religiões fazem - elas não estimulam a sua curiosidade. Muito pelo contrário.  Você foi ensinado a achar que há coisas que escapam à nossa compreensão e que essas coisas seriam apenas do domínio de algo superior?  Sim?  Deixe-me adivinhar: foi na sua educação religiosa. Não aceite postulados que suprimam o uso da sua razão. É importante se interessar em conhecer a natureza das coisas. Os mistérios do mundo estão aí para estimular nossa busca pelo conhecimento. Duvide, questione, pesquise, pense. Você é um Homo sapiens sapiens!

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O perigo da curiosidade

Aos curiosos e cientistas, eis as palavras de "incentivo" de Santo Agostinho pra vocês:  "There is another form of temptation, even more fraught with danger. This is the disease of curiosity. It is this which drives us to try and discover the secrets of nature, those secrets which are beyond our understanding, which can avail us nothing and which man should not wish to learn" (Confessions). Tradução livre: "Existe ainda uma outra forma de tentação, ainda mais repleta de perigo. É a doença da curiosidade. É essa que nos leva a buscar provar e descobrir os segredos da Natureza, segredos, esses, que estão além do nosso entendimento, os quais não podem nos beneficiar em nada e que as pessoas não deviam desejar entender" (Confissões).

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Eu não

Você precisa recorrer ao sobrenatural para levar a vida?

Você vive intimidado por temores a divindades, demônios e pela perspectiva de ser julgado após a morte?

Você acha que a vida é um preâmbulo menor que pode ser perfeitamente desperdiçado? Você acha que vai ter outra chance para reparar eventuais danos a si próprio e aos outros?

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O Tablet da Lei

As Tábuas da Lei com os 10 mandamentos estão defasadas.  Deve vir aí o Tablet da Lei, que só se referirá a fé, temor e dízimo. Furtos, assassinatos, falsos testemunhos, adultérios, castidades, cobiças, convenhamos, são pura letra morta - não pegaram.

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1º mandamento

Adore-me para que eu possa lhe salvar do que eu farei no caso de você não me adorar.

E olhem que no 1° mandamento, que não é o que o cristianismo inventou ("Amar a Deus sobre todas as coisas") e sim, "Não terás outros deuses diante de mim" (originalmente, ao pé da letra: "Não estará para ti deuses outros sobre as faces de mim") - há uma estranha admissão da existência de outros deuses... Interessante.

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Visões de mundo (traduzido e parcialmente adaptado de comentários na internet)

Visão de mundo do fundamentalista:

Eu sei que Deus criou o universo inteiro apenas para o benefício dos seres humanos. Ele me vigia constantemente e se preocupa com tudo o que digo e faço. Eu sei como Ele quer que eu e todo o mundo se comporte e creia. Ele é perfeito e justo, e é por isso que enfrentaremos uma eternidade de bem-aventurança ou de tortura, dependendo se acreditamos ou não nEle. 

Visão de mundo do ateu:

Nós somos o produto de milhões de anos de evolução. A maioria das espécies está extinta, assim como os seres humanos acabarão por estar. Espero fazer a diferença de modo positivo em minha existência, porque é a coisa certa a fazer, não por causa de futuras recompensas ou punições numa vida após a morte. Quando eu não sei alguma coisa, eu digo: "Eu não sei."

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Milagres são tragédias precisamente evitadas pelo acaso.

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Estranha mente humana, que tem gerado deuses que se comprazem com adulações e sacrifícios. Estranhos deuses esses que acolhem puxa-sacos torpes e falsos. Deuses que necessitam alimentar-se do aniquilamento de criaturas inocentes ou da abstinência dos prazeres da vida e supressão do pensamento crítico.

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"Basicamente para mim, não há muita saída a não ser aceitar que os humanos, boa parte deles, mesmo quando adultos, seguem com mentes estruturadas (provavelmente por predisposição genética) para interpretar o mundo de uma forma mágica, de modo que não podemos esperar deles racionalismo para interpretar fenômenos da Natureza." (Maria Cátira Bortolini, UFRGS)

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Seria bom que as pessoas tivessem clareza que a blasfêmia é um “crime” contra Deus, portanto só pode ser cometido por quem professa a crença em Deus.

Para um ateu, a blasfêmia é um “crime” sem vítima.

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Blasfêmia é o nome que se dá à difamação de alguns seres que só existem no imaginário.

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 E, no final, o que você vai ser ao morrer é o mesmo que você era antes de nascer.

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Dúvidas infantis que costumavam me intrigar: a presença de mamas (ou só de mamilos) nos mamíferos machos é para favorecer uma eventual mudança de rumos do portador? E o Criador, que fez o Homem à sua imagem e semelhança, tem mamilos ou não? Tem narinas, pulmões, precisa respirar? Tem unhas? E umbigo? Nunca me satisfiz com aquelas respostas tipo "são mistérios insondáveis", porque na escola nunca me permitiram responder a nenhuma questão de prova com esse tipo de argumentação. Claro que só bem mais tarde fui saber que a espécie humana, como todos os mamíferos, têm mamilos porque o desenvolvimento do embrião, antes da definição do sexo, que ocorre mais tarde, segue o mesmo padrão para sexo masculino e feminino, contempla as mesmas estruturas, incluindo a formação dos mamilos. 

Também, depois de tomar alguns cascudos e puxões de orelha após verbalizar esse tipo de curiosidade, concluí que era melhor guardar essas perguntas só para consumo individual. E com o passar do tempo percebi que só a questão da presença dos mamilos nos mamíferos machos tinha alguma relevância e possibilidade de ser respondida concretamente.




No meu tempo



Perguntas a meu neto:

Você sabe o que é um disco de música? Você sabe o que é discar um número? O que é um orelhão? O que é um tubo de imagem? Um seletor de canais? O que é um videocassete? O que é rebobinar uma fita? O que é uma agulha de vitrola?

Poderia continuar esse interrogatório por essa tarde inteira e não esgotaria as perguntas.

E pensar que a seu pai (meu filho) eu perguntava se ele sabia o que era um ferro de passar roupa a carvão; uma tramela; um trem a vapor; um fogareiro a querosene; um abano; um vasculhador; um escovão; uma enceradeira; uma galocha; a "friza" do cinema…

Não me lembro de meu pai ter-me falado de muitas coisas do tempo dele que já estivessem em desuso. Talvez tenha referido as moedas de réis, patacas, algumas práticas médicas temerárias que felizmente foram abandonadas (auto-hemoterapia, sangrias, etc), mas em termos tecnológicos, por exemplo, eu convivi com praticamente tudo que havia na juventude do meu pai.

Depois que eu casei, tenho testemunhado um vertiginoso movimento de introdução e superação de inovações tecnológicas, as quais tenho-me esforçado para acompanhar, porque, enquanto eu estiver vivo e capaz de observar e absorver o mundo ao meu redor, este também é meu tempo.

Para alguém que conviveu com ecos do paleolítico, Idade Média e  Brasil Colonial na infância, é natural surpreender-se e maravilhar-se com os avanços tecnológicos, como o iPhone em que essa mensagem está sendo digitada enquanto a tela mostra previews de incoming messages do Whatsapp e o tocador de música faz soar limpidamente "The Ballad of John and Yoko".

Temos feito grandes aperfeiçoamentos no mundo das máquinas e dos aparelhos. Já nas pessoas...




sábado, 5 de novembro de 2022

Melody



No início da década de 1970 eu costumava assistir aos filmes do recém-criado “Corujão da Madrugada”. Num desses filmes, cujo nome não gravei na época e que abordava uma história de amor infanto-juvenil, eu ouvi uma música linda, e que ficou gravada em minha mente apenas pela palavra “Melody”, nome da menina protagonista, que era repetido no refrão. 

Fiquei intrigado para descobrir que música era aquela - não consegui ver os créditos. Pareceu-me soar como os Beatles, mas achei improvável eu nunca tê-la ouvido antes. Nenhuma pessoa amiga a quem perguntei pela música, citando as poucas características que tinha preservado na memória, a conhecia nem tinha meios de me ajudar. Lembro de ter imaginado que num futuro de ficção científica deveria haver recursos pra que a gente pudesse fazer uma busca, fosse com dados do filme ou assobiando ou solfejando a música e aí aparecendo o resultado por mágica na nossa frente.

 

O fato é que acabei por redescobrir (ou descobrir) quem cantava essa música, pouco mais de 10 anos depois, num dia de sábado pela manhã em que estava de plantão no Hospital do Tórax (atualmente Hospital Santo Amaro), e alguém na vizinhança do Cemitério do Campo Santo estava ouvindo um LP com sucessos dos Bee Gees, quando de repente o ar se encheu com os acordes e vozes da dita música. Foi um verdadeiro achado. Cheguei em casa exultante e disse pra minha mulher que tinha descoberto quem cantava a música que ela, assim como eu, tinha ouvido uma vez e achado que era som dos Beatles. Nós já tínhamos um álbum duplo de Greatest Hits dos Bee Gees, mas, obviamente, essa música não estava lá. 

 

Aí parti para uma busca desenfreada nas casas de discos e nas seções de música da Mesbla, Sandiz e Paes Mendonça. Como eu não sabia o título da música, a estratégia era pegar o disco, levar pra vitrola da loja, colocar os fones e ir passando faixa por faixa aquelas cujos títulos não me eram familiares. Foi uma mineração árdua e infrutífera por um bom tempo.

 

Apenas quando os CDs chegaram ao mercado foi que finalmente encontrei a gema preciosa. Numa coletânea com nem tão grandes sucessos dos Bee Gees, lá estava ela: Melody Fair! A última faixa do CD. Ufa! Finalmente! Levei meu troféu pra casa e toquei Melody Fair numa quantidade de repetições de causar o mesmo efeito ocorrido com o gato de João Gilberto (quem não souber da história, informe-se). Tentei tirar a letra completa, mas ficaram umas lacunas. Só tempos depois fui descobrir que o filme, de 1971, se chamava “Melody” e recebeu no Brasil o título de “Quando brota o amor”.

 

Todas essas lembranças me ocorreram agora, quando acabo de ver um filme em que no final tocou um blues que achei interessante e automaticamente peguei o celular, abri o aplicativo Shazam e imediatamente a música foi localizada, identificada e disponibilizada para eu ouvir e baixar se quisesse. Aquilo que eu um dia imaginei só ser possível na ficção, agora faz parte das possibilidades de maneira natural. Não há alardes, espantos nem admirações para esse feito tecnológico. Mas, pra mim, o Shazam é o melhor e mais inacreditável aplicativo disponível no mundo real, virtual, ficcional e afetivo. Minhas congratulações a quem criou. Só acho que podia se chamar Melody!

 

 Atualização: o Google passou a disponibilizar uma função de localizar músicas, na qual você só precisa solfejar a melodia com um lá-lá-lá (até desentoado) para que apareçam os links/arquivos onde essa possível música pode ser encontrada. Um avanço e tanto. Eu me sinto privilegiado por ainda estar vivo e testemunhar esses feitos. Mas ainda aguardo que os programas de Inteligência Artificial componham uma música que preste. :)



terça-feira, 13 de setembro de 2022

ALMOÇO DE FATO


Lá nos remotos anos 60, na ainda mais remota Nazareth City ou Nazaré das Farinhas ou apenas Nazaré (para os nativos como eu e para a Geografia), os domingos me apresentavam de quando em vez o temível "almoço de fato" (ou fatada)  - preparação culinária desenvolvida (suponho) para competir com o gás mostarda na I Guerra Mundial visando ao extermínio de exércitos inteiros na primeira garfada ou nas poucas subsequentes.

A composição dessa temerária comida se constitui primordialmente de porções de todos os órgãos e tecidos presentes na cavidade abdominal bovina, incluindo aquelas esquisitices estomacais do ruminante que comportam até algo chamado “livro”, mais umas carnezinhas.  Tudo isso e mais temperos e condimentos diversos iam para a panela a fim de gerar um odor nauseabundo de vômito e golfadas em conserva, que circulava por toda a casa e, imagino, pelas redondezas, impregnando a mucosa olfatória de maneira tão persistente que se ameaçava perene. Ao fim do cozimento, as porções sólidas da coisa eram segregadas; com o que ficava na panela estava gerado um aterrorizante caldo, que devia conter toda a gordura prevista para um ser humano ingerir durante sua completa existência. A esse caldo era adicionada generosa e gradativa quantidade de farinha de mandioca para gerar o imprescindível pirão, o qual já trazia em si a fórmula dos adesivos mais potentes, pois ia se recusando firmemente a se desprender da colher de pau, exigindo determinação e autoridade de quem cozinhava para fazer sua remoção entre recipientes quando atingia o ponto de preparo ou ponto gatilho.

A gororoba pastosa era colocada sobre a mesa, ao lado (ou mesmo distante) das partes sólidas ou quase isso. Uns salivavam enquanto outros se benziam ou se persignavam (meu caso). Havia quem colocasse molho (de pimenta) no pirão para aumentar seu efeito devastador. A ingestão era acompanhada da sensação de deglutição incompleta, pois o pirão (não surpreendentemente) insistia em ficar grudado no palato. Os fatos propriamente ditos iam sendo, na medida do possível, mastigados e lançados diretamente da boca ao piloro, para indicar a trajetória e o sentido a ser seguido.

O meu temor e repugnância pela iguaria eram reforçados pelas histórias, contadas bem nessa hora do almoço, dos infelizes destinos de comensais que, após o consumo desse prato, experimentaram imediata indigestão,  congestão, derrames, paralisias, catatonias, estupores, só por se terem envolvido pós-prandialmente em atividade muscular outra que não apenas os movimentos respiratórios (cautelosos).

Não deve ser por outra razão, meus caros, que desenvolvi aversão ao domínio do fato.


24/05/2016